sábado, agosto 28, 2021

Os militares na política

 



O militarismo é o mais nocivo e cruel dos regimes, demonstram as experiências conhecidas

Por Almir Pazzianotto Pinto* (foto)

O título é tomado de empréstimo do livro escrito pelo brasilianista Alfred Stepan, cuja leitura é necessária para quem deseja começar a entender o papel desempenhado pelas Forças Armadas em nossa História (Artenova, SP, 1975). O Brasil não tem inimigos externos. Inexiste o perigo de sermos atacados e invadidos por algum vizinho, interessado em nos submeter pelas armas.

Por outro lado, o imperialismo colonialista das grandes potências arrefeceu, vencido por problemas internos, ou cedeu espaço a políticas de dominação de mercados secundários com pacíficos produtos industrializados. Nesse aspecto devemos temer a China, o Japão, a Coreia do Sul, Cingapura e Tailândia, que avançam sobre o Brasil, tirando vantagem do nosso atraso, fruto da corrupção, da incompetência e da indolência, que nos impedem de progredir nas esferas da educação, das pesquisas e do desenvolvimento.

Dentro desse cenário, qual o papel reservado pela Constituição federal às Forças Armadas? Excluídas malogradas tentativas de invasão pelos franceses e holandeses à época do Brasil colônia, uma única guerra travamos contra o pequeno Paraguai (18641870), cujos resultados são conhecidos. A campanha da Força Expedicionário Brasileira (FEB) na Itália, nos derradeiros meses da 2.ª Guerra Mundial (1939-1945), cobriu-se de heroísmo, mas revelou a deficiência de treinamento, de armamento e de preparo psicológico da reduzida força sob o comando do general Mascarenhas de Morais. Quem quiser saber mais, consultará A Verdade sobre a FEB, livro escrito pelo marechal Floriano de Lima Brayner, chefe do EstadoMaior no teatro italiano de operações (Civilização Brasileira, RJ, 1968).

O governo do presidente Jair Bolsonaro ressuscitou o fenômeno do militarismo, que se esperava superado após a promulgação da Constituição de 1988. A partir da posse de Sua Excelência no Palácio do Planalto, milhares de militares da ativa e da reserva foram convocados para ocupar cargos reservados aos civis. Os ventos parecem avisar que o capitão paraquedista planeja implantar regime militarista.

Na lição de Gianfranco Pasquino, entende-se por militarismo “vasto conjunto de hábitos, ações e pensamentos associados com o uso de armas e com a guerra, mas que transcende os objetivos puramente militares. (...) Ele visa objetivos ilimitados; objetiva penetrar em toda a sociedade, impregnar a indústria e a arte, conferir às forças armadas superioridade sobre o Governo; rejeita a forma científica e racional de efetuar a tomada de decisões e ostenta atitudes de casta, de culto, de autoridade e de fé” (Dicionário de Política, Norberto Bobbio, Nicola Matteucci, Gianfranco Pasquino – UNB, Brasília, DF, 5.ª edição, 1993, volume 2, página 748).

O militarismo é o mais nocivo e cruel dos regimes. As experiências conhecidas assim o demonstram. Um dos mais criminosos regimes militaristas fez de vítima o povo argentino. Teve início com o golpe de 1976, deflagrado por Junta Militar que indicou o general Jorge Rafael Videla para governar, após derrubar a presidente Isabelita Perón. Seguiram-se, na Presidência, os generais Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone. O terrorismo do estado teria executado cerca de 30 mil oposicionistas e criado centenas de campos de concentração. Foi em abril de 1982, durante o governo Galtieri, que a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, para ser derrotada em 40 dias pela Inglaterra.

“A participação das Forças Armadas na vida política dos países da América Latina, África e Ásia se constituiu numa rotina. Quase diariamente abrimos os jornais para ler o mesmo tipo de notícias, variando somente os lugares de onde provêm. Já se chegou ao exagero de dizer que a história das nações subdesenvolvidas será a história das revoltas militares.” A frase é de Vicente Barreto, no artigo A Presença Militarista (Cadernos Brasileiros, Os Militares, Rio de Janeiro, novembro/dezembro de 1966).

A restauração democrática em 1985 prometia longo período de liberdade, segurança, bem-estar, desenvolvimento, igualdade e justiça, como está escrito no preâmbulo da Constituição. Infelizmente, as coisas não se passaram assim. Após dois presidentes da República cassados e um condenado em segundo grau de jurisdição, o presidente Jair Bolsonaro, obcecado pela reeleição, em vez de desenvolvimento, paz e tranquilidade, nos proporciona dias marcados por graves preocupações.

O ministro da Defesa, Braga Netto, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica devem se conservar em respeitoso silêncio perante a Constituição. Cometem crime contra a segurança nacional quando ameaçam impedir as eleições de 2022. As armas de que dispõem, adquiridas com recursos do Tesouro Nacional, não se podem voltar contra o povo pacífico e indefeso.

A propósito da tragédia que vitimou a vizinha nação argentina, assinalo que, com o fim do militarismo, os generais Videla, Viola, Galtieri, Bignone, foram processados e condenados por crimes contra a humanidade. Videla e Bignone, à prisão perpétua.

*Advogado, foi ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho

O Estado de São Paulo

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas