sexta-feira, dezembro 22, 2017



Artigo publicado na Tribuna da Bahia em 21/12/17
Um réquiem para João de Melo Cruz
A contrapartida negativa da vida dos grandes vultos consiste na dor de perdê-los. Afere-se o valor de uma biografia pela qualidade dos que a pranteiam. Também por esse diapasão sabe-se que João de Melo Cruz foi um grande homem. Essa é a percepção geral dos que lotaram o auditório do espaço de cremação do cemitério Jardim da saudade, no último sábado, no ato final de suas exéquias ao nos deixar aos 79 anos, depois de longa enfermidade derivada da combinação perversa entre o álcool e o tabagismo.
Os diversos oradores que se sucederam no púlpito - o filho primogênito e advogado João de Melo Cruz Filho, o Janjão, o compositor Waltinho Queiroz, o vereador Pedro Godinho e o colega de turma, jornalista Isidro Otávio do Amaral Duarte-, expressaram, com propriedade, o sentimento de perda dos presentes, bem como do amplíssimo universo dos que acompanharam sua brilhante trajetória, ao longo de 54 anos de vida dedicada à defesa dos que não podem pagar um advogado. Embora o legendário Cosme de Farias, morto aos 97 anos, seja o campeão nacional no tempo que dedicou à defesa de réus carentes, João de Melo Cruz é, sem dúvida, o líder absoluto no número de júris de que participou, com dedicação e esmero que lhe granjearam o respeito e afeto do mundo jurídico, desde que assumiu a primeira vaga de defensor público, criada na Bahia, em 1964.
Neste breve depoimento, queremos registrar um pouco de nossa longa e frutuosa convivência.
Partilhamos momentos de grande significado em nossas vidas, tais como: juntos, prestamos serviço militar, através do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), na arma de Infantaria; estreamos em letra de forma na mesma edição da Revista de Infantaria, em 1959, ele com um ensaio sociológico sobre Karl Mannheim e eu com um conto; cursamos juntos a Faculdade de Direito da UFBA; em 1959, viemos de jeep de São Paulo a Salvador, em estrada de barro, sem parar para dormir; participamos da inauguração de Brasília; fizemos juntos, com estudantes de diversas unidades da Federação, em 1962, a primeira viagem aos Estados Unidos, quando nos reunimos, dentre outras pessoas, com David Rockfeller, então presidente do Chase Manhattan Bank; Henry Kissinger, Secretário de Defesa dos Estados Unidos; Ted Kennedy, concorrendo ao Senado, pela primeira vez; Bob Kennedy, Procurador Geral de Justiça e, na companhia do embaixador brasileiro Roberto Campos e do embaixador americano, no Brasil, Lincoln Gordon, estivemos com o Presidente John Kennedy que seria assassinado no ano seguinte. Esse encontro com John Kennedy está registrado no livro de memórias de Kissinger, My Years in the White House. Em 1963, ano da formatura, realizamos memorável excursão pela Europa, acompanhados dos colegas João Carlos Vieira da Silva Telles, Benedito Ribeiro dos Passos, Raymundo Antônio Carneiro Pinto, Carlos Elísio de Souza Libório, Deoclides Barreto de Araujo e o saudoso Cleomar Silva, aluno laureado de nossa turma que teve como paraninfo o talentoso Mestre Raul Affonso Nogueira Chaves.
Num momento de acentuado declínio na qualidade do ensino superior brasileiro, convém lembrar que a nossa Faculdade de Direito, fundada em 1891, reuniu, quando a cursamos, a mais qualificada plêiade de professores com que uma escola de Direito contou, no tempo e no espaço, em nosso País, a exemplo de Augusto Alexandre Machado, Nelson de Souza Sampaio, Nestor Duarte, Antônio Luís Machado Neto, Adalício Nogueira, Aliomar Baleeiro, Silvio Santos Faria, Raul Chaves, Aloísio de Carvalho Filho, Adhemar Raimundo da Silva, Edson O´Dwyer, Pedro Manso Cabral, Milton Tavares, Almir Tourinho, Orlando Gomes, Jaime Junqueira Ayres, Adherbal da Cunha Gonçalves, Evandro Balthasar da Silveira, Gilberto Valente, Décio Seabra, Calmon de Passos, José Martins Catharino, Elson Gottschalk, Lafayette Pondé, Lafayette Spínola, Luís Vianna, Filho e Neto, José Lima, Maria Tereza, Estácio de Lima e o inditoso Auto José de Castro, vítima de chocante parricídio, em 2002.
Dotado de natural altivez e independência de espírito – é rico o anedotário construído sobre suas tiradas-, João de Melo Cruz foi também um grande construtor de afeições, nos diferentes campos em que militou, além da advocacia, como no magistério superior, na política e no esporte, como o Aranha Negra, guarda-valas do time de futebol que integramos na disputa de campeonatos no Clube Baiano de Tênis. É verdade que, como goleiro, JMC fazia a tristeza e alegria dos adversários, ao mesclar defesas monumentais com frangos homéricos.
João de Melo Cruz deixou quatro filhos: João de Melo Cruz Filho e Maria Thereza, do casamento com Ana Maria Gordilho; Frederico Daniel, fruto da união com Maria das Graças Geisendorfer e a caçula, Juliana, com Márcia Delitsch, e os netos Clara e Pedro, filhos de Maria Thereza, Valentina, filha de João, e Maria Luísa, filha de Frederico.
Um dos presentes nas pompas fúnebres observou, com humor, que a ala do auditório destinada à família do morto contava, majoritariamente, com belas mulheres, de diferentes gerações, reunindo filhas, netas e ex-companheiras, - em civilizada convivência-, do exuberante e fraterno amigo que nos deixou tomados de inefável e irresignável saudade.
Joaci Góes

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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