terça-feira, agosto 31, 2021

Atlas da Violência 2021: mortes violentas por “causa indeterminada” cresceram 70% em 2019

 Atlas da Violência 2021: mortes violentas por “causa indeterminada” cresceram 70% em 2019

Posted: 31 Aug 2021 08:39 AM PDT

O CAFEZINHO

O Atlas da Violência 2021 divulgado hoje traz uma denúncia alarmante. A quantidade de brasileiros vítimas de “Mortes Violentas por Causa Indeterminada” (MVCI) cresceu explosivamente.

A denúncia sugere, implicitamente, que autoridades responsáveis pelo levantamento de dados, como policiais e secretarias de segurança pública, estariam manipulando os números para criar falsa impressão de melhora dos índices de homicídio.

A operação é simples: basta classificar uma morte violenta como “causa indeterminada”, ao invés de homicídio.

E assim as taxas de homicídios nos estados caem, mas artificialmente, por manipulação estatística.

O documento diz que os números oficiais de 2019 devem ser vistos com “grande cautela”, por causa da “deterioração na qualidade dos registros”.

Os responsáveis pelo estudo informaram ainda que esse processo já tinha sido identificado no Atlas da Violência de 2020 , mas “atingiu patamar nunca antes observado desde o início da série histórica, em 1979”.

“Com efeito, em 2017 foram computados 9.799 óbitos como Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), ou seja, mortes violentas em que o Estado foi incapaz de identificar a motivação que gerou o óbito do cidadão. Em 2019 esse número foi de 16.648, o que representa um aumento de 69,9%. Considerando o percentual de MVCI em relação ao total de mortes violentas, esse índice passou de 6,2% para 11,7%, entre 2017 e 2019, um aumento de 88,8%”.

O Atlas da Violência 2021 é um estudo realizado pelo IPEA, em parceria com o Forum Brasileiro de Segurança Pública.

Em alguns estados, como o Rio de Janeiro, o percentual de mortes identificadas como  “causa indeterminada” (ao invés de homicídio) no total de mortes violentas, saltou de 9,8% em 2018 para 34% em 2019!

Com uma canetada, a secretaria de segurança do Rio esconde os homicídios no estado, o que naturalmente beneficia os… homicidas, que apenas poderiam ser investigados e punidos se seus crimes fosse classificados como tal.

O Atlas tentou “quantificar a ordem de ordem de grandeza dos homicídios que podem ter sido ocultados pela deterioração da qualidade” dos dados, usando estudos segundo os quais 74% das mortes violentas não identificadas corresponderiam, na verdade, a “homicídios não classificados como tais. Tomando essa estimativa como referência, caso a proporção de MVCI [mortes violentas por causa indeterminada] em relação ao total de mortes violentas fosse a mesma observada em 2017 (6,6%), haveria cerca de 5.338 homicídios a mais registrados em 2019”.

Ou seja, o número de homicídios no Brasil em 2019 teria crescido em mais de 5 mil óbitos em relação ao ano anterior, ao invés de terem caído!

Alguns estados, como dissemos acima, registraram uma situação dramática. No Rio de Janeiro, a taxa de homicídio caiu 45% em 2019, mas a de mortes violentas indeterminadas cresceu 237% no mesmo ano!

Segundo os autores do estudo, a manipulação do numéro de mortes por causa identerminada “afeta as análises realizadas no Atlas”, especialmente quando olhamos para as diferentes categorias de vítimas.

Por exemplo, a quantidade de mortes violentas por causa indeterminada (MVCI) de jovens cresceu 57% em 2019, na comparação com o ano anterior, passando de 2,53 mil para 3,99 mil.

A quantidade mortes violentas por armas de fogo, mas identificadas como “indeterminadas”, cresceu 49% em 2019.

Entre mulheres, a relação entre MVCI e homicídios ficou em 100% em 2019, contra 11% da média nacional. O que significa que, para cada morte violenta de mulher classificada como homicídio, houve outra classifiada como “indetermianda”, um indício forte de manipulação para baixo de crimes de feminicídio no país. A quantidade MVCI de mulheres em 2019, a propósito, apresentou crescimento de 22%!

O mais grave disso é que se as autoridades, por interesse político, deixam de um homicídio como tal, impede-se igualmente que o Estado investigue seus autores e suas causas.

Todo esse esforço de manipulação teria como objetivo apresentar números “positivos” na taxa de homicidios no Brasil, como se vê pelo gráfico abaixo.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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