terça-feira, outubro 27, 2020

Sem controle de aglomerações, Bahia pode enfrentar 2ª onda de Covid antes do fim do ano


por Jade Coelho

Sem controle de aglomerações, Bahia pode enfrentar 2ª onda de Covid antes do fim do ano
Foto: Paula Fróes / GOVBA

Apesar do platô atual na curva da pandemia em relação aos casos ativos, novas ocorrências e mortes pela Covid-19, a Bahia pode ser afetada por uma segunda onda de contaminação até o fim do ano. O repique na curva de contaminação pela doença já é uma realidade na Europa e acende um alerta para outras localidade. A possibilidade foi admitida pelo secretário da Saúde, Fábio Vilas-Boas, ao Bahia Notícias, que teme os reflexos da flexibilização de atividades comerciais na capital e no interior, aglomerações e o abandono do uso de máscaras de proteção pela população, que tem sido comuns, principalmente em meio ao período eleitoral.

 

O titular da Sesab publicou gráficos para mostrar que a Bahia está em uma situação de platô da curva de contaminação, mas alertou para a possibilidade de uma retomada do processo de contágio em publicação no Twitter nesta segunda-feira (26). O secretário explicou que "esse platô, na sequência da forte redução que vinha ocorrendo (queda sustentada), significa uma retomada do processo de contágio" (leia mais aqui).

 

Os registros de casos, com novos recordes diários, começaram a ser identificados nas últimas semanas no continente europeu. Desde então os países da Europa, que passaram pelo primeiro pico da pandemia quando a doença chegou ao Brasil, nos meses de fevereiro e março, têm reforçado medidas para tentar evitar uma nova alta dos casos de coronavírus (leia aquiaqui e aqui).

 

RETRATO DO FUTURO?

É importante destacar que a Europa e o Brasil vivem momentos diferentes da pandemia. Na Bahia foi no mês de julho que foram registrados os índices mais altos de novos casos, mortes e ocupação de leitos, momento que países europeus haviam superado as medidas restritivas e liberavam fronteiras.

 

Em meados de junho, quando o verão no hemisfério Norte se aproximava, a Europa iniciou a flexibilização para turistas. Alguns países deixaram de fazer exigência de quarentena para visitantes, por exemplo. Agora, cerca de quatro meses depois, os países europeus tentam impedir um repique da Covid-19, cujas taxas de infecção diárias têm batido novos recordes.

 

Os gráficos apresentados pelo titular da Saúde na Bahia de fato mostram o atingimento de um platô no número de casos ativos e casos novos. Mas nada garante que, assim como na Europa, daqui a alguns meses a curva volte a se acentuar no estado.

 

Há uma semana, na segunda-feira (19), o governador Rui Costa sinalizou que o Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia (Lacen-BA) tem processado menos testes RT-PCR para diagnóstico da Covid-19 do que é capaz. O gestor reconheceu que os municípios têm realizado menos testes, fato que desperta preocupação (leia a matéria aqui).

 

Diante de questionamento sobre a queda no número de testes, o secretário Fábio Vilas-Boas afirmou que "o nível de testagem caiu, mas se mantém com 25% de positividade".

 

A flexibilização das medidas restritivas foi iniciada no fim de julho na capital da Bahia. A gestão municipal elaborou junto com o governo do estado o protocolo de retomada das atividades comerciais, e adotou a estratégia de condicionar a reabertura ao índice de ocupação das UTIs da cidade (leia aqui e aqui). Na fase 1, shoppings, igrejas e comércio de rua acima de 200m² foram os estabelecimentos autorizados a reabrir quando a ocupação dos leitos atingiu 75%. Na sequência, a fase 2 exigiu que a ocupação fosse estabilizada por pelo menos cinco dias em uma faixa até 70%. Nessa etapa houve a reabertura de academias de ginástica e similares; barbearias, salões de beleza e similares; centros culturais, museus e galerias de arte; lanchonetes, bares e restaurantes. Quando a cidade atingiu a estabilização nos leitos de UTI na faixa até 60%, foi colocada em prática a fase 3, em que foi liberada a reabertura de parques de diversões e parques temáticos; teatros, cinemas e demais casas de espetáculo; clubes sociais, recreativos e esportivos; e centros de eventos e convenções.

 

No estado o governador Rui Costa assinou um decreto no início de setembro em que ampliou o limite do número de pessoas permitidas em eventos em todo estado para 100 (leia aqui). Em 23 de outubro o número foi alterado, e passou a ser autorizado até 200 pessoas em eventos (leia aqui).

 

O governo estadual e a prefeitura de Salvador deram início neste mês a desmobilização de hospitais de campanha para pacientes da Covid-19. Até o momento já são três unidades em que o processo foi anunciado. O primeiro foi o instalado na Arena Fonte Nova, em Salvador,  que chegou a ter 240 leitos, sendo 100 de terapia intensiva (UTI). A unidade encerrou as atividades em 16 de outubro (leia aqui). No mesmo dia a prefeitura de Salvador anunciou que a tenda um do Hospital de Campanha do Wet'n Wild, na Paralela, havia entrado em processo de desmobilização (saiba mais aqui). Em seguida a Sesab anunciou que o Hospital Santa Clara, seria mais um a encerrar as atividades (veja aqui).

 

Assim como na Bahia, a Lombardia, epicentro da pandemia do novo coronavírus na Itália, chegou a desativar leitos dos hospitais de campanha. Mas depois de decretar toque de recolher noturno a partir de quinta-feira (22), o governo da Lombardia, decidiu reabrir os hospitais de campanha da Feira de Milão e do município de Bergamo, que funcionaram durante o pico da crise sanitária.

Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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