sábado, agosto 28, 2021

Cabe aos brasileiros decidir: queremos ser a piada do mundo ou um país respeitado?

Publicado em 28 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

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Ao invés da Piada do Ano, Brasil pode ser Piada do Mundo

João Gabriel de Lima
Estadão

Poucas vezes o Brasil é destaque no noticiário internacional – essa é a triste constatação de quem mora fora do País e zapeia entre as BBCs, CNNs, Deutsche Welles e Al-Jazeeras da vida. Neste ano, o Brasil só foi manchete quando se converteu em epicentro da pandemia. Em geral, as notícias sobre o País se restringem ao letreiro que ocupa o espaço inferior da tela nos canais de notícias. E o tom, frequentemente, é de piada.

Nesta semana, a zombaria internacional se concentrou sobre o  desfile militar na Esplanada dos Ministérios – ou “tanqueciata”, como definiu o jornal britânico The Guardian. O fumacê cansado de guerra do SK-105 Kürassier, equipamento vintage, se alastrou pelos sites e canais de notícias. A expressão “república de bananas” apareceu de forma recorrente.

VOTO IMPRESSO – O mundo já vinha rindo da polêmica em torno do voto impresso, em especial dos palavrões empregados pelo presidente brasileiro em sua briga com o Judiciário. As emissoras traduziram para o inglês a expressão chula usada por Jair Bolsonaro para se referir a Luís Roberto Barroso, “son of a whore”. Para nossa vergonha, tais palavras se tornaram onipresentes nos geradores de caracteres.

O Brasil já foi considerado um país sério. Éramos até pouco tempo atrás voz relevante em discussões internacionais, especialmente na área da mudança climática.

O que fazia todo o sentido: a maior parte da floresta amazônica fica em território nacional. Entramos na conversa de gente grande sobre o futuro do planeta na Presidência de José Sarney; Fernando Collor deu continuidade ao abraçar a Rio-92; e Marina Silva se tornou referência internacional durante o governo Lula.

DESMONTE AMBIENTAL – Formamos uma geração de diplomatas que são experts em mudança climática. Parte de nosso prestígio, no entanto, se perdeu com o desmonte ambiental do atual governo.

É inevitável lembrar disso na semana em que o IPCC – sigla em inglês para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – divulgou a primeira parte de seu novo relatório. O texto traz alertas graves. “São avisos recorrentes, mas com evidências científicas cada vez mais robustas, a ponto de beirar a certeza absoluta”, diz o pesquisador brasileiro Oswaldo Lucon, integrante do IPCC.

As consequências da mudança climática serão desastrosas para o Brasil. Se não agirmos logo, o desmatamento da Amazônia pode se tornar irreversível, e eventos como secas e geadas se tornarão recorrentes, prejudicando o agronegócio brasileiro.

A continuação do relatório, a ser lançada até o início do ano que vem, detalhará impactos e apresentará alternativas. “A boa notícia é que temos caneta para agir, se a sociedade se mobilizar e os governos responderem”, diz Lucon, que está trabalhando justamente no capítulo das alternativas.

BIRRA INFANTIL – Aos olhos do mundo, a “tanqueciata” de Jair Bolsonaro soou como birra infantil, esperneio de menino mimado que grita pela mamãe quando lhe tiram o brinquedo – no caso, o voto impresso. Será péssimo para o País se o debate em 2022 ficar limitado a problemas fictícios como a lisura das urnas.

É importante que os adultos entrem na sala para que comecemos a conversar sobre coisas sérias, como a devastação da Amazônia – tema central por razões humanitárias e econômicas, e também para nossa credibilidade internacional. Queremos ser a piada do mundo ou um país respeitado? A escolha cabe aos brasileiros.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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