quinta-feira, junho 18, 2026

Alvo da PF, Wagner exibia o temor dos políticos com a delação de Vorcaro



Jaques Wagner foi alvo de operação da PF nesta quinta-feira

Roberto Nascimento

Nesta terça-feira, dia 16, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), saiu de seus cuidados e subiu à tribuna para fazer um surpreendente discurso, criticando a reforma da Lei da Delação Premiada, que o Congresso aprovou em 2013.

Wagner disse que o Congresso não percebeu, à época, os riscos de permitir acordos de colaboração com investigados já presos. “Nós, acho, cometemos um erro. A lei de delação premiada, que foi aprovada ainda no tempo da presidenta Dilma, admitiu a delação premiada com as pessoas sob coação, com as pessoas presas”, afirmou.

SOB COAÇÃO – O mais curioso foi ver o líder do Governo dizendo que, esse modelo abriu espaço para acusações obtidas sob “coação psicológica” durante as investigações da Lava Jato.

“Na verdade, foi com essa delação sob coação psicológica, a real, que se arrancou um número infindável de acusações que levaram o atual presidente Lula à cadeia.”

Em seguida, o parlamentar petista disse que a colaboração premiada deveria ocorrer apenas com investigados em liberdade. “O instituto da colaboração é para alguém que esteja em liberdade e resolva colaborar para evitar que seja eventualmente preso. Alguém que está preso, que tipo de coação tem? Vai voltar para a Papuda? Não vai voltar para a Papuda?”, questionou.

APOIO A ALCOLUMBRE – O discurso de Wagner foi feito em solidariedade ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), que negou ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro. O líder petista aproveitou para também desmentir ter se envolvido em negócios com Vorcaro na Bahia.

Quando um político se manifesta sobre um fato, como é o caso do senador do PT da Bahia, Jaques Wagner, sempre há uma relação de causa e efeito. Assim, ficou demonstrado o temor de Wagner, Alcolumbre Rui Costa, Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro e muitos outros que mamaram nas tetas do Banco Master. E, nesta quinta-feira, a PF fez  operação de busca e apreensão contra Wagner em Salvador, suspeito de receber propinas e uma apartamento de luxo.

E o assunto vai render, porque Vorcaro quer trocar de advogado e insistir no pedido de delação premiada, embora isso não signifique que será evitada sua transferência para a prisão da Papuda, até que aceite contar em detalhes como comprava apoio político no Congresso e proteção no Planalto e no Supremo, pagando caro e sem garantia de entrega, como se viu no caso do contrato de R$ 129,6 milhões com a mulher do ministro Alexandre de Moraes.


Permanência de Ciro Nogueira no Senado ficou insustentável

Se parlamentares continuarem inertes ante novas evidências da relação com Vorcaro, serão cúmplices

São estarrecedoras as novas revelações da Polícia Federal (PF) sobre a relação de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e artífice de fraudes multibilionárias, com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas (PP).

É inaceitável a promiscuidade de líderes graduados do Congresso com um corruptor contumaz. À medida que o inquérito sobre corrupção e lavagem de dinheiro se aprofunda, acumulam-se evidências contra Nogueira. Torna-se a cada dia mais insustentável sua permanência no Senado.

O que se sabe até o momento já é suficiente para abertura de processo de cassação por quebra de decoro, independentemente de decisão da Procuradoria-Geral da República sobre denunciá-lo.

Mensagens revelam que Vorcaro pagou hospedagem a Nogueira e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no hotel cinco estrelas Four Seasons de Lisboa.

Relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) corrobora, segundo a PF, “achados referentes às vantagens indevidas recebidas pelo senador”.

Em maio, a PF já revelara mensagens segundo as quais Vorcaro pagava a Nogueira mesada de R$ 300 mil, depois reajustada para R$ 500 mil. De acordo com a investigação recente, o senador montou uma rede para ocultar os valores ilícitos.

Quanto a Motta (…). De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, há no celular de Vorcaro pedido de Motta por liberação de empréstimo à empresa de uma cunhada. Suas explicações são insuficientes.

O presidente da Câmara não pode receber nenhuma vantagem de alguém com interesses em projetos na Casa, muito menos de uma figura como Vorcaro. Motta deveria prestar esclarecimentos sobre suas interações com o banqueiro e seus intermediários, além de tornar públicas todas as hospedagens e caronas em jatinhos recebidas no exercício do mandato.

Sobre a relação entre Nogueira e Vorcaro, restam poucas dúvidas. Antes de ser liquidado pelo Banco Central (BC), o Master oferecia papéis com retorno muito acima do praticado no mercado, usando como chamariz a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a aplicações até R$ 250 mil.

Em junho de 2024, Nogueira viajou para Lisboa por conta de Vorcaro. Dois meses depois, quando os apuros do banco eram conhecidos, apresentou proposta redigida pelo próprio Master aumentando a garantia do FGC para R$ 1 milhão.

Em janeiro de 2025, viajou para Courchevel, nos Alpes Franceses, onde foi fotografado aos abraços com Vorcaro.

Em setembro daquele ano, em meio ao cerco do BC às fraudes e diante do veto à venda do Master ao Banco de Brasília, aliados de Nogueira na Câmara assinaram requerimento de urgência para projeto estipulando exoneração de diretores do BC pelo Congresso.

Enquanto defendia os interesses do Master no Congresso, Nogueira se deixou fotografar com Vorcaro, pegou carona em seus jatinhos e desfrutou o luxo propiciado por ele em Nova York, Lisboa, Paris e nos Alpes.

Tamanha desfaçatez mostra como confiava na impunidade. Se os parlamentares permanecerem inertes ante tantas evidências, serão cúmplices de qualquer crime por que venha a ser condenado.

O Globo, Opinião, 18/06/2026 00h10 Por Editorial


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