quinta-feira, dezembro 28, 2023

Estado de eleição permanente - Editorial




Lula, Bolsonaro

Pesquisas recentes reafirmam a cristalização da polarização entre petistas e bolsonaristas e a importância de líderes que se dediquem a deslegitimar a intolerância na política

Duas pesquisas divulgadas recentemente registraram o mesmo patamar de solidez das preferências do eleitorado em relação ao presidente Lula da Silva e ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Tanto o Datafolha quanto a Quaest mostraram que a esmagadora maioria diz não ter se arrependido do voto dado no 2.º turno de 2022 (90% segundo o Datafolha, 88% de acordo com a Quaest). O Datafolha também reafirmou o tamanho de cada grupo vinculado ao lulismo e ao bolsonarismo: 30% se identificam como petistas, enquanto 25% se apresentam como bolsonaristas, mesmos índices registrados em dezembro do ano passado. Até aí, os números garantem o mérito das duas principais lideranças políticas do País e das forças que os apoiam. Goste-se ou não, o fato é que ambos os polos vêm conseguindo galvanizar o eleitorado em torno de si, calcificando as preferências a tal ponto que parece haver menos chance de que eventos novos e até dramáticos possam mudar as escolhas das pessoas nas urnas.

O problema, no entanto, vai muito além do que ver um Brasil cindido ao meio. Questionar a polarização a que temos assistido nos últimos anos não significa apenas pensar numa terceira via, buscar um caminho do meio ou desejar uma suposta neutralidade diante dos polos mais visíveis. Criticar a polarização não é nem mesmo negar a existência de polos ou buscar eliminá-los. Despolarizar a política não significa esfriar o debate ou desaquecer as diferenças; é mostrar que o problema começa quando liberdade e pluralidade são sufocadas por uma mentalidade que deslegitima as diferenças e transforma os adversários no próprio problema a ser combatido.

O perigo da preservação desses números em torno de Lula e Bolsonaro, ou entre lulopetismo e bolsonarismo, é aquilo que os acompanha e sustenta a vida dos extremos: cisão, dissolução de grupos, abalo ou ruptura de amizades e relações, interdição de debates públicos e privados, demonização do adversário. Diferenças políticas são saudáveis, e conflitos são parte de uma democracia funcional. Mas não parece nada saudável que se repitam gestos e atos tóxicos movidos por hostilidades, extremismos, disseminação ou acolhimento de desinformação e discursos de ódio deformadores da realidade, ou simplesmente a demonstração de incapacidade de lidar com diferenças.

Reconhecer os problemas da polarização parece mais fácil, porém, do que identificar responsabilidades para esse estado de coisas. E um papel fundamental para aprofundar ou conter as divisões nacionais tem nome: liderança. Líderes populistas – como Lula, Bolsonaro ou Donald Trump, que agora tenta voltar à presidência dos EUA – costumam recorrer a gatilhos da polarização para manter suas bases mobilizadas e engajadas. Alimentam-se do adversário. Estimulam a demonização e a deslegitimação do inimigo. Naturalizam o ódio e a violência política, que passam a ser justificados e aceitos como defesa à identidade pessoal e de grupo entre aqueles que os apoiam.

Elites políticas podem, ao contrário, ajudar a moldar a visão dos grupos que os apoiam e legitimar as diferenças – sem que isso se converta em redução do seu papel. Podem conter, e não ampliar, a proliferação de discursos perigosos e comportamentos violentos. Tais atributos, no entanto, têm faltado a boa parte das lideranças petistas e bolsonaristas. Segundo a pesquisa Quaest, significativos 58% dos entrevistados afirmam, por exemplo, que o presidente Lula ajudou a desunir o País (35%, algo próximo do seu eleitorado mais fiel, acreditam que ele ajudou a unir). Entre os eleitores bolsonaristas, previsivelmente 89% consideram que Lula ajudou a desunir. Mas, quando presidente, era Bolsonaro um dos principais artífices da desunião. Em outra pesquisa recente do mesmo instituto, mais da metade (54%) afirmou conhecer alguém que já rompeu relações por causa da política. E quando perguntados se se sentiam mal por ter rompido relações por esse motivo, nada menos do que 75% afirmaram que não.

O Brasil está a um passo de virar um país da intolerância política, tisnado pela sensação de que estamos diante de uma eleição permanente – e uma eleição na qual o objetivo não é apenas vencer, mas obliterar o adversário.

O Estado de São Paulo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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