
Zambelli acompanha a distância os próprios recursos
Hédio Ferreira Júnior
O Tempo
Longe do barulho político brasileiro, a temporada europeia de Carla Zambelli tem sido marcada por silêncio – e protocolos. Presa em Roma desde julho de 2025, a ex-deputada cumpre uma rotina enxuta: visitas limitadas, comunicação filtrada e contato com a defesa quase todo mediado por e-mails.
Na prática, Zambelli não faz videochamadas e só pode receber o marido na prisão – mas isso até seis vezes por mês, em encontros que duram, no máximo, uma hora cada. No front jurídico, o canal também é estreito: por telefone, apenas com um advogado que tenha número de telefone da Itália.
PONTE DIGITAL – Com o Brasil, a ponte é digital – mas do tipo mais “analógico”. É por e-mail que ela fala com Fabio Pagnozzi, responsável por sua defesa no país. Foi assim, aliás, que reagiu às últimas movimentações da Justiça italiana. Em mensagem recente, resumiu seu sentimento em duas palavras: “sem chão”.
O pano de fundo é o avanço do processo de extradição – já autorizado nos casos ligados à invasão de sistemas do Judiciário e ao porte ilegal de arma. Do lado da defesa, o discurso de nova decisão judicial favorável a mandá-la de volta é de continuidade, não de novidade. A avaliação é que não houve mudança relevante nas decisões e que os novos atos repetem entendimentos anteriores.
ESTRATÉGIA – Ainda assim, a estratégia segue em marcha: um novo recurso deve ser apresentado, mesmo que com argumentos semelhantes – movimento visto como necessário para manter o caso “respirando” nos tribunais. Nos cálculos da própria equipe jurídica, a extradição pode levar cerca de 18 meses – prazo tratado mais como estimativa do que como cronograma.
Fora das cortes, o isolamento também é político. Interlocutores tentaram abrir portas com autoridades italianas, como a premiê Giorgia Meloni e o ministro da Justiça Carlo Nordio, mas não houve agenda nem sinalização pública em falar sobre o caso. Com ninguém.
FUGA – Zambelli foi localizada pela Interpol após deixar o Brasil, em junho de 2025, quando passou à condição de foragida. A prisão veio semanas depois, já em Roma, onde buscava asilo político.
A condenação que sustenta o processo foi imposta pelo Supremo Tribunal Federal, com pena de 10 anos de prisão por envolvimento na invasão de sistemas do Judiciário. Desde então, o caso se desenrola entre decisões judiciais e tentativas diplomáticas – enquanto, do outro lado, a ex-parlamentar acompanha tudo à distância, com acesso limitado e poucas interlocuções.