quarta-feira, março 30, 2011

O plano de saúde do José Alencar

“Meus respeitos à família do José Alencar. Meus respeitos aos seus fãs. Mas façam-me o favor de não exaltar exemplos que não possam ser seguidos por qualquer um que não seja poderoso”


Morreu ontem o ex-vice-presidente José Alencar, aos 79 anos. Meus respeitos. Parecia um homem sério, salvo um ou outro escorregão feio. Em 2002, ele era considerado conservador, o que em si não é problema; ao longo do governo Lula, especialmente quanto mais frequentava hospitais, o ex-vice foi ganhando outra imagem pública.

Assistindo aos telejornais e lendo o noticiário na web e em outros lugares, você vai ler uma litania de elogios à sua vontade de viver. À sua força na luta contra o câncer. Até em heroísmo vão falar. Realmente, é fofo ver um velhinho saindo do hospital e dizendo querer assistir à formatura do bisneto que ainda não tinha nascido.

Mas devagar com o andor nas homenagens. Se Alencar deixou um exemplo, é um exemplo muito difícil de seguir.

Pelo Sistema Único de Saúde, como lembrou a Leandra Lima, ele já estaria morto há muito tempo. Marcar uma consulta simples no SUS demora muito. O sistema é relativamente eficiente no básico, mas conforme a situação vai complicando fica mais difícil ter tratamento. E a situação do ex-vice era extremamente complicada.

Se ele fosse fazer todas essas cirurgias pagando como particular, não haveria dinheiro que chegasse. Ele devia ter um plano de saúde muito bom – quem não tem plano de saúde morre três vezes mais do que quem tem, segundo estudo de 2006. Mas um plano tão bom quanto o que ele usava também não é pra qualquer um.

Quanto custaria

Consultei o corretor Paulo Sérgio Dias dos Santos, com quem comprei o meu plano de saúde há algum tempo. Perguntei a ele quanto custaria um plano de saúde que cobrisse internações no Einstein e no Sírio-Libanês para procedimentos tão complexos quanto esses pelos quais o ex-vice precisou passar nos últimos anos.

Resposta: na idade dele (79 anos), para essa cobertura, custaria nada menos do que R$ 2,2 mil por mês, nas principais empresas do ramo no Brasil. Mas elas não costumam aceitar clientes novos depois de certa idade. Geralmente os pacientes que pagam tudo isso já tinham o plano há tempos.

Lembre que planos de saúde são feitos para serem pouco usados. Quando o são, o cliente sadio paga pelo cliente doente. Aos 34 anos, por exemplo, eu pago mais de R$ 200, mas dificilmente tenho consultas mais de uma vez ao mês. E geralmente consultas “light”: otorrino, nutricionista, um eventual check-up. Na teoria, acaba sendo uma espécie de poupança: hoje você paga mais do que usa para depois usar mais do que paga, se precisar.

Mesmo quando precisa, enfrenta problemas. Alguns hospitais pararam de atender pacientes de planos de saúde em suas emergências, alegando que os planos pagam pouco.

No ano passado, no Notícias MTV, mostramos algumas vezes o caso do Marcelo Yuka, ex-baterista do Rappa. Ele foi baleado e perdeu a capacidade de caminhar. Seu plano de saúde brigou na Justiça para cortar alguns dos tratamentos.

Em 2010, pelo 11º ano consecutivo, os planos de saúde foram líderes de reclamações ao Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

Geralmente é você quem paga

Por ter sido senador entre 1999 e 2002, Alencar tinha direito a um plano de saúde vitalício. Consta que teria recusado. Mas mais de 400 senadores e ex-senadores – inclusive os que serviram por apenas meses – têm direito a esse benefício, continuado em março deste ano. Ex-senadores não precisam pagar um centavo sequer por isso. Ex-deputados, por um plano semelhante, pagam R$ 280 mensais. Pouco mais do que eu pago pelo meu.

Por serem velhinhos, muitas vezes eles precisam usar esse tipo de plano para coisas caras: no ano passado, o senador Romeu Tuma recebeu um coração artificial de R$ 300 mil no dia 7 de outubro para morrer 19 dias depois. Duvido que tenham lavado o aparelho para implantá-lo em outro paciente com mais chance de viver.

Saíam dos cofres públicos para a cobertura de nossas ex-autoridades, em 2009, o equivalente a R$ 32 mil por senador, todo ano. Isso dá R$ 2.666 por mês, pago por mim, por você e por nossos pais. Fecha mais ou menos com o valor que o corretor me informou.

Não acho injusto que nossos representantes tenham um bom plano de saúde. Acho complicado apenas que eles, que ganham bem e por vezes são empresários, não precisem pôr a mão no bolso sequer para pagar um pedaço do plano.

De qualquer forma, quem tem a atribuição de alocar recursos para o sistema público de saúde passa MUITO longe dele. E isso é sempre chato.

Meus respeitos à família do José Alencar. Meus respeitos aos seus fãs. Mas façam-me o favor de não exaltar exemplos que não possam ser seguidos por qualquer um que não seja poderoso. OK, é fundamental um velhinho ter vontade de viver. Mas se não tiver como bancar, só a vontade não adianta.


Leia também:

Senado gastou R$ 17 milhões com despesas médicas de senadores e ex-senadores

* Marcelo Soares é jornalista, tradutor e instrutor em São Paulo. Em 2010, foi o responsável pelo blog e reportagens do projeto “Tome Conta do Brasil”, da MTV.

Outros textos do colunista Marcelo Soares*

Fonte: Congressoemfoco

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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