A MEMÓRIA CURTA E O VALOR DO SUS: O Que Era a Saúde Pública no Brasil Antes do Sistema Único
Por José Montalvão
Na atualidade, tornou-se comum ver cidadãos criticando de forma irrestrita o Sistema Único de Saúde (SUS). Apontam-se falhas, filas de regulação, demoras em exames e pontuais faltas de medicamentos como se a existência de uma rede pública de saúde fosse algo irrelevante ou "a mesma coisa que nada". Contudo, essa visão tacanha e ingrata só é sustentada por quem padece de uma severa amnésia histórica ou por quem jamais conheceu o Brasil antes da Constituição Cidadã de 1988.
Ignorar a importância vital da saúde pública hoje é desconhecer a própria história e esquecer o sofrimento das gerações passadas, especialmente no interior do Nordeste.
O Brasil Pré-SUS: A Exclusão Criminosa da Maioria da População
Antes da promulgação da Constituição de 1988 e da criação do SUS, a saúde no Brasil era dividida em duas categorias cruéis:
Os Segurados do INAMPS: Apenas os trabalhadores com carteira assinada e contribuição formal para a previdência social tinham direito ao atendimento médico em postos e hospitais conveniados do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS);
Os "Indigentes": A imensa maioria da população — trabalhadores rurais, agricultores familiares, feirantes, desempregados e trabalhadores informais — não possuía direito a nada. Eram rotulados e tratados oficialmente pela administração pública como "indigentes".
Quem não tinha carteira assinada nem dinheiro no bolso para pagar consultas e cirurgias particulares dependia exclusivamente da caridade de Santas Casas de Misericórdia ou de favores políticos.
┌─────────────────────────────────────────────────────────────┐ │ A SAÚDE ANTES DO SUS │ ├──────────────────────────────┬──────────────────────────────┤ │ TRABALHADOR COM CARTEIRA │ Atendimento via INAMPS │ │ TRABALHADOR RURAL / INFORMAL │ Sem direito; "Indigente" │ │ EMERGÊNCIAS E SOCORRO │ Inexistente; Sem SAMU │ │ MEDICAMENTOS E VACINAS │ Pagos do próprio bolso │ └──────────────────────────────┴──────────────────────────────┘
Morria-se Antes dos 50 Anos por Falta de Atendimento Básico
No Brasil pré-SUS, casos simples de infecções, crises hipertensivas ou complicações de diabetes evoluíam para óbito prematuro. Dificilmente um trabalhador rural ou um cidadão de baixa renda ultrapassava os cinquenta anos de vida sem ser vitimado pela ausência de socorro médico básico.
Não existia o SAMU para resgatar o paciente na porta de casa em um infarto ou acidente; não existia distribuição gratuita de medicamentos contínuos para pressão e diabetes; não existiam campanhas vacinais universais que erradicaram doenças devastadoras como a poliomielite e a varíola; e a regulação de leitos UTI era um privilégio restrito a quem podia pagar vultosas diárias hospitalares.
A Luta Diária e o Dever de Defender o Sistema Público
Críticas pontuais e cobranças por melhorias na gestão da saúde pública — como a agilização na liberação de exames e a manutenção de estoques de medicação — são legítimas, necessárias e fazem parte do meu papel enquanto jornalista e cidadão. Exigir o bom funcionamento do SUS é um dever de todos.
Porém, criticar a gestão para aperfeiçoar o serviço é completamente diferente de tentar desmerecer ou destruir a instituição do SUS.
O SUS garante:
Atendimento Ambulatorial e Hospitalar: Das consultas de rotina na Unidade Básica de Saúde (UBS) às cirurgias de alta complexidade e transplantes de órgãos;
Urgência e Emergência: A presença constante do SAMU salvando vidas nas estradas e nas cidades;
Acesso à Medicação: Programas de medicação de alto custo e distribuição nas farmácias básicas do município;
Vigilância Sanitária e Vacinação: Proteção coletiva que atinge do grande centro ao menor povoado do sertão.
Conclusão: Valorizar a História para Proteger o Futuro
Ter a memória curta é um perigo social. O povo de Jeremoabo e de todo o Brasil precisa lembrar de onde veio para dar valor ao patrimônio que conquistou. O SUS é uma das maiores políticas de inclusão e justiça social do planeta.
Melhorar o atendimento, cobrar rigor dos gestores e combater a morosidade são metas permanentes. Mas reconhecer que o SUS salva milhões de vidas todos os dias e garantiu a ampliação da expectativa de vida do nosso povo é uma questão de justiça, honestidade e respeito com a nossa história!
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: Defendendo o SUS com espírito crítico, combatendo a desinformação e lutando pela melhoria da saúde pública em Jeremoabo!