domingo, maio 29, 2011

Não adianta Lula e Dilma tentarem “blindar” Palocci. A cada dia, a situação dele piora. É como se o ainda chefe da Casa Civil estivesse agonizando diante dos olhos do público.

Carlos Newton

Como dizia o genial publicitário e compositor Miguel Gustavo, “o suspense é de matar o Hitchcock”. No planalto, na planície, nas gerais, na caatinga, nos pampas, no pantanal, nas serras e na floresta, seja onde for, aguarda-se ansiosamente a resposta que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, dará ao ministro Antonio Palocci, que na sexta-feira lhe enviou “explicações” sobre seu invulgar enriquecimento como “consultor de empresas”.

Certamente o procurador-geral vai perceber que Palocci esqueceu o principal, já que não foram mencionados os nomes dos clientes da milionária consultoria “Projeto”, tampouco se informou quanto cada um pagou para ouvir os conselhos e recomendações desse gênio das finanças e do mundo empresarial, que abnegadamente hoje ocupa a Chefia da Casa Civil, ao invés de seguir ganhando rios de dinheiro no mundo dos negócios.

O suspense aumenta porque, independentemente da decisão a ser tomada por Roberto Gurgel, a Procuradoria da República no Distrito Federal se adiantou e já abriu investigação sobre o enriquecimento do ministro e as atividades de sua consultoria, a “Projeto”.

O procurador Paulo José Rocha Júnior quer averiguar se de fato a “Projeto” prestou serviços que justifiquem o inusitado faturamento do ministro. Ou seja, enquanto o procurador-geral Roberto Gurgel se limitou a pedir explicações, a Procuradoria do DF entendeu haver indícios suficientes para abrir uma investigação preliminar destinada a averiguar suposta improbidade administrativa, e até já solicitou vários documentos à Receita Federal e à consultoria de Palocci.

O advogado José Roberto Batochio, que defende o ministro, qualifica de “ilegal” a decisão da Procuradoria do DF, alegando três motivos: primeiro, a investigação foi aberta com base em reportagens da imprensa que o advogado classificou como “boatos”; segundo, a iniciativa da Procuradoria foi tomada em Brasília, e não em São Paulo, onde fica a sede da “Projeto”; e terceiro, o procurador Paulo José Rocha Júnior não podia ter requisitado diretamente à Receita as cópias de declaração de Imposto de Renda da empresa. No desespero, o advogado investiu até contra o caráter do procurador Rocha Júnior: “Ele gosta de temas políticos e polêmicos”, ironizou.

Imediatamente, a Procuradoria da República no DF defendeu a legalidade da apuração. De início, lembrou que “inúmeras” investigações foram abertas com base em reportagens de jornal, acrescentando que as notas divulgadas por Palocci nos últimos dias confirmaram seu enriquecimento e as atividades da consultoria, e não podem ser consideradas como “boatos”.

A própria Procuradoria-Geral da República ajudou a desmentir o advogado de Palocci, ao informar que os procuradores de primeira instância realmente têm competência legal para fazer a investigação. Além disso, ficou claro que o pedido de dados do Ministério Público Federal à Receita é absolutamente legal.

“Essa requisição é totalmente normal e recorrente do nosso poder investigatório”, afirmou o presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), Alexandre Camanho. “Pedir informações para Receita é algo totalmente comum, legítimo e rotineiro.”

Realmente, até existe uma nota técnica da Receita Federal, emitida em 2008 e citada pela Procuradoria, afirmando que há “interpretação no sentido de que não há que se opor reserva de sigilo fiscal ao Ministério Público Federal“.

Como se sabe, o iluminado e genial ministro Palocci multiplicou seu patrimônio pessoal por 20 entre 2006 e 2010, período em que atuou como consultor e exerceu o mandato de deputado federal. No ano passado, quando Palocci chefiou a campanha de Dilma Rousseff à Presidência, por coincidência a “Projeto” faturou R$ 20 milhões, do quais R$ 10 milhões antes das eleições e os outros R$ 10 milhões depois do segundo turno, quando já se sabia que Palocci seria nomeado ministro.

Esta semana também ficará definido se o Congresso abre ou não uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o enriquecimento ilítico, aético e amoral de Palocci, essa grande revelação do mundo dos negócios, que mereceria até receber o prêmio de Consultor do Ano (Eleitoral), se esclarecesse a quem “vendeu” as consultas e “quanto” cobrou por elas. Simples assim.

Fonte: Tribuna da Imprensa

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas