sábado, dezembro 23, 2017

Maluf e as elites corruptas: da Casa Grande à Papuda

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O presídio da Papuda (assim como o de Curitiba, Rio de Janeiro etc.) tornou-se o locus onde “habitam” tanto as elites corruptas (Maluf é um símbolo desse grupo) como os excluídos. Finalmente, todos republicanicamente no mesmo lugar. Para se chegar a isso, no entanto, demoramos mais de 500 anos.
Casa Grande e senzala (séculos XVI a XVIII). No tempo do Brasil colonial (de 1500 até o princípio do século XIX) as elites dominantes (econômicas e financeiras) e dirigentes (políticas) habitavam a Casa Grande, que tinha em seu entorno várias senzalas ocupadas pelos escravos (ver G. Freyre, Casa Grande e senzala). Seguia-se a lógica (violenta) do sadismo contra os africanos, índios e pobres.
Essas elites, formadas por selvagens colonizadores (corruptos e violentos), que para cá vieram (portugueses, franceses, holandeses, alemães, ingleses, espanhóis etc.) com o intuito de ficarem ricos e voltarem para seus países, viviam seu mundo privado e patriarcal. Mandavam e desmandavam, de acordo com suas próprias “leis” (ou seja, não estavam sujeitos à lei monárquica vigente – as Ordenações).
Por força da “natureza” (dizia a ideologia vigente) as elites dominantes (os proprietários, senhores de engenho, os capitães hereditários) eram seres superiores. Todos os demais eram seres inferiores.
Sobrados e mucambos (século XIX). O ingresso do Brasil na modernidade (1808, quando aqui se instala o governo português – a burocracia estatal – e tem início o mercado capitalista) coincide com o processo de migração dos proprietários rurais para a cidade. Eles habitavam os sobrados, enquanto o resto vivia em mucambos (ver G. Freyre, Sobrados e mucambos).
No século XIX incrementa-se a distinção entre elites dominantes (econômicas e financeiras) e elites dirigentes (políticas e alta administração). Estas, claro, sempre subordinadas àquelas.
O centro econômico do Brasil, ao mesmo tempo, se traslada do Nordeste para o Sudeste. Nascem novas profissões (por causa da urbanização) assim como uma nova hierarquia social. Passamos a ter as elites, os proprietários, as classes médias (funcionários ou pessoas de talento com sucesso) e os escravos e pobres.
As elites dominantes “compravam” as leis ou as sentenças judiciais em seu benefício. Desobedeciam caprichosamente às normas, sem nenhuma consequência. Mas seus poderes privados e mandonistas mudaram (porque agora passam também a vigorar os valores europeus burgueses, contrários aos valores primitivos dos colonizadores brutos e corruptos). Dois sistemas vigentes.
O familismo encontrou limites nas novas estruturas jurídicas (que falam em direitos individuais, em valores universais). O patriarcalismo rural entrou em decadência. O personalismo individual se arrefeceu, ganhando importância a figura do Imperador. As dívidas dos patriarcas começaram a ser cobradas.
As classes “superiores”, de qualquer modo, já dominadas pelas teorias racistas, mantinham o total desprezo pelas ruas (pelas camadas “inferiores”). Não há alteridade (ver Jessé Souza, A elite do atraso).
Com a europeização do Brasil os costumes mudaram (roupas, comidas, modos de falar, comportamento público etc.). Houve “um banho de cultura”. A escravidão foi formalmente abolida (1888), mas em nada se alterou a impunidade das classes dominantes e dirigentes nem o desprezo pelos desiguais (pobres, africanos e índios).  Era impensável alguém da elite na cadeia.
Mansões e condomínios fechados “versus” favelas (século XX). No século XX, sobretudo depois de iniciado o processo de industrialização (com particular relevância a partir de 1930), os habitantes da Casa Grande e dos Sobrados se trasladam (junto com boa parte da classe média) para mansões e condomínios fechados. Aqueles que viviam em senzalas ou mucambos foram para as favelas.
A impunidade das elites corruptas (dominantes e dirigentes, sejam as econômicas e financeiras, sejam as políticas e alta administração), no entanto, continua. O interesse público se confunde com os interesses dos particulares poderosos, que mandam na política e na administração pública.
No plano ideológico vigora o culturalismo liberal racista (Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro etc.), que continua sustentando privilégios para aqueles “culturalmente mais preparados”. (ver Jessé Souza, A elite do atraso). Em termos de hierarquia social temos: as elites dominantes e governantes, os proprietários, as classes médias, os trabalhadores cada vez mais precarizados (surgidos com a industrialização) e os pobres excluídos.
Mensalão e Lava Jato (século XXI). Somente depois do mensalão (2012) e da Lava Jato (de 2014 para frente) é que os brasileiros perceberam que o princípio do império da lei pode valer para todos.
Finalmente estão habitando o mesmo local (a Papuda, o presídio de Curitiba etc.) tanto os moradores da Casa Grande, dos Sobrados e dos condomínios fechados (ou mansões) como os das senzalas, mucambos e favelas.
Mensalão e Lava Jato, apesar dos seus incontáveis problemas jurídicos, são as maiores revoluções desarmadas que já ocorreram no Brasil. Elas começam a reduzir a impunidade das classes dominantes e dirigentes. É por isso que nós devemos apoiar a Lava Jato, enquanto ela acontece dentro da lei.
De outro lado, não há como não fazer valer a Lava Jato para todos (“erga omnes”). Até aqui, mensalão e Lava Jato se centraram (prioritariamente) na corrupção petista e muito acanhadamente nos desmandos de membros de outros partidos.
Já condenaram vários agentes fortes do mercado (Odebrecht, JBS etc.), mas todos ligados ao PT. Faltam ainda outros agentes econômicos (não ligados ao PT) assim como os potentados financeiros (até aqui intocáveis).
A Lava Jato somente se tornará completamente legítima (do ponto de vista político) quando alcançar também os corruptos do PSDB, DEM, PP etc., assim como os bancos, os agentes do mercado não ligados ao PT etc. Quando a Justiça alcançar, por exemplo, a corrupção de Michel Temer e Aécio Neves, que pediu R$ 2 milhões de propina para a JBS, ela será vista como órgão imparcial.
luizflaviogomes.com 

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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