segunda-feira, setembro 14, 2026

Supremo já perdeu a fronteira entre crise institucional e disputa eleitoral da Presidência


Guerra no STF suplanta esforço de acomodação de Fachin

Igor Gielow
Folha

O conflito entre ministros do Supremo Tribunal Federal já não se distingue da disputa eleitoral entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A ação da Polícia Federal sobre o caso “Dark Horse”, autorizada por Flávio Dino, por óbvio tem vida própria em termos de relevância, mas se encaixa na ordem de batalha político-judicial em curso.

Ela foi definida por André Mendonça ao revelar o relatório com suspeitas sobre Alexandre de Moraes na relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, após saber que o colega tinha tido acesso ao documento sigiloso.

“TIMING” – Se o que está colocado é gravíssimo para o agora ex-relator do inquérito das fake news, o “timing” favoreceu diretamente Flávio, filho do ex-chefe e responsável pela indicação de Mendonça à corte.

Ato contínuo, o presidenciável politizou o caso e mirou a associação política entre Lula e Moraes, esquecendo de forma conveniente a relação de seu grupo com Mendonça e, principalmente, o fato de que ele próprio é objeto de suspeita no caso Master.

Nenhum de seus argumentos sobre a relação com o “meu irmão” Vorcaro até aqui parou de pé: Flávio nunca apresentou a contabilidade do apoio alegado ao filme e sim, havia dinheiro público na empreitada.

CERCO – Talvez antecipando o que o próprio presidenciável vendeu a apoiadores como uma “facada” no 7 de Setembro na Avenida Paulista, a produtora do filme procurou Mendonça para tentar levar ao STF o cerco que a polícia paulista fazia sobre o caso.

Acabou vendo Dino, que associou o episódio com a investigação sobre emendas parlamentares sob sua guarda, tomar a frente. Com isso, a tática bolsonarista poderá acabar expondo o candidato a mais revelações, com impacto eleitoral ainda a ser definido. Isso dito, o PT já calcula o dano da crise.

Do ponto de vista de foco político, a ofensiva autorizada por Dino vem em socorro de Moraes em um momento delicado para o aliado. O ministro que conduziu a condenação de Jair Bolsonaro vinha trocando fogo de artilharia pesado com Mendonça.

FREIO DE ARRUMAÇÃO – Após a revelação de suas relações com Vorcaro, ele buscou enquadrar o colega, que reagiu mandando afastar do cargo o diretor-geral da PF e o chefe de inteligência do órgão, segundo ele mancomunados com Moraes. O presidente do Supremo, Edson Fachin, buscou sair da catatonia institucional em que se encontrava e apresentou um freio de arrumação na quarta-feira (9): suspendeu todas as medidas dos dois ministros rivais.

Ao mesmo tempo, emasculou Moraes ao removê-lo da relatoria do inquérito das fake news, ainda que tenha mantido todas as decisões tomadas até aqui. E marcou para terça (15) uma sessão do Supremo para discutir se ele será objeto de investigação.

EXPOSIÇÃO – Moraes está exposto como nunca esteve, e é sintomático que tenha cancelado o pronunciamento que faria nesta quinta apenas uma hora após anunciá-lo. Foi um raro sinal público de indecisão do combativo ministro. Um conhecido seu dos tempos de Secretaria de Segurança de São Paulo diz que nunca o viu tão pressionado, mas que isso não deve antecipar uma capitulação.

Ele lembra que Mendonça ainda terá a regularidade de suas decisões discutida, e que na disputa maior, Flávio tem mais a perder do que Lula no caso Vorcaro. Por um caminho diverso, independentemente de mérito ou premência, Dino acabou por recolocar o caso “Dark Horse” no topo do noticiário. A “Pax Fachini” proposta pelo presidente do Supremo durou poucas horas.


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