sábado, junho 13, 2026

Escândalos fazem Flávio Bolsonaro despencar entre evangélicos

 

Escândalos fazem Flávio Bolsonaro despencar entre evangélicos

Vaza Flávio derruba intenções de voto do senador após revelações sobre o patrocinador do filme ‘Dark Horse’

A candidatura bolsonarista continua a sofrer as consequências das reportagens da série Vaza Flávio. As profundezas do universo “Dark Horse", nome do filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, estão ficando cada vez mais conhecidas e os prognósticos são os piores para o bolsonarismo.

O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, está despencando nas pesquisas. Só entre os evangélicos, por exemplo, ele caiu nove pontos
na pesquisa Genial/Quaest divulgada essa semana. O estrago foi enorme. Também não era para menos. Quase todo dia aparece uma nova mutreta. Já há material suficiente para a produção de “Dark Horse 2”. 


Como o Intercept Brasil mostrou em dezembro de 2025, a dona da produtora de “Dark Horse”, Karina Ferreira da Gama, aquela que nunca havia produzido um longa-metragem na vida, também tem uma ONG. E a organização, quem diria, tem um contrato milionário com a prefeitura de São Paulo, na gestão Ricardo Nunes, do MDB, para fornecer internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda da cidade.

Esse contrato
está sendo alvo de investigação policial e do Ministério Público sob suspeita de superfaturamento, fraude em licitação e desvio de dinheiro público. A entidade simplesmente não prestava os serviços contratados e emitia notas frias para receber os pagamentos. 


Nesta semana, o Intercept divulgou que essa mesma ONG desviou uma verba milionária do Sesi, como apontaram auditorias da Controladoria-Geral da União, a CGU. Não, não se trata de “dinheiro privado” como gosta de dizer Flávio Bolsonaro. Os valores desviados pelo esquema vêm de recurso público federal.

A CGU identificou nos negócios da ONG com o Sesi problemas que o MP-SP está investigando nos contratos com a prefeitura de São Paulo: superfaturamento e a possibilidade de terem sido emitidas notas frias. As auditorias da CGU revelaram que a ONG operava em um CNPJ sem capital social, que foi utilizado para transferir a grana para uma rede de empresas de fachada.


O fio puxado pelo Intercept não para de sair. Esse novelo é grande e muita coisa ainda vai aparecer. Nesta semana, uma apuração da Folha de S.Paulo revelou que o buraco da bandidagem é ainda mais embaixo e toca num ponto sensível da narrativa bolsonarista: o crime organizado


De acordo com a reportagem, um mesmo fundo de investimento, chamado Gold Style, fez transações com uma fintech apontada como "banco paralelo" do Primeiro Comando da Capital, o PCC, a BK Bank, e com a empresa responsável por repasses à produção de "Dark Horse", a Entre Investimentos e Participações, ligada a Daniel Vorcaro. Ainda que não se possa afirmar que existe uma relação direta entre os bolsonaristas e o PCC, o fato é que Vorcaro mandou dinheiro pela Entre Investimentos e Participações, que também negociou com o mesmo fundo de investimento da facção. 


Não podemos esquecer também que, entre julho de 2022 e dezembro de 2025, a Entre Investimentos enviou R$ 139 milhões para empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro. As movimentações financeiras envolvem alvos suspeitos de ligação com o PCC e com integrantes da máfia italiana. O esquema funciona de maneira sofisticada, usando debêntures sigilosas e uma rede de empresas de fachada para ocultar a origem dos recursos e dificultar o rastreamento das transações.  


O bolsonarismo comemorou os frutos provenientes do patético encontro entre Flávio Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O governo americano classificou o PCC e o Comando Vermelho, o CV, como grupos terroristas e isso foi tratado pelos bolsonaristas como uma vitória resultante da visita ao presidente dos EUA.


De acordo com as leis estadunidenses, qualquer pessoa ou empresa que atue nos Estados Unidos que enviar ou receber dinheiro de grupos terroristas, ainda que indiretamente, está sujeita a penas criminais severas. Daniel Vorcaro, o grande amigo e patrocinador de Flávio, já poderia ser enquadrado pelas novas diretrizes antiterrorismo do governo americano. Não é difícil de imaginar que isso possa acabar respingando na família Bolsonaro em algum momento. Há ainda muita coisa a se puxar desse novelo.

O calvário da candidatura de Flávio Bolsonaro promete ser longo. Não se trata mais apenas de explicar as rachadinhas com funcionários do seu gabinete quando ele era deputado estadual do Rio de Janeiro. Agora, a família Bolsonaro tem que explicar ao eleitor brasileiro — e, teoricamente, ao Departamento de Justiça americano — como o dinheiro chegou aos EUA. 


Até aqui as investigações indicam um cinismo absoluto: enquanto os Bolsonaros pregam o combate implacável ao crime organizado, seus aliados e operadores dividem o mesmo balcão de negócios com ele. Mal posso esperar para ver como o roteiro de “Dark Horse 2” irá explicar esse curioso capítulo.

Vice dos sonhos


A Vaza Flávio realmente deixou Flávio Bolsonaro zonzo. Logo após a publicação das primeiras reportagens, ele decidiu abandonar o personagem moderado e voltou a ser um Bolsonaro raiz. Não deu muito certo. De lá prá cá o candidato seguiu em queda livre nas pesquisas. Agora, para tentar retomar o perfil moderado, Flávio está dizendo que quer colocar uma mulher como vice da sua chapa.


Iniciou-se então uma campanha pela escolha da deputada da tiara florida, Júlia Zanatta. Eduardo Bolsonaro foi quem sugeriu o nome da catarinense. Uma das mais radicais deputadas da extrema direita está cotada para ser a vice de uma chapa que se pretende vender como moderada. É uma lógica meio primitiva, muito própria de quem foi criado por Jair Bolsonaro.


Nesta semana, Zanatta deixou claro o tamanho do seu despreparo. A deputada foi a um podcast e, sem ter a menor ideia do que estava falando, criticou “as políticas econômicas ruins” do governo, “que geram inflação". Um dos apresentadores perguntou: “quanto está a inflação no Brasil hoje?”. Imediatamente as flores da tiara murcharam e Zanatta começou a gaguejar. “Está estratosférica. Eu não sei bem quanto. Está bem ruim.", disse enquanto procurava a informação no Google. “Eu vi ontem ainda. Sou péssima com números”. 


Zanatta é deputada federal, mas não sabe o básico. Ela entende de armas, de gritaria e lacração na Câmara, mas não sabe qual é a inflação do seu país. É ignorante na economia, e conservadora radical nos costumes. Essa pessoa está sendo cogitada para dar um verniz de moderação à candidatura. É tudo tão absurdo que parece o roteiro de “Dark Horse”. 


MBL sendo MBL


O MBL só pariu aberrações para a política brasileira. Gabriel Monteiro, Mamãe Falei, Kim Kataguiri, Rubinho Nunes, Fernando Holiday e muitas outras figuras lamentáveis que representam o que há de pior na direita brasileira. Por algum tempo tentaram se vender como uma direita mais liberal, moderada, mas sempre foram essencialmente extremistas. Hoje, Renan Santos, candidato à presidência pelo partido Missão, não esconde mais o radicalismo. "Sou Milei na forma e Bukele no conteúdo", admite ele.

Nessa semana conheci um novo exemplar da fauna do MBL. Eduardo Bisotto, marqueteiro do grupo, chamou Vini Jr de macaco durante uma live em que assistia ao jogo do Brasil. "O Virgínio é incapaz de acompanhar... A incapacidade cognitiva dessa gente me irrita".

Em seguida, ele grita para Vini Jr: "Vamos, ô mono". “Mono” significa macaco em espanhol. Bisotto não se arrependeu da frase ostensivamente racista e escreveu um textão em que começa dizendo que não irá se desculpar. Prometeu ainda processar todos os “criminosos” que chamaram ele de racista. A militância digital do MBL não censurou Bisotto de forma alguma. Pelo contrário, uma
onda de solidariedade se formou em torno dele. 

Até agora não se viu nenhuma liderança do movimento comentar o caso. Bom, vindo da marca MBL a gente não esperava nada de diferente. Estamos falando de um grupelho cujo principal representante na política defendeu abertamente o direito dos nazistas se organizarem em partidos políticos na Alemanha mesmo depois do Holocausto.

É o mesmo grupelho que viu alguns de seus militantes abandonarem o barco por causa
da tolerância interna ao nazismo. Essa é a turma que se vende como uma alternativa direita ao bolsonarismo. O fato é que MBL e bolsonarismo são muito próximos, tanto no espectro ideológico quanto no moral.

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