quarta-feira, março 30, 2011

A importância da natureza das coisas

Carlos Chagas

Contra a natureza das coisas não se investe impunemente. Nos idos de 1977 o general Ernesto Geisel entendeu de reformar o Judiciário calcado apenas em suas concepções. Deu no que deu, isto é, não houve reforma alguma e do episódio ficou apenas a lembrança do execrável “pacote de abril”, que o tonitruante presidente decretou, fechando o Congresso. Tudo pela razão muito simples de que para uma reforma eficaz do Judiciário, as primeiras propostas e subsídios deveriam provir prioritariamente do… Judiciário.

Estenda-se esse raciocínio lógico às demais reformas. Quem melhor do que os médicos, em suas diversas associações, para propor a reforma da saúde pública? Ou os professores, para promover a reforma do ensino?

Assim também na reforma política. Querem aprimorar o sistema partidário? Convoquem os partidos políticos, para começo de conversa. O processo eleitoral? Que tal ouvir o eleitor, mesmo através de consultas ou plebiscitos?

É claro que o Congresso dispõe de condições excepcionais para conduzir a empreitada reformista. Criar ou mudar a lei é sua principal atribuição, mas, para tanto, necessitaria buscar as fontes primárias, ou seja, realizar quantas audiências públicas se tornem necessárias, com a participação das respectivas comunidades, para qualquer reforma que lhes diga respeito.

O que se vê até agora, porém, é a presunção desmedida dos deputados e senadores que integram as comissões especiais da Câmara e do Senado, já entrando na discussão com idéias pré-concebidas. Por isso chegamos ao absurdo de senadores pretenderem impor aos deputados a forma de como devem ser eleitos.

Ou, no reverso da medalha, deputados engendrando acabar com os suplentes de senador e até reduzir-lhes os mandatos. Não se prega o corporativismo absoluto e nem se deve entregar o arcabouço das reformas exclusivamente àqueles interessados de forma direta. Mas que eles são a base, constituindo o primeiro passo para os debates, nem se duvida.

EMBAIXADORES PAULISTAS

Devem precaver-se Aécio Neves e José Serra, presumindo-se que sejam candidatos a candidato às eleições presidenciais de 2014. Porque o terceiro pretendente tucano ao palácio do Planalto não perde tempo. Geraldo Alckmin inova administrativamente ao criar a figura de seus embaixadores especiais junto ao estado que governa. São trinta, espalhados por trinta regiões paulistas, cada uma reunindo uma determinado número de municípios.

Como representantes pessoais do governador, dispõem de autoridade, poder e infra-estrutura necessários a dialogar com os prefeitos, examinar e atender suas pretensões, mobilizar secretários e prestar contas ao chefe. Verdadeiras embaixadas funcionam no estado, devidamente aparelhadas para agilizar a máquina administrativa e, em paralelo, sedimentar a liderança política de Alckmin.

Dentro de pouco tempo essa experiência poderá ampliar-se pelo país. Por que não embaixadores paulistas, mesmo informais, nas principais regiões do país e nos estados? A economia de São Paulo permite a extensão de sua influência ao Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul, onde seriam celebrados acordos variados de financiamento, expansão industrial, de comércio, serviços e sucedâneos, bem como alianças políticas capazes de embasar a candidatura do governador.

GREVE INADMISSÍVEL

Circula nos corredores dos tribunais superiores um temor com data marcada. As associações de juízes federais ameaçam com uma greve da categoria a 27 de abril. A paralisação das atividades dessa peça fundamental do Poder Judiciário soa como inadmissível, tão esdrúxula como seria a greve de ministros de estado ou do presidente da República, no Executivo, assim como de deputados e senadores, no Legislativo.

Trata-se de integrantes de instituições que, pela própria natureza, não podem interromper suas funções. Que os escreventes, datilógrafos ou oficiais de justiça de determinada jurisdição cruzem os braços reivindicando melhores salários, ainda se aceita. Mas juízes, de jeito nenhum.

QUANDO VOLTAR É CONSTRANGEDOR

Noticia-se que o ex-chanceler Celso Amorim voltou ao palácio do Itamaraty para almoçar com o atual, Antônio Patriota. Escolheram mal o restaurante, que poderia ser qualquer um entre centenas existentes em Brasília, menos aquele que funciona no ministério das Relações Exteriores.

Deve ser constrangedor voltar ao gabinete que se ocupou por oito anos e verificar que a mesa de trabalho não é mais dele, que o botão da campainha deixou de trazer auxiliares à sua disposição e que os telefones soam para outro.

Talvez por isso o ex-presidente Lula não tenha atendido ao convite para o banquete oferecido a Barack Obama. Aliás, não pôs mais os pés no palácio do Planalto. Melhor encontrar Dilma Rousseff em São Paulo, como já aconteceu, ou em Portugal, como está acontecendo…

Fonto: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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