sexta-feira, maio 27, 2011

Para que serve o vice-presidente? De 1889 a 1946, muitas atribuições. Presidia o Senado, além de substituir o presidente que viajava. Ou derrubá-lo, quando lhe interessava. Chegamos ao inútil, inexpressivo e inócuo Temer.

Helio Fernandes

Com exceção dos dois marechais que usurparam a República e se transformaram em seus “proprietários”, os outros vices, durante 57 anos (de 1889 a 1946) presidiam o Senado, na falta do que fazer. Pois na verdade eram “segundos”.

Floriano foi o primeiro a quebrar a ética e a linhagem da sucessão. Em 3 de novembro de 1891, Deodoro fechou o Congresso, prendeu quem o atrapalhava, fosse parlamentar, ministro de estado ou mesmo ministro do Supremo. Não aguentou, em 23 do mesmo novembro foi derrubado pelo vice, que afirmou: “Deodoro renunciou”, e ficou no lugar dele.

Fosse ou não verdade, Floriano devia assumir. E se isso acontecesse na primeira metade do mandato, realizar eleições. Depois da metade, completaria o mandato. (O que aconteceu em 1909 com Nilo Peçanha. O presidente Afonso Pena morreu faltando apenas 17 meses para o fim do mandato, o vice assumiu até o fim).

Empossado, Floriano não fez nenhum movimento para deixar o cargo ou convocar eleição. Rui Barbosa, senador, protestou, ameaçado de prisão, teve que se asilar. Na Argentina e no Uruguai. Em 1894 terminava o mandato, usurpado e ilegítimo, Floriano não convocou eleição, mas assim mesmo Prudente de Moraes foi eleito.

Num calor terrível, nada preparado, sem transporte (nesse mesmo 1894, o genial Henry Ford lançava o primeiro automóvel), indo até a Rua Primeiro de Março num “tilbury” e de casaca, Prudente se empossou.

Na época e até a primeira ditadura que começou em 1930, os vices vinham geralmente do Norte/Nordeste. O primeiro vice civil foi Manuel Vitorino, da Bahia. Entrou na História pela façanha: como interino, mudou a sede do governo. Prudente foi se operar, ele assumiu, comprou o Palácio das Águias (depois retificado e ratificado justamente como do Catete).

O presidente trabalhava no belo Palácio do Itamarati, na Rua Larga (depois, Marechal Floriano). Transferiu o governo, na sede então vazia colocou o Ministerio das Relações Exteriores. Contra a expectativa geral, meses depois, Prudente voltou, reassumiu, ninguém mais falou em Manuel Vitorino.

A Constituinte, eleita em 1945 e começando a trabalhar em 1946, regulamentou a linha de sucessão, mudando a ordem. Antes era: primeiro, o vice, (que presidia o Senado), segundo, o presidente do próprio Senado, terceiro, o da Câmara, quarto, o do Supremo. Era muito Senado, todos concordavam.

A Constituinte, acertadamente colocou como sucessor do vice, o presidente da Câmara. Depois vinha o presidente do próprio Senado. O vice eleito (?) continuava presidindo o Senado, com direito a voz, mas não a voto.

O primeiro vice que nunca foi ao Senado, Venceslau Brás, vice de Hermes da Fonseca, e em 1914 presidente da República. Como era rompido pessoalmente com o senador Pinheiro Machado (assassinado em 1915), não quis criar atrito.

Diversos vices assumiram. Muitas vezes por conspirações veladas ou ostensivas, lideradas por eles mesmos. São muitos, e pelos motivos os mais diversos. Conspiração (Café Filho), morte (Sarney), renúncia (João Goulart). Por isso, o Brasil tem quase tantos vices que assumiram, quanto presidentes eleitos. (Que não terminaram o mandato).

Agora chegamos ao fim do poço, com o inefável Michel Temer. Por que foi escolhido? Sem voto, sem prestígio, sem representatividade, não levou um voto a Dona Dilma, e ainda tirou muitos, mas muitos mesmo.

Até José Sarney, nas circunstâncias, mais importante e necessário. Era preciso fazer a transposição do São Francisco, perdão, da ditadura para uma nova experiência. E diga-se: Sarney não queria ser vice de Tancredo e sim de Maluf.

Péssimo analista, excelente adesista, mandou um jornalista (infelizmente, já morto) falar com o corruptíssimo de São Paulo. Este recusou seu nome, Tancredo aceitou, aconteceu o que aconteceu.

Não é de hoje que se recebe denúncias a respeito de irregularidades, Temer jamais respondeu ou refutou coisa alguma. Assim mesmo foi indicado a vice pelo PMDB mais podre que já existiu.

Os “autênticos” do MDB, que ainda estão vivos, revoltados com a escolha. Os que já se foram, devem dizer; “Para isso lutamos tanto, nos sacrificamos?”

Michel Temer nem vai ao Senado, embora seja “o pai e a mãe” da reforma política amaldiçoada, aprovada lá mesmo no Senado. E que felizmente será torpedeada na Câmara.

***

PS – Vice, Temer continua presidente do PMDB, lógico, licenciado. O PMDB passa recibo: “Não temos outro nome para presidir o partido. Ou Temer ou nada”.

PS2 – Que Republica, perdão, que vice, que se parece mais com vice-versa.

PS3 – Agora o Brasil tem um presidente, um vice e o senhor dos anéis, Luiz Inácio Lula da Sil

va. Ninguém esperava que a sucessão de 2014 se resolvesse tão facilmente.

PS4 – Lula só teve problema em 1989, 1994 e 1998. A partir daí, e até onde a vista pode abranger ou atingir, aparece o sucessor de Dona Dilma, de corpo inteiro.

Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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