domingo, setembro 20, 2026

Dino usa método de Lênin para acusar André Mendonça e prejudicar sua imagem


Ninguém acusou André Mendonça de nada. E é justamente esse o problema

Dino era militante comunista e conhece a obra de Lênin

Rogério Pires
Revista Timeline

Você desliza o dedo pela tela e a manchete passa de relance: “Flávio Dino proíbe a Polícia Federal de investigar André Mendonça.” Meio segundo de leitura, talvez menos. E, sem perceber, você já escolheu um dos dois caminhos.

O primeiro é o caminho gentil. Que colega solidário. Dino protegeu Mendonça de um constrangimento. O segundo é o caminho que interessa. Espera aí: por que a Polícia Federal estaria investigando um ministro do Supremo? Pronto. Ninguém acusou ninguém de nada. Mas a suspeita já está de pé, andando sozinha pela cabeça do leitor.

ARDIL DE DINO – Vamos aos fatos, que são poucos e simples. Dino determinou nesta quinta-feira que a Polícia Federal e a CVM investiguem a suposta relação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com as concessionárias que administram o serviço funerário de São Paulo, depois que reportagens revelaram um encontro entre Vorcaro e André Mendonça em março de 2025.

Na mesma decisão, ele escreveu que “é vedado qualquer ato investigativo que possa atingir o ministro André Mendonça”, porque isso compete ao presidente do STF. Tecnicamente, está correto. Juridicamente, está correto. E é exatamente por isso que o detalhe importa.

Em 1917, Lênin escreveu um artigo curto chamado “Political Blackmail” (Chantagem política). A definição dele é cirúrgica: expor, ou ameaçar expor, histórias verdadeiras e mais frequentemente inventadas, com o objetivo de causar dano político ao adversário.

TUDO COMO ANTES – Cento e nove anos depois, o mecanismo continua intacto, e o método de Lênin nunca precisou de uma acusação para funcionar. Precisa de três coisas apenas: um nome, uma palavra pesada ao lado desse nome, e um jornal para carregar os dois juntos até a mesa do café da manhã do país inteiro.

Agora preste atenção no que me chamou a atenção. Dino não precisava fazer aquele alerta. A Polícia Federal sabe perfeitamente que não pode investigar um ministro do Supremo por conta própria, ignorando as regras de competência. Isso é o abecedário do processo penal brasileiro. Não é notícia, não é novidade, não é risco iminente.

Mas o nome foi escrito. Por extenso. André Mendonça. Não houve acusação. Não houve denúncia. Não houve condenação. Houve apenas a proximidade tipográfica entre um nome e um conjunto de palavras: Polícia Federal, investigação, banqueiro preso, cemitérios, dinheiro. Quando a imprensa embrulha tudo isso numa manchete de seis palavras, o serviço está completo, e ninguém precisou sujar as mãos.

COMO DE HÁBITO – Eu já vi esse filme antes. Vimos esse mecanismo de associação rodar durante anos contra Bolsonaro, e contra tanta gente que nunca se sentou no banco dos réus, mas que passou a carregar uma dúvida permanente colada ao sobrenome. A dúvida é mais barata que a prova e dura muito mais tempo.

O ponto não é decidir aqui se Mendonça errou ou acertou ao receber quem recebeu. Isso será apurado, e deve ser apurado, e eu quero ver apurado. O ponto é entender como a sua opinião sobre ele foi formada antes de qualquer apuração existir.

Portanto, constata-se que existe uma forma muito eficiente de destruir a reputação de um homem público, e ela não exige provas. Não é preciso nem dizer que ele é acusado, muito menos culpado. Basta fazer o público se perguntar se ele é.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Excelente texto de Rogerio Pires, que é jornalista, professor e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro. O artigo foi enviado por Carlos Vincente e mostra como se pratica o chamado “assassinato de reputações”. (C.N.)

 

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