segunda-feira, outubro 28, 2024

UM ALERTA DO PASSADO PARA O FUTURO



27/out/2024 . 17:44

Por Alex Venícius Miranda

No final de semana prolongado pelas comemorações ao Dia dos Comerciários, Itabuna ganhou um “presente”… de grego. Um crime, um desrespeito à história e à cultura dos itabunenses. A casa construída pelo fundador de Itabuna, Firmino Alves, foi derrubada de forma sorrateira, quando todos tinham viajado para um descanso no feriado.

Uma empresa que havia comprado a propriedade derrubou o sobrado, jogando aos escombros uma valiosa parte do passado da região Sul. Em nota, o Poder Público informou que a empresa agiu sem as licenças devidas, desrespeitando o trâmite legal do processo administrativo.

Definitivamente, essa transgressão, esse desrespeito, finalmente, acendeu um debate na nossa cidade sobre que tipo de passado queremos deixar para as gerações futuras; uma Itabuna sem passado ou uma Itabuna, que berço da “Sociedade do Cacau”, ainda soube preservar um pouco do que resta da história de nossa cidade e região.

Tivesse esse bem sido tombado, tal absurdo não teria acontecido. O tombamento é um procedimento administrativo que cria uma intervenção na propriedade privada, visando, basicamente, proteger as características originais daquele bem.

No que concerne à legislação para proteção desse patrimônio temos uma competência concorrente entre a União, Estados e o Distrito Federal, ficando a União com a responsabilidade de ditar as normas gerais sobre o assunto, normas essas previstas no Decreto-Lei nº 25/1937. Na Bahia, o assunto é tratado pela Lei nº 8.895/1993, que foi regulamentada 03 (três) anos mais tarde, em 2006, pela Lei 10.039.

Assim, falece competência ao Município para legislar sobre a proteção do patrimônio artístico, histórico e cultural, tendo o dever de realizar ações fiscalizatórias e utilizar dos instrumentos previstos nas legislações federal e estadual para tombar os bens que entender como enquadrados nessas características.

Ou seja, os Municípios já possuem arcabouço legal para a proteção do que entende como de importância histórica para preservação do seu passado, bastando apenas intervir naquilo que entenda necessário para tanto, usando dos instrumentos legais já disponíveis. Basicamente, abre-se um procedimento administrativo, ouve-se o proprietário colhe-se o parecer técnico do órgão competente ( na esfera federal, o IPHAN; na estadual, o IPAC), e o Chefe da Secretaria responsável decide de acordo com a manifestação do órgão – ou não; parecer é uma consulta – inscrevendo o bem no Livro do Tombo e transcrição do tombamento no Registro de Imóveis, passando aquele bem à sujeição das restrições impostas pelo tombamento, sendo uma delas, a comunicação da venda ao Poder Executivo, para que o ente municipal, em havendo interesse, exerça o direito de preferência na compra. Além, óbvio, da manutenção das características originais do bem.

Precisamos agir com rapidez na preservação de nossa história, de nosso passado, pois como disse o filósofo romano, Marco Túlio Cícero, “A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos.”

E aqui, lanço-me à ousadia em completar: “Ao futuro, tem-se uma estrada a desbravar; ao passado, duas opções: ou preservar, ou destruir”.

Esperamos que Itabuna não adote a última opção…

Alex Venícius Miranda, é Juiz de Direito, pós-graduado em História do Brasil e analista CPA-20 pela ANBIMA.

https://www.politicosdosuldabahia.com.br/v1/2024/10/27/um-alerta-do-passado-para-o-futuro/

Nota da redação deste Blog -  Omissão e Descaso: A Câmara de Vereadores de Jeremoabo Enterra a História da Cidade"

A situação em Jeremoabo evidencia uma negligência lamentável por parte da Câmara de Vereadores, que, ao se omitir diante da destruição do patrimônio histórico, contribuiu para o apagamento de importantes marcos culturais e históricos da cidade. A demolição do Parque de Exposição e a apropriação indevida de materiais públicos, como os mourões e ripões, indicam graves falhas no cumprimento das funções de fiscalização e controle do Legislativo local. Esses atos, quando não apurados e responsabilizados devidamente, caracterizam crimes contra o patrimônio público, como o peculato, e agravam a sensação de impunidade.

Além disso, a gestão do prefeito Deri do Paloma deixou marcas de descaso com o patrimônio histórico. O assassinato de uma árvore centenária e o abandono do primeiro colégio da cidade demonstram o desprezo pela preservação cultural. A deterioração de construções significativas, como o Casarão do Coronel João Sá e a Casa Histórica do Caritá, revelam uma gestão que não valoriza a memória coletiva e que não promoveu ações para revitalizar ou conservar esses espaços.

O papel da Câmara de Vereadores deveria ser o de proteger o patrimônio histórico, seja por meio de ações legislativas, seja pela fiscalização ativa do Executivo. A legislação federal e estadual já oferece os instrumentos necessários para a proteção desses bens, como o tombamento e a abertura de procedimentos administrativos para sua preservação. Bastava que a Câmara agisse de forma proativa, requisitando pareceres técnicos do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ou do IPAC (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia) e utilizando os mecanismos legais para resguardar os bens identificados como de relevância histórica.

A omissão é particularmente preocupante porque, além de ser uma falha institucional, reflete uma falta de compromisso com a identidade e a história de Jeremoabo. A preservação do patrimônio não é apenas uma questão estética, mas um dever cívico que mantém viva a memória e fortalece o senso de pertencimento da comunidade. Como bem coloca o Dr. Alex Vinícius Miranda, a história é fundamental para a construção de uma sociedade que valoriza o seu passado e aprende com ele.

A frase de Cícero, "A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos", ecoa a urgência da situação: sem ações imediatas para proteger o que resta do patrimônio histórico de Jeremoabo, a cidade corre o risco de perder para sempre referências que contam a sua trajetória. A estrada para o futuro precisa ser desbravada com respeito ao passado, pois só assim se constrói uma identidade sólida e uma memória coletiva que transcende gerações.





Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas