quinta-feira, junho 11, 2026

Aceitar estoicamente o destino não deve impedir nossa evolução política e social


Ilustração de Ricardo Cammarota foi realizada em técnica digital, vetorial, sobre fundo preto com moldura fina dourada de cantos arredondados. A composição é formada por elementos geométricos e símbolos distribuídos horizontalmente. À esquerda, uma linha vertical dourada conecta um círculo serrilhado menor na parte superior, um círculo maior com múltiplos raios ondulados na região central e uma lua crescente na parte inferior. No centro, uma linha curva dourada atravessa a composição formando ondas suaves. Sobre essa linha está uma balança simétrica com haste vertical central e dois pratos triangulares suspensos, ambos preenchidos parcialmente por formas semicirculares douradas. Abaixo da balança aparece o símbolo da letra grega psi (Ψ). À direita, uma linha vertical sustenta uma sequência de formas geométricas. Na parte superior há um círculo contendo triângulos sobrepostos e um triângulo preenchido voltado para baixo. Abaixo aparecem dois triângulos alinhados verticalmente, um deles com um círculo vazado no centro. Mais abaixo há triângulos contornados, alguns com linhas tracejadas. Pequenos pontos e estrelas douradas e brancas estão espalhados pelo fundo, simulando um céu noturno.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Quando escolas filosóficas entram na moda, temos como consequência dois fenômenos. O primeiro, negativo, é o uso abusivo de ideias tiradas de contexto e utilizadas como algum tipo de ferramenta motivacional. Penso que a categoria de conteúdo motivacional é uma das misérias do pensamento em nosso tempo. Viciante, move toda uma economia de ideias empobrecidas a serviço da ignorância e da mentira sistemática.

O segundo ponto, positivo, é a possibilidade de que a escola filosófica que “entra na moda” possa despertar em almas mais consistentes o interesse pela filosofia que está em questão. E a escola filosófica à qual me refiro neste artigo é o Estoicismo.

CONSTATE ESTÓICA – O filósofo espanhol, autor do grande dicionário de filosofia que carrega seu sobrenome, José Ferrater Mora, afirma no verbete “Estoico” que o estoicismo se caracteriza por ser uma “constante estoica”. Esse fato pode ser responsável, em grande parte, pelo seu sucesso entre o senso comum e, mesmo, no uso empobrecido, quando essa constante se despedaça no discurso motivacional.

“Constante estoica” significa que o estoicismo fala com todos nós, independente da época em que vivemos, principalmente, se levarmos em conta o fato que os verdadeiros estoicos viveram na Grécia e em Roma desde o século 4º a.C., com seu fundador Zenão de Cítio, em Atenas, e seguiram até o século 2º d.C. em Roma, com o imperador filósofo Marco Aurélio.

SEIS SÉCULOS – No total, cerca de 600 anos se passaram até que seu último grande representante, Marco Aurélio, viesse a morrer em 180 d.C. Por isso, trata-se de uma escola filosófica cujas fontes são fragmentadas, muitas vezes contraditórias.

O maior acesso que temos a essas fontes são dos três grandes estoicos em Roma, Sêneca, senador romano, Epicteto, escravo liberto grego, mas que viveu parte da sua vida em Roma, e o imperador filósofo Marco Aurélio. Esses poucos dados servem para nos dar alguns parâmetros da complexidade da constituição temporal da escola estoica.

O primeiro problema com relação à banalização do estoicismo é porque se trata de uma filosofia muito distante do discurso de sucesso e controle da vida que marca a nossa época. Muito pelo contrário, um estoico porá em dúvida a validade de pensar a vida como um projeto de controle sobre as coisas e os eventos a nossa volta.

BANALIZAÇÃO – Por outro lado, sem que isso justifique a banalização que toda moda de pensamento carrega consigo, a ideia de que podemos, sem apelos a tradições religiosas práticas, aprender racionalmente a viver com menos sofrimento, pode parecer que se trata de uma espécie de “autoanálise cognitiva” a serviço de uma vida melhor.

O que a faz uma constante também é sua proposta de que podemos, por nós mesmos, nos tornarmos mais sábios, ainda que aprendendo com a tradição filosófica que lhe era anterior. De novo, nada mais distante da ideia contemporânea de que a tradição de nada serve a não ser como afetação vintage.

Vejamos alguns dos temas que marcam, por exemplo, o universo de angústias estoicas —que são constantes entre nós humanos— na abordagem do imperador filósofo Marco Aurélio.

AS ANGÚSTIAS – Misantropia, ou seja, uma desconfiança profunda com relação aos homens e suas ações no mundo, o medo da morte, o sentimento do vazio da existência, a monotonia, a covardia repentina que nos acomete diante da vida e, acima de tudo, a consciência da efemeridade do tempo —a fuga do tempo— e da impotência humana.

Assim, o especialista Pierre-Maxime Schuhl resume as preocupações estoicas centrais. Pergunto: como encarar temas como esses banalizando-os, vestindo-os com a capa da simplificação a favor do sucesso no fim do dia?

Por outro lado, estoicos como Epicteto, seguido por Marco Aurélio, estabelecerão três estratégias ou modos de ação diante dos problemas da vida, conhecidas como “topoi”. Em oposição a eles, identificarão vícios simétricos, já que esses “topoi” serão entendidos como virtudes, por sua vez.

VAZIO DE INTELIGÊNCIA – É preciso entender que tudo tem uma causa que é fruto da natureza e que escapa ao nosso controle e que, portanto, não devemos atribuir uma intenção contra ou a favor de nós. O vicio oposto, por sua vez, é o “vazio de inteligência”, ou seja, a incapacidade de compreender nossa impotência diante da natureza ou do cosmos.

Sempre levarmos em conta aqueles que vivem conosco, portanto, ter um senso de comunidade ativo. O vício oposto é se apartar do vínculo com as pessoas com quem vivemos.

Estar atento a nossa alma, intelecto e corpo, e não fazer deles veículos de desordem. O vício oposto é contaminar, com as agitações da nossa alma e do nosso corpo, o mundo a nossa volta.

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