quinta-feira, maio 26, 2011

Cooptar não resolve: oposição é indispensável ao governo

Pedro do Coutto

Na edição de terça-feira de O Estado de São Paulo, Dora Kramer, com o alto nível de sempre, ao analisar possíveis desdobramentos do processo Palocci, referiu-se à tentativa de cooptação, pelo Palácio do Planalto, de setores parlamentares, sindicais, classistas, como é o caso da bela adormecida UNE, no sentido de retirar de foco a questão ética em que se envolveu o ministro-chefe da Casa Civil.

Ao ler o texto, me veio à lembrança uma entrevista do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 61, na antiga TV Rio que não mais existe, na qual estavam os jornalistas Murilo Mello Filho, Wilson Figueiredo, Carlos Chagas e Villas Bôas Correa. Participei da entrevista. Jânio Quadros havia renunciado e João Goulart assumido. Jânio culpara as forças ocultas.

Então, Murilo Mello e Wilson Figueiredo perguntaram a JK, se ele, das eleições de 55 à passagem do poder em Janeiro de 61, também havia enfrentado as forças ocultas. Juscelino respondeu de pronto: “As forças ocultas e as aparentes também. Houve necessidade de dois movimentos militares, o 11 e o 21 de Novembro (de 55) para assegurar a minha posse e portanto a vontade das urnas. Entreguei democraticamente o governo em condições muito diferentes daqueles em que assumi. Mas confio no futuro e no país”.

Lembro como se fosse hoje. Perguntei então a ele como analisava a oposição a seu mandato. A oposição foi terrível. O líder era Carlos Lacerda. “Mas ela é indispensável” – acentuou – “a qualquer governante. Quem exerce o poder tem de ouvir e sentir todas as correntes de oposição. E fazer a análise sobre a média do pensamento popular. Cooptar, para quem tem as chaves do comando, é difícil. Mas não leva a nada. Descobrir a verdade na síntese á que é difícil. O grande desafio de governar reside neste ponto”.

Vejam os leitores como um fato, no caso um texto de Dora Kramer, conduz à memória, leva a que se encontrem exemplos do passado. JK enfrentou Lacerda, a UDN, a oposição forte de O Globo, de O Estado de São Paulo, do Correio da Manhã, do Jornal do Brasil, da Tribuna da Imprensa. A seu lado só o Diário Carioca e a Última Hora. O Globo se opôs até o início de 59, momento em que, por coincidência, recebeu a concessão para o canal de televisão que lidera amplamente a audiência desde 65, quando entrou no ar. O Correio da Manhã e o Jornal do Brasil noticiavam as realizações do governo (eram muitas, como se sabe hoje), mas atacavam JK nas páginas de opinião. O JB, então dirigido por Odilo Costa Filho, chegou a publicar na primeira página, em 58 ou 59, a famosa foto do “Me Dá Um Dinheiro” Aí, marchinha de sucesso no carnaval. O Secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles, com um caderno na mão, anotando, e Juscelino com as mãos espalmadas convidando Dulles e Lucas Lopes, ministro da Fazenda, a sentarem. O New York Times publicou no dia seguinte editorial com o título: a foto infame.

Kubitschek enfrentou a oposição da corrente udenista da UNE e nunca tentou coptá-la. Ela inclusive foi às ruas contra JK no dia em que, no Rio, recebeu o presidente Eisenhower. Passaram pela Praia do Flamengo em carro aberto. No alto do prédio o cartaz: “We like Fidel Castro”. Juscelino apontou o cartaz. Eisenhower, o verdadeiro responsável pelo isolamento de Cuba que lançou Fidel nos braços da URSS de Kruchev, respondeu: “Nós também gostamos dele. Ele é que não gosta de nós.”

São fatos. JK poderia facilmente ter anestesiado a UNE, como ela hoje aliás se encontra. Mas seria negativo, para o governo e para o país. Nenhuma nação pode mergulhar numa verdade só. E um desastre. O processo da realidade tem várias faces. Assim como um cubo no lance de dados. Poema famoso de Mallarmé, escrito há maias de 200 anos.

Fonte: Tribuna da Imprensa

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas