quarta-feira, outubro 28, 2020

Jornalistas baianos lutam contra impunidade após 4ª agressão em 3 meses: 'Tentam nos calar'

 redacao@correio24horas.com.br

Foto: Divulgação

Repórter da Alvorada FM foi ameaçado no Nordeste da Bahia; comunicador Chico Sabe-tudo, de Paulo Afonso, também foi ameaçado e inquérito nem é investigado

A agressão dormita num inquérito policial, provocado pela queixa registrada pelo agressor. A ameaça direta contra o comunicador Chico Sabe-tudo, de Paulo Afonso, que se solidarizou com o colega de Jeremoabo, sequer é investigada, apesar de configurar prática criminosa (artigo 147 do Código Penal), segundo a Associação Bahiana de Imprensa (ABI).

Obrigado por escolher o jornalismo profissional lendo o Correio.
Em tempos de desinformação, a nossa equipe de jornalistas não para de checar e apurar os fatos para entregar conteúdo confiável para você.

“Vá tomar no… você e toda a imprensa, e se ‘zoadar’ vai tomar tiro na cara! Bote aí no ar, que eu vou aí em Paulo Afonso matar você, porque eu tô com vontade matar gente e beber o sangue”. A ameaça feita pelo chefe de gabinete da Prefeitura de Jeremoabo, no Nordeste baiano, já era desdobramento da agressão do seu colega de governo, que aplicou um soco pelas costas, contra um repórter da Alvorada FM.

Apesar dos protestos e pedidos de providências feitos pelos sindicatos de jornalistas da Bahia e de Sergipe, da ABI e da Associação Brasileira de Imprensa, as autoridades policiais baianas têm sido pouco efetivas, afirma a Associação Bahiana, em nota. "Em vez do respeito à vida e às liberdades democráticas, o que irradia pela região, a partir dos episódios impunes de Jeremoabo, é a violência", diz trecho.

Munido de decisão judicial garantindo o acesso à Unidade de Pronto Atendimento de Paulo Afonso, os jornalistas sergipanos Léo Dias e Larissa Baracho tentaram registrar a desmontagem dos equipamentos que adaptaram a UPA para atender pacientes contaminados pelo novo coronavírus. Os dois profissionais trabalham para a campanha de um candidato de oposição ao atual prefeito, João de Deus (PSD), também candidato.

Ainda do lado de fora, foram abordados por dois prepostos da Prefeitura de Paulo Afonso. Rodrigo Alexsandro Oliveira de Menezes, supervisor Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, nomeado pelo prefeito em 1 de setembro de 2020, e seu irmão gêmeo, Alexandre Oliveira Menezes, enfermeiro com contrato temporário com a administração local, abordaram os jornalistas. Um vídeo mostra o momento em que Rodrigo aplica um jato de produto químico, supostamente spray de pimenta, contra o rosto de Léo Dias a menos de um metro de distância.

O fato foi registrado em Boletim de Ocorrência na Delegacia de Paulo Afonso e a denúncia de Léo Dias apareceu timidamente na imprensa da região. Jornalistas ouvidos pela reportagem da ABI na condição de anonimato atribuem a baixa repercussão ao clima de intimidação pelo fato de a dupla de agressores ser reconhecidamente violenta. Um deles aparece em foto compartilhada em grupos de aplicativos de mensagens portando armas sorrindo.

“Nós jornalistas não podemos nos calar diante de situações como essa. Usam da opressão para tentam nos calar a todo custo” desabafou Léo Dias.

Para ele, os comunicadores precisam lutar por democracia porque “a política tem que ser feita de forma responsável e transparente, sem ferir os diretos de qualquer cidadão.”

Em nota, a Prefeitura de Paulo Afonso disse repudiar “todo e qualquer ato de violência ou intimidação, primando pelo respeito a todos os cidadãos. Dessa forma, inicia a averiguação dos fatos para que sejam tomadas as medidas cabíveis.” Os irmãos Rodrigo e Alexandre ainda não foram localizados pela nossa reportagem.

Os sindicatos de jornalistas da Bahia e de Sergipe assinaram nota em conjunto, repudiando os fatos e exigindo providências por parte das autoridades. “Além de enaltecer o repúdio contra esse ato, lamentavelmente protagonizado em um momento em que as ideias e propostas de avanços unificados deveriam prevalecer, solicitamos que as investigações sejam realizadas com rigor, e que os agressores respondam pelo ato infracional cometido. Pelo bem da soberania democrática presente na Constituição Federal de 1988, e pelo respeito à liberdade de imprensa, as entidades sindicais e a Fenaj exigem justiça; ao mesmo tempo, manifestamos a nossa solidariedade aos profissionais da comunicação agredidos e nos colocamos à disposição.”

O jornalista Ernesto Marques, presidente da Associação Bahiana de Imprensa, também se solidarizou com os colegas agredidos. É a quarta ocorrência em menos de três meses e acontece pouco tempo depois do caso de Jeremoabo, aumentando a preocupação da entidade pelo clima de tensionamento gerado pela proximidade das eleições.

Segundo o presidente, a ABI vai solicitar audiência com o secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa, para tratar da sequência de ameaças e agressões registrada pela entidade. “Esperamos uma ação mais contundente por parte das nossas autoridades, porque a condução burocrática e lenta dos inquéritos policiais tem o efeito prático da impunidade que encoraja os agressores a elevar o tom”.

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas