segunda-feira, fevereiro 27, 2023

Desafio de regular inteligência artificial não tem paralelo - Editorial




Sistemas que simulam atividades criativas terão impacto profundo nos negócios, na política e na vida

É uma piada antiga entre cientistas da computação traduzir a sigla IA por “imbecilidade automatizada”. Nos últimos tempos, a brincadeira perdeu a graça, tamanho o avanço nos sistemas de “inteligência artificial”. É verdade que não é muito adequado chamar um software de “inteligência”. Mesmo assim, nos últimos anos a IA ultrapassou barreiras críticas que a tornaram mais acessível — e se tornou o ramo mais promissor e desafiador da tecnologia digital.

A principal das barreiras é um teste atribuído ao matemático britânico Alan Turing: a partir do momento em que um observador não seja mais capaz de distinguir respostas do computador e dos humanos, dizia Turing, será possível afirmar que a máquina é dotada de inteligência. Tal questão filosófica ainda deverá permanecer sem solução por um bom tempo, mas vários sistemas de inteligência artificial lançados recentemente são hoje capazes de enganar os observadores desavisados.

É o caso do robô de bate-papo ChatGPT, desenvolvido pela californiana OpenAI e incorporado pela Microsoft a seu mecanismo de busca Bing. Ou de concorrentes desenvolvidos pelo Google e pela Meta. Ou ainda do Dall-E, programa que gera imagens a partir de descrições em textos. Cada um desses sistemas oferece resultados com um grau desconcertante de semelhança aos produzidos por humanos e levanta questões sobre como o mercado e as leis lidarão com o avanço da IA. Tais questões não são novas. Povoam a ficção científica e as discussões acadêmicas há décadas. O que a nova onda da IA fez foi torná-las urgentes.

Nos anos 1990, ficou claro que não haveria páreo para os computadores em jogos como o xadrez, onde a vitória depende apenas da análise exaustiva de uma quantidade gigantesca, mas finita, de possibilidades. Mas havia ainda um ceticismo fundamentado sobre a capacidade de máquinas suplantarem seres humanos em atividades criativas, como artes visuais, composição de música, de textos ou a própria programação dos computadores.

A inovação determinante para a evolução da IA nas duas últimas décadas foi uma técnica conhecida como “rede neural”. Por meio dela, os sistemas podem ser treinados com quantidades enormes de exemplos e aperfeiçoam suas respostas aos desafios. É como se as máquinas pudessem aprender. Foi esse “aprendizado de máquina” que permitiu aos computadores derrotar seres humanos em jogos de estratégia mais sofisticados, como o Go, e aventurar-se em atividades criativas, como produção de textos e imagens.

A simulação da criatividade oferecida pelo ChatGPT e correlatos se baseia em sistemas capazes de aprender e reproduzir linguagens naturais, conhecidos como “modelos de linguagem ampla” (LLM na sigla em inglês). Eles trazem ao alcance dos computadores todo tipo de manipulação simbólica, em terrenos tão díspares quanto desenho, escrita, programação, música ou projetos de moléculas para a indústria farmacêutica. O tempo da “imbecilidade automatizada” ficou definitivamente para trás.

Os resultados impressionam. Desde que o ChatGPT foi lançado ao público, em novembro passado, escolas e universidades enfrentam dificuldades para lidar com o uso da IA em redações, provas e trabalhos. Um repórter do New York Times foi surpreendido com um diálogo atordoante em que o robô simulava estar apaixonado por ele. A quantidade de informações falsas e erros flagrantes cometidos em várias respostas levou a própria Microsoft a limitar seu uso. Autoridades do mundo todo estão perplexas, preocupadas com o uso da IA em campanhas de desinformação.

As empresas, em contrapartida, estão animadas com a perspectiva trazida a seus negócios. De acordo com a consultoria McKinsey, mais de 50% das corporações já incorporaram robôs de IA em suas operações. No ano passado, grandes companhias americanas adquiriram 52 empresas emergentes do setor, e a quantidade de postos de trabalho para especialistas no aprendizado de máquina foi dez vezes maior que em 2020. O temor é que a IA tenha sobre as atividades criativas o mesmo efeito que outras tecnologias tiveram sobre empregos de natureza mecânica e repetitiva.

Há, é certo, tarefas em que os robôs de IA ainda deixam muito a desejar — instado a produzir o texto de um editorial para esta página, o ChatGPT entregou um resultado impublicável sob qualquer ponto de vista. Mas outras ocupações estão prestes a passar por um período profundo de transformação — o mesmo robô produziu programas de computador corretos, capazes de resolver problemas de complexidade razoável. O mais provável é que, uma vez que evoluam e os riscos sejam mitigados, os robôs de IA sejam auxiliares facilitando o trabalho de profissionais que lidam com conhecimentos técnicos. Não só programadores de computador, mas também médicos, engenheiros, advogados ou jornalistas.

A nova realidade tornará mais salientes os dilemas éticos inerentes à IA. Que acontecerá se ela for usada para cometer crimes? A quem devem pertencer os direitos sobre o que for produzido? Como zelar por um ambiente competitivo que não reproduza a ameaça dos monopólios digitais? Como garantir a evolução da tecnologia com o mínimo de riscos para seus usuários, para a sociedade e para as instituições? Essas são apenas as questões mais evidentes. Juridicamente, será preciso adotar critérios sensatos para regular os direitos autorais, a responsabilidade civil (e mesmo criminal) e o modelo de negócios subjacente ao uso dos robôs. Tal regulação impõe um teste inédito para a inteligência humana.

O Globo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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