Ministro expôs ao presidente o seu desejo de sair do cargo
Sérgio Roxo
O Globo
Com a possível saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia o ano com desafios na gestão de uma área considerada prioritária na disputa pela reeleição.
A busca por substituto do ministro, que manifestou sua vontade de deixar o cargo recentemente, se juntou a outra mudança debatida no Planalto e que ainda não encontra consenso no entorno do presidente: a divisão da pasta, com a criação de uma estrutura dedicada exclusivamente à segurança pública, promessa de campanha ainda não cumprida pelo petista.
MISSÃO CUMPRIDA – Lewandowski expôs ao presidente o seu desejo de sair do cargo em uma conversa no último dia 23 no salão de autoridades do Aeroporto de Congonhas. Ele alegou que considera já ter cumprido a sua missão no cargo. Lula ouviu e disse que a decisão não abalaria a relação de amizade entre eles, mas pediu um tempo para escolher um substituto.
Já a divisão do Ministério é objeto de debate interno no Executivo e tem como objetivo focar no enfrentamento ao crime organizado, tema de forte apelo para a direita e motivo de desgaste para seguidos governos do PT. O partido defende a criação do Ministério da Segurança Pública, mas uma ala do Planalto avalia se é conveniente implementar a mudança a menos de um ano da eleição. Lula tem afirmado publicamente que criará a pasta se a PEC da Segurança Pública for aprovada pelo Congresso. Uma outra possibilidade é deixar a inovação para o eventual novo mandato, caso o petista seja reeleito.
IMPASSE – De acordo com aliados, Lewandowski acredita que Lula irá definir o novo titular nos primeiros dias de janeiro, assim que voltar do período de descanso na Restinga da Marambaia, no Rio, viabilizando a sua saída em breve. Integrantes do governo, porém, não levam fé em desfecho tão rápido, já que o petista costuma postergar decisões desse tipo.
Paralelamente, auxiliares do presidente, como o ministro da Advocacia Geral da União (AGU), Jorge Messias, trabalham para convencer Lewandowski a rever a sua posição. Um outro integrante do governo afirma acreditar que Lula não quer a saída do ministro da Justiça. Diz ainda que a situação é semelhante à do ministro da Defesa, José Múcio, que no começo do ano revelou seu desejo de deixar o governo, mas depois voltou atrás.
OPÇÕES – Esse aliado afirma que Lewandowski está cansado, mas retornará melhor das férias. O ministro volta a Brasília em 8/1 para participar do ato de memória dos três anos da tentativa de golpe e invasão das sedes dos Poderes. Caso o plano de convencê-lo a ficar não dê certo, são citados como opções para a pasta o atual ministro da Controladoria Geral da União (CGU), Vinicius de Carvalho, e o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Carvalho ganhou destaque ao atuar nas investigações que resultaram na operação da Polícia Federal contra fraudes no INSS. Ao falar na CPI sobre o caso, o chefe da CGU também se saiu bem, na avaliação do Planalto, ao fazer o embate político com adversários do governo, como o senador Sergio Moro (União-PR). Pessoas próximas a Vinicius de Carvalho garantem que ele não tem se movimentado nem foi sondado para mudar de pasta.
Já aliados de Pacheco afirmam que ele não está disposto, neste momento, a assumir o cargo, caso o convite venha a ser feito. Segundo esses aliados, o senador não trabalha com a hipótese de ingressar no Executivo e avalia que o cenário político e institucional não oferece incentivos claros para uma mudança desse porte.
DISPUTA – A resistência ocorre em meio a uma disputa recente entre o Planalto e a cúpula do Senado, após Lula ter preterido Pacheco na indicação à vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), com a escolha de Messias, cujo nome ainda não foi votado pela Casa. A leitura entre senadores foi a de que o presidente ignorou um compromisso político construído ao longo da legislatura, ampliando ruídos na relação com o Congresso em momento considerado sensível para a articulação.
Um integrante do Ministério da Justiça acredita que os pretendentes ao comando da pasta devem se manter discretos em seus movimentos. O presidente não gosta quando identifica articulações públicas ou de bastidores em busca de cargos de primeiro escalão nos seus governos.
OBSTÁCULO – No caso de Pacheco, um outro obstáculo apontado por aliados para a sua entrada no governo é a possível desidratação do Ministério da Justiça com a criação de uma pasta específica para a Segurança Pública. A divisão alteraria significativamente o peso político da Justiça, ao transferir para uma nova estrutura a agenda mais visível e com maior capacidade de articulação federativa — especialmente junto a governadores, forças policiais e ao próprio Congresso.
Em entrevista ao Valor publicada no dia 22, Lewandowski, que era contra a criação da nova pasta, disse que concorda “com o presidente que essa divisão faria sentido, primeiro, se houvesse uma ampliação do papel da União no combate à criminalidade”. O principal caminho para ampliar o papel da União na área é a PEC da Segurança. A proposta defendida pelo governo busca constitucionalizar o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), estabelecer diretrizes nacionais e padronizar protocolos, estatísticas e sistemas de informação entre os entes federativos.
CAUTELA – No cenário de divisão da pasta, um dos nomes mencionados nos bastidores para a eventual chefia do novo Ministério da Segurança Pública é o do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Ele se aproximou de Lula após coordenar a segurança do então candidato durante a campanha presidencial de 2022 e passou a integrar o núcleo de confiança do presidente na área. Sua eventual indicação, no entanto, é vista com cautela por integrantes do Congresso.
Parlamentares avaliam que a escolha de um delegado para chefiar a área de segurança poderia ampliar tensões com o Legislativo, em um momento em que a corporação tem conduzido investigações envolvendo o envio de emendas parlamentares. A atuação da PF nesses casos tem incomodado a cúpula do Congresso e é citada como um fator potencial de resistência a uma eventual nomeação.
Aldo Rebelo entra na disputa com discurso progressista e crítica ao STF

Rebelo se lança à Presidência com plataforma anti-PT
Levy Teles
Estadão
O ex-ministro Aldo Rebelo lançará sua candidatura à Presidência pelo partido Democracia Cristã (DC), em 2026, com a plataforma dos “4Rs”: retomada do crescimento, redução das desigualdades, revalorização da democracia e reconstrução da agenda de defesa nacional. Antes aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Rebelo agora faz fortes críticas ao governo e a entidades ligadas ao meio ambiente e aos povos indígenas, como o Ibama e a Funai.
“Ibama, Ministério Público, Ministério do Meio Ambiente, Funai e Ministério dos Povos Indígenas são responsáveis por parar o País, com a cumplicidade do presidente, que é quem nomeia. Ou você remove os obstáculos para o crescimento ou o Brasil não vai sair do lugar”, afirma.
DESLIGAMENTO – Para o ex-ministro, essas instituições “imobilizam” o que ele chama de três alavancas para o desenvolvimento nacional: as fronteiras da agroindústria, da energia e dos minérios. Rebelo anunciou o desligamento do MDB após coordenar para a sigla o programa “Caminhos para o Brasil – Nosso País, Nossa Causa”.
Agora, quer disputar a eleição para o Palácio do Planalto por um partido nanico. Será a primeira vez desde 1998 que o Democracia Cristã terá um novo candidato à Presidência. Sai de cena José Maria Eymael – que deixou o comando do DC em julho – e entra como “presidenciável” um ex-comunista.
Ex-aliado do PT, Rebelo já ocupou o Ministério da Coordenação Política no primeiro mandato de Lula e presidiu a Câmara dos Deputados de 2005 a 2007. Depois, sob o governo Dilma Rousseff, foi ministro do Esporte, da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Defesa.
OUTRAS LEGENDAS – Desde que, em 2017, deixou o PCdoB, partido no qual militou por 40 anos, o ex-ministro passou por outras quatro legendas – PSB, Solidariedade, PDT e MDB – e deu uma guinada em sua trajetória política. Nos últimos tempos, ele se afastou da esquerda e se aproximou do bolsonarismo. Em 2024, foi secretário municipal de Relações Internacionais na gestão do prefeito Ricardo Nunes.
Rompido com Lula, Rebelo diz que hoje o petista é “refém” do Supremo Tribunal Federal (STF) “O Brasil tem um governo sem autoridade, refém do STF e sequestrado pela sua própria fraqueza. Não conta com o Congresso para nada”, criticou. “É o governo que mais sofreu derrotas para o Congresso nas últimas décadas e que se mantém de pé porque está escorado nas decisões do STF”.
No seu diagnóstico, o Congresso quer exercer atribuições do Executivo pelo chamado orçamento secreto e o STF “usurpa” competências dos dois outros Poderes. “O Brasil precisa é reunir o poder blindado”, avaliou.
“FANTÁSTICO” – No ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) definiu Rebelo como “um cara fantástico” e chegou a dizer que gostaria de vê-lo à frente do Ministério da Amazônia, em uma eventual segunda gestão. Com Bolsonaro preso, Rebelo defende agora a anistia. Não apenas para o ex-presidente como “para todos” os envolvidos na trama golpista.
“Como é que você pacifica um país? É esquecendo. Se quiser pacificar, é para anistiar todo mundo. Você não quer chegar ao governo para botar o antecessor na cadeia”, argumentou o ex-ministro, destacando que o Brasil tem coisas mais importantes para cuidar. “O País precisa reunir energias para cuidar de seu futuro. E esses problemas menores precisam ser esquecidos”, insistiu.