quarta-feira, março 30, 2011

Acreditei que os equívocos, desencontros e contradições do ministro Luiz Fux, tivessem se esgotado no discurso (voto) sobre a “ficha limpa”. Nada disso, o ministro continua falando e desmentindo a si mesmo.

Helio Fernandes

Quando eu tinha 12 anos (desculpem, já órfão de pai e mãe desde os 7 anos, quando entrei na maravilhosa escola pública daquela época), de dia trabalhava num escritório, à noite fazia o ginasial no Pedro II, tendo como professores Antenor Nascentes, Euclides Roxo, Raja Gabaglia, os melhores nas suas especialidades.

O escritório ficava na Rua Senador Dantas, atrás da Cinelândia. Na hora do almoço, atravessava a Avenida Rio Branco, entrava no número 241 (o número é o mesmo até hoje, nesses 78 anos não houve renovação ou renumeração), onde funcionava o Supremo Tribunal Federal. De fora, um prédio comum, lá dentro duplamente imperdível. E eu não perdia mesmo.

Conheci então ministros de alta competência, me apaixonei pela História do Supremo. Já fui julgado três vezes por esses ministros, sempre ganhando, mas perdendo em outras “instâncias”. Vi e revi um prédio que poucos visitaram, as paredes e os tetos cobertos por obras de arte, que a maioria desconhece.

Depois da trágica, inexplicável e catastrófica mudança da capital, Carlos Veloso, presidente do Supremo, transformou aquele prédio num Centro Cultural admirável.

No discurso de inauguração, em determinado momento o ministro deixou de ler, ressaltou: “Tenho que ter muito cuidado ao falar sobre o Supremo, estou vendo ali o jornalista Helio Fernandes, uma das pessoas que mais conhece a História do Supremo”. Agradeci na hora, reitero agora.

(Outro registro indispensável: quando presidiu o TSE, Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Marco Aurélio Mello criou no Rio o Centro Cultural Eleitoral. Aproveitou a sede do Tribunal, um dos prédios mais inacreditáveis da cidade, enorme, todo de vidro, projetado por arquitetos italianos. Fica na Rua 1º de Março, onde toda a República se instalou. Também é indispensável uma visita, que seja por 20 ou 30 minutos).

Até 1960 (a “mudança”) frequentei habitualmente o Supremo. E escrevi sobre ele, sem restrições. Jamais imaginei que nos últimos 40 anos tivesse que discordar tanto e tão assiduamente de algumas das decisões, que os próprios ministros não entendiam, se desencontravam, se desentendiam, sempre se refugiando no indispensável mas iconoclasta “data venia”.

Hoje, o personagem principal (?) é o ministro Luiz Fux, não sei como conseguiu ser um dos 11 “notáveis” da ordem jurídica, participando contraditoriamente de julgamento irreversível. O ministro entra aqui pelo voto estapafúrdio, que palavra, e pelas explicações que se acha na obrigação de dar à comunidade.

O voto do ministro foi sofrível, menos do que razoável, não passaria no tão contestado mas indispensável exame e referendo da OAB. O surpreendente: Luiz Fux estava tão entusiasmado como se estivesse lendo a Encíclica “Rerum Novarum”, de sua autoria. Já se sabia como ele votaria, mas não sobrou dúvida, quando na primeira linha, chamou a “ficha limpa” de lei “BENFAZEJA”. Só ele usaria essa palavra.

Já gastei tempo exagerado com um voto nada exemplar. Vejamos as suas caminhadas pelo terreno ainda mais pedregoso do que a tribuna do Supremo. Primeira afirmação dada por Fux a repórteres: “Dizem que desempatei o julgamento, um absurdo. Apenas acompanhei a vontade MAJORITÁRIA dos ministros”.

Impressionante a declaração do novo Ministro. O primeiro julgamento terminou em 5 a 5, o segundo em 7 a 3 a favor da “ficha limpa”, por causa da grandeza do Ministro Celso de Mello, seguido do exibicionismo sem constrangimento do ministro presidente, Cezar Peluso.

Onde é que o ministro Fux encontrou a “vontade majoritária” num empate e numa derrota? Como gosta tanto de aparecer, está obrigado, agora pela necessidade, a esclarecer os números. O ministro não conhece nem aritmética, a parte menor e mais insignificante da matemática.

Continuando, Fux garantiu que nos “meus votos, procuro equilibrar RAZÃO e SENSIBILIDADE”. Acho que o ministro está vendo muita televisão por assinatura. Há anos, foi exibido nos cinemas um filme com o título de “Razão e Sensibilidade”. Agora, esse filme é mostrado na televisão, de três a quatro vezes por semana, na TV paga.

E finalmente, paremos por aqui. Fux não fez por menos: “Debaixo da toga do juiz também bate um coração”. Pode até ser, mas a oportunidade não seria para justificar o voto obrigatório condenando um simples deputado estadual? Já condenado por enriquecimento ilícito, irregularidade no exercício de cargos públicos, compra de votos.

Um elenco tão assustadoramente negativo, que não podia merecer um voto a favor. Acredito mais, que o agora ministro do Supremo queira se livrar de qualquer comparação com magistrados que costumam dizer: “Para mim só existe o que está nos autos. O que não está nos autos não examino nem me interessa”. É bom se livrar de parecer com muitos que não percebem que, por trás dos processos, está a coletividade.

***

PS – Quem acertou em cheio, e duas vezes, foi o ministro Lewandowsky. Uma no TSE e outra no STF. No TSE a “ficha limpa” venceu por 6 a 1, acabou referendada pelo Supremo.

PS2 – No Supremo, afirmou: “Cada caso é um caso, as decisões podem ser diferentes”. Perfeito. O julgamento sobre um mísero deputado estadual não pode firmar jurisprudência.

PS3 – “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode alcançar a nossa vão filosofia”. Alguns ministros sabem disso.

Helio Fernandes/Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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