terça-feira, maio 28, 2024

Lai Ching-te, novo presidente de Taiwan, terá de conter sua obsessão pela independência


China realiza manobra militar para intimidar os taiwaneses

Igor Patrick
Folha

Com a posse no início da semana, Taiwan tem um novo presidente. Lai Ching-te (ou William Lai), herdeiro político da ex-líder taiwanesa, fez carreira se autodenominando um “trabalhador pragmático pela independência” da ilha em relação a Pequim. Agora talvez perceba que o buraco é mais embaixo.

Lai vem de uma linhagem política bem diferente do costumeiro na ilha que Pequim considera uma província rebelde desde o fim da guerra civil em 1949. Por lá, costumava imperar o princípio de “uma só China”, com ambos os lados reivindicando legitimidade por todo o território chinês. Independência era um tema que não cabia no léxico do establishment.

MAIS SOBERANIA – Mas a sociedade taiwanesa vem mudando e a legenda do novo mandatário, o Partido Democrático Progressista (ou PDP), foi quem melhor leu o cenário e conquistou os eleitores. Enquanto o Kuomintang, que governou Taiwan com punho de ferro durante anos, insistia em cooperação, o PDP seguiu clamando por mais soberania.

Na Presidência, Tsai-Ing Wen, a ex-líder de Taiwan, acelerou as coisas. Passou reformas educacionais para ensinar nas escolas sobre “identidade taiwanesa”, com a óbvia motivação de desvincular a história da ilha da China continental. Insistiu também nas alianças com o Ocidente, jogou luz sobre as atrocidades cometidas pelo Kuomintang e seu líder Chiang Kai-shek durante os 38 anos da lei marcial e passou a criticar Pequim abertamente.

Seu legado é misto. Na década em que governou Taiwan, mais e mais taiwaneses não se reconhecem como chineses. Muitos ficaram também assustados com a brutalidade policial e a repressão à sociedade civil em Hong Kong durante os protestos de 2019, descartando completamente o modelo de “um país, dois sistemas” que Pequim sugeria a Taipé.

SEM APOIO – Mas foi também sob a batuta de Tsai-Ing Wen que a ilha viu o número de parceiros cair vertiginosamente. Taiwan pode ser essencial para as cadeias de produção globais graças à sua indústria de semicondutores, mas dificilmente conseguiria competir com a China em termos de investimentos que pode oferecer.

E assim, a pequena lista de parceiros diplomáticos foi encolhendo. Hoje, exceto por alguns países pequenos na América Central, África e o Vaticano, suas relações mais relevantes são com Paraguai e Guatemala (e mesmo nestes, o contato é frequentemente posto à prova, com crescentes reclamações do empresariado acerca dos benefícios de tais laços).

Lai Ching-te recebe o governo com desgastes na percepção de sua sigla. Embora tenha vencido as eleições no ano passado, não conseguiu manter a maioria no Yuan legislativo (o Parlamento local). Somados, seus dois oponentes favoráveis a contatos mais amigáveis com Pequim o superam em votos em quase 20 pontos. Claramente, seu pragmático plano para a independência não foi chancelado nas urnas e precisará ficar para depois.

NÃO ACREDITAM – A tradução destes números se faz perceber no contato com as pessoas. Fora um ou outro taiwanês mais aguerrido, fiquei surpreso em perceber na minha viagem a Taipé em março que a esmagadora maioria dos jovens com quem conversava se diziam a favor do status quo.

Eles não se enxergam como chineses e acreditam firmemente que, após tantas décadas, Taiwan hoje é uma entidade por si só. Mas em geral sabem que uma declaração formal de independência é o equivalente à guerra —e cientes das capacidades bélicas do inimigo, temem entrar em um conflito, duvidando que os Estados Unidos viriam em seu auxílio.

Pequim tem se certificado de manter a ameaça viva e, na quinta-feira, fez questão de retomar exercícios militares de larga escala no entorno do território. Medidas assim podem não convencer taiwaneses acerca de uma futura reunificação, mas ajudam a lembrar o que a China sempre prometeu: prefere a diplomacia, mas não vai renunciar à força para tomar aquilo que considera seu. O mundo que comece a rezar se for este o caso.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Assim como não cedeu Hong Kong, a China também não cederá Taiwan. E os Estados Unidos não vão se meter. Apenas 14 dos 193 países das Nações Unidas ainda reconhecem a soberania taiwanesa. Os Estados Unidos não fazem parte desse grupo. (C.N.)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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