quarta-feira, março 30, 2011

Atentado a um blogueiro e o silêncio de quem nunca calou



Atentado a um blogueiro e o silêncio de quem nunca calou

Um crime em plena luz do dia, numa rua movimentada de Copacabana, ainda não tem resposta da polícia


"Não interessa se Ricardo Gama é advogado e não jornalista formado. A atividade dele é claramente jornalística. Onde estão a OAB, a ABI, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e o próprio Sindicato dos Jornalistas, mesmo ele não sendo associado, mas que sempre se posicionaram em casos semelhantes? Todo mundo vai continuar ignorando a ameaça que paira sobre o Rio de Janeiro?".
Anthony Garotinho, deputado federal (PR-RJ).
Esta é a última página de Ricardo Gama, vítima de atentado à bala

Às onze horas da manhã, a rua Santa Clara, que liga o Bairro Peixoto à Copacabana, tem sempre um grande movimento. Nesses dias de sol quente, esse movimento dobra. Quem vem de Botafogo para a praia pelo Túnel Velho tende a usá-la, tornando o seu trânsito meio lento.

Pois foi ali, naquele burburinho, que o advogado e blogueiro Ricardo Gama foi vítima de um atentado na quarta-feira, 23 de março. Um homem que dirigia um Ford K prata disparou três vezes contra ele, na cabeça e no peito.

Ricardo Gama foi socorrido na hora e levado para um hospital particular, ali perto. Submetido a duas operações, sobrevive e aparentemente está fora de perigo: segundo informação do hospital Copa D'or, Ricardo está lúcido e caminha com o auxílio de fisioterapeutas.

Primeiro atentado conta blogueiro

Esta é talvez a prime ira tentativa de assassinato no Rio de Janeiro de alguém que mantém um blog na internet. É um crime bárbaro e covarde, e, no entanto, a nossa mídia tem falado muito pouco ou quase nada a respeito. Reclamado, pedido apuração rigorosa, nem pensar.Por alguma razão que só Deus sabe, o máximo que faz é dar notinha de pé de página, quando dá.

Quem acompanha o corajoso trabalho do blogueiro não tem dúvida: trata-se de um crime político. Sua atuação, que põe muitos jornalistas de carteirinha no chinelo, tem incomodado muita gente, principalmente o governador Sérgio Cabral e os policiais corruptos, frequentemente denunciados em seu blog.

Com uma pequena câmera, Ricardo Gama vinha documentando abusos de poder. É seu o vídeo que circulou por toda a internet, quando Lula veio visitar as obras do PAC em Manguinhos e Sérgio Cabral bateu boca com um garoto, a quem chamou de otário, deixando de considerar suas queixas em nome da comunidade.

Quando fecha ram os acessos de Copacabana para o show de Roberto Carlos, no fim do ano passado, ele foi ouvir os moradores prejudicados, que não podiam chegar às suas casas, exatamente no bairro onde foi baleado e onde mora.

Na visita de Obama, postou um vídeo em que apontava com arbitrária a prisão de 13 manifestantes, que participaram de um protesto em frente ao Consulado dos Estados Unidos, Na sua fala, fez também uma pesada carga contra a Justiça, que manteve os manifestantes presos até que o presidente dos Estados Unidos fosse embora.

A polícia já admite que identificou o dono do veículo de onde fizeram os disparos, a partir das gravações dos prédios próximos. Essa foi a única informação liberada até agora. Mas pelo cenário do crime, com a quantidade de pessoas na rua movimentada, era de se esperar notícias mais concretas.

O silêncio da OAB e da ABI que nunca calaram

Havendo uma vontade real de chegar logo ao autor dos disparos, a polícia fluminense tem meios técnicos para apresentá-lo rapidamente.

Só não entendi até agora a omissão da OAB em relação a um atentado a um advogado. Esse crime não atinge somente a pessoa de Ricardo Gama. Antes, é uma ameaça que alcança a todos os cidadãos, ao sagrado instituto da liberdade de expressão.

Da mesma forma, esperava que a ABI tomasse a frente de alguma iniciativa no sentido do rápido esclarecimento do caso, até porque seu presidente, Maurício Azedo, sempre foi um atento defensor da liberdade e da integridade dos profissionais de comunicação e dos cidadãos.

O blogueiro é hoje um comunicador, integra a mídia com uma ferramenta que é a sua mais plural e democrática novidade. Logo no início, o atentado foi um dos dez assuntos mais comentados no twiter, segundo a jornalista Berenice Seara, do EXTRA.No entanto, a única entidade que se manifestou claramente foi a Repórteres sem Fronteiras
.

Hoje há milhões de comunicadores que chegam até a opinião pública através de sites, blogs e redes sociais. Eles encarnam a liberdade de expressão no seu alcance mais amplo e mais pujante, rompendo com a ditadura de uma mídia cada vez mais concentrada.

Será que os blogueiros terão de se organizar em entidades próprias, estabelecendo medidas de defesa dos seus direitos à liberdade com uma linguagem específica?

No Brasil, a internet ainda não chegou a um estágio de influir e mobilizar como em outros países do mundo. No entanto, já começa a registrar casos de intolerância a níveis mortíferos. Isso que aconteceu com Ricardo Gama, não tenha dúvida, pode virar moda. Principalmente se a sociedade civil organizada não agir a tempo de punir exemplarmente os autores de um atentado tão covarde - quem atirou e, se for o caso, seus possíveis mandantes.

O deputado Garotinho chegou a pedir uma comissão externa da Câmara F ederal para acompanhar o caso. Mas não me consta que aqui na Assembléia Legislativa tenha sido tomada qualquer iniciativa para levar ao rápido esclarecimento do atentado.

Até que isso aconteça, provavelmente milhares de blogueiros estão se sentindo inseguros, como aconteceu com as rádios comunitárias.

Daí, de imediato, a convocação de uma manifestação para esta quarta-feira, dia 30, às 7 da noite, na praça do Bairro Peixoto, junto ao local onde aconteceu o atentado.

Quem sabe se ali não surge o embrião de uma organização própria em defesa da liberdade de expressão dos milhares de blogs e sites da internet?

Para conhecer o blog de Ricardo Gama clique em
http://ricardo-gama.blogspot.com/

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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