sábado, dezembro 28, 2024

Pacheco encerra gestão marcada por 8/1, blindagem a ministros do STF e avanço de Lira

 Foto: Lula Marques/Agência Brasil/Arquivo

O senador Rodrigo Pacheco28 de dezembro de 2024 | 07:22

Pacheco encerra gestão marcada por 8/1, blindagem a ministros do STF e avanço de Lira

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Rodrigo Pacheco (PSD-MG), 48, encerra os quatro anos de mandato como presidente do Senado em uma transição de fazer inveja a qualquer político do centrão. Se, em 2021, chegou ao cargo como candidato de Jair Bolsonaro (PL), em 2024, deixa o posto como cotado para ministro de Lula (PT).

Tido pelos amigos como diplomático e pelos críticos como fraco, Pacheco recorreu à fama de discrição dos mineiros para atravessar o rearranjo de forças imposto pela mudança de governo e dividir espaço com um dos presidentes mais poderosos da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).

Na batalha com a chamada “Casa Baixa” —ou, como prefere dizer, com a “Casa ao lado”—, Pacheco viu Lira abocanhar poderes do Senado quando acabou com a tramitação de medidas provisórias e mudou o regimento para que os deputados ficassem com a palavra final sobre os projetos.

Certa vez, brincou com a diferença de estilo. “Este é o cachorro do Arthur Lira”, disse ao ser interrompido por latidos que vinham da casa vizinha, de Lira. “É o cachorro de propriedade do Arthur Lira. O coelho mudou para cá. Não aguentou o ambiente, aqui é mais tranquilo”, emendou a piada.

A queda de braço que afastou os dois presidentes durante meses acabou de lado em prol das emendas parlamentares. Usadas como moeda de troca política, as emendas de relator foram instituídas no Congresso em gestões anteriores, mas ganharam novas dimensões com Pacheco e Lira.

Os dois estavam juntos quando o STF decidiu pela inconstitucionalidade delas e quando o ministro Flávio Dino cobrou mais transparência —sobretudo na distribuição das turbinadas emendas de comissão.

Senadores próximos a Pacheco não escondem esperar que Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), seu antecessor e possível sucessor, inverta o jogo de poderes com a Câmara em 2025. Apesar disso, alegam que o mineiro será lembrado pelo conjunto da obra.

“Rodrigo Pacheco, por contingência da vida, acabou vivendo momentos muito críticos da história do país”, diz o futuro líder do PT, Rogério Carvalho (SE), destacando primeiro a pandemia de Covid-19 e, depois, as “tentativas golpistas” —desde o desfile de tanques na Esplanada em meio à gestão Bolsonaro até o ataque de 8 de janeiro.

“Ele tem no currículo um período extremamente conturbado, em que se conduziu com grande competência, capacidade de articulação, mediação. Alguns queriam que ele fosse mais agressivo, mas ele, do jeito dele, conseguiu se conduzir de forma bastante apropriada para o momento que a gente vivia, de muita tensão.”

Pacheco foi eleito presidente pela primeira vez em uma costura política improvável feita pelo então presidente, Alcolumbre (tão novato quanto ele), contra o MDB de Simone Tebet, em um momento em que o Brasil vivia as drásticas consequências da pandemia.

Pacheco resistiu o quanto pôde em abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a atuação do governo Bolsonaro e disse preferir medidas propositivas, como o projeto de lei para facilitar a compra de vacinas contra a Covid, do qual se orgulha de ser autor.

“A CPI poderá, sim, ter um papel de antecipação de discussão político-eleitoral de 2022, de palanque político, que é absolutamente inapropriado para este momento”, declarou.

O desfecho, a contragosto, veio por ordem do Supremo —no primeiro de muitos episódios envolvendo os dois Poderes que marcariam sua presidência. Após determinação do STF, Pacheco instalou a CPI que se tornaria um dos principais focos de desgaste de Bolsonaro, mesmo com o relatório final engavetado.

A comissão abalou a relação com o bolsonarismo e serviu de prenúncio para os embates que viriam depois. Pacheco já tinha indicado que não abriria impeachment contra ministros do tribunal, mas precisou se posicionar abertamente depois que o próprio Bolsonaro pediu a cassação de Alexandre de Moraes.

O senador também endureceu o discurso em defesa das urnas em meio à escalada do ex-presidente. Após o ataque de 8 de janeiro —em que deu carta branca para prisões—, marcou posição ao dizer que eventual anistia não seria votada enquanto estivesse na presidência.

“Muita gente pode criticar o Rodrigo, mas ele passou os piores momentos da República na pós-redemocratização. Tem nosso respeito”, disse o líder do PSD, Omar Aziz (AM), ao anunciar que o partido apoiaria Alcolumbre.

A cisão interna ficou ainda mais evidente nas eleições de fevereiro de 2023, quando derrotou o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN) —em uma disputa vista como reflexo da polarização entre Lula e Bolsonaro.

O líder do PL, Carlos Portinho (RJ), não esconde a mágoa do grupo. Também critica a postura de Pacheco frente ao STF, ressaltando a situação do colega Marcos do Val (Podemos-ES), que teve as redes sociais bloqueadas por ordem de Moraes.

“Esse desgaste nas relações prejudicou não só o mandato dele, mas criou um clima de desarmonia entre os senadores de situação e de oposição e deixou um vácuo. E eu credito a isso a interferência do Poder Judiciário no Poder Legislativo e o acirramento das relações.”

Mesmo afastando a possibilidade de impeachment, Pacheco patrocinou investidas contra o tribunal ao reabilitar a tese do marco temporal e apresentar, ele próprio, a proposta de emenda à Constituição que criminaliza a posse e o porte de drogas.

Pacheco também comprou a briga da elite do funcionalismo público e tentou restabelecer, sem sucesso, o quinquênio, benefício que garante aumento automático de 5% do salário para juízes e promotores a cada cinco anos.

O senador se esquiva dos rumores sobre a possibilidade de virar ministro, promete passar os próximos dois anos no gabinete 24 do Senado (número que ficou apagado antes dele, em uma manifestação implícita de homofobia) e até deixar a política depois disso.

Aliados mantêm a aposta no nome dele para o governo de Minas Gerais. Um amigo que prefere não ser identificado diz que, desde que entrou na política, o senador nunca pôde reclamar de falta de sorte —ignorando a tentativa fracassada de disputar a Presidência da República, em 2022, como terceira via.

Após a votação do pacote de gastos, Pacheco celebrou a reforma tributária —que considera um de seus principais legados— e começou a se despedir. “Busquei ser o mais democrático possível, respeitoso com a oposição e com a situação, com todos os colegas”, declarou.

A TRAJETÓRIA DE PACHECO NA POLÍTICA

Atuação na advocacia

Advogado criminalista e conselheiro federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Pacheco defendeu envolvidos no escândalo do mensalão e chegou a criticar o poder de investigação do Ministério Público.

Eleição para a Câmara dos Deputados

Foi eleito deputado federal pelo PMDB em 2014 em sua primeira disputa, com 92 mil votos. Nascido em Porto Velho (RO), o político cresceu em Minas Gerais e sempre se lançou candidato pelo estado.

Disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte

À época deputado federal, Pacheco disputou a prefeitura da capital mineira em 2016 pelo PMDB, mas acabou em terceiro lugar, com 10% dos votos válidos. No segundo turno, apoiou o candidato derrotado por Alexandre Kalil (PHS), João Leite (PSDB).

Presidência da CCJ da Câmara

Na Câmara, Pacheco foi eleito em 2017 presidente da comissão mais importante, a de Constituição e Justiça, por unanimidade, ao ser indicado pelo PMDB, partido com o maior número de deputados federais.

Na época, ele era cotado para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo Michel Temer no lugar de Alexandre de Moraes. Pacheco era presidente da CCJ quando Temer foi denunciado por corrupção passiva.

Eleição para o Senado

Em 2018, filiou-se ao DEM (atual União Brasil) e disputou uma das duas vagas ao Senado por Minas Gerais. Foi eleito em primeiro lugar, com 20,54% dos votos, derrotando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que acabou em quarto.

Eleição para a presidência do Senado

Foi eleito presidente do Congresso em 2021, derrotando Simone Tebet (MDB), depois que o então presidente, Davi Alcolumbre (DEM-AP), foi impedido pelo STF de disputar o segundo mandato. Na ocasião, conseguiu o apoio de Jair Bolsonaro e da bancada do PT.

Filiação ao PSD

De olho na Presidência da República, Pacheco trocou o DEM pelo PSD em 2021. A cerimônia de filiação ocorreu no Memorial JK, em Brasília, em uma clara tentativa de associação com o ex-presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). Na ocasião, Pacheco criticou a polarização política e a situação do país.

Pré-candidatura à Presidência em 2022

Pacheco ensaiou se candidatar a presidente da República em 2022, contra Lula e Bolsonaro, como terceira via, mas desistiu em março. Sem decolar nas pesquisas, deixou a disputa dizendo nunca ter afirmado que se lançaria ao cargo.

Reeleição para a presidência do Senado

Em 2023, derrotou o ex-ministro de Bolsonaro Rogério Marinho (PL-RN) e foi reeleito para mais dois anos de mandato por 49 votos a 32. A disputa foi tratada como reflexo da queda de braço entre Lula e Bolsonaro.

Saída da presidência do Senado

Pacheco deixa a presidência do Senado cotado para um ministério no governo Lula e para o governo de Minas Gerais em 2026 como candidato do petista. “O Pacheco no início do governo era meu inimigo. Hoje é meu amigo”, disse o presidente da República no mês passado.

Thaísa Oliveira e Renato Machado/Folhapress
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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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