sábado, setembro 28, 2024

‘Dinheiro nenhum vai pagar dor e angústia’, diz viúva sobre suicídio de ex-diretor da Caixa

 Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Edneide Lisboa, viúva do ex-diretor da Caixa Sérgio Batista28 de setembro de 2024 | 11:01

‘Dinheiro nenhum vai pagar dor e angústia’, diz viúva sobre suicídio de ex-diretor da Caixa

economia

Exatamente 21 dias depois do escândalo de assédio sexual e moral envolvendo a gestão de Pedro Guimarães na Caixa, a vida da bancária Edneide Lisboa também entrou em crise, quando o marido dela, Sérgio Batista, cometeu suicídio na sede do banco, em Brasília.

Funcionário de carreira da Caixa, Sérgio já tinha sido assessor de três presidentes e, desde março daquele ano, estava à frente da Diretoria de Controles Internos e Integridade, área que recebia as denúncias e as encaminhava para a corregedoria.

Mais de dois anos após o episódio, Edneide falou com exclusividade ao jornal Folha de S.Paulo. A viúva tem agora ao menos três objetivos: honrar o nome do marido, deixando claro que ele não estava envolvido com eventuais crimes da gestão, garantir que isso não se repita na Caixa e ampliar a discussão sobre saúde mental.

A ação da bancária também pode ter desdobramentos inéditos na esfera trabalhista. A Justiça reconheceu em primeira instância o suicídio de Sérgio como acidente de trabalho —e condenou a empresa ao pagamento de uma das maiores indenizações da história, segundo autoridades a par do caso. O banco afirma que “fortaleceu seu sistema de governança para investigar denúncias e proteger denunciantes e colaboradores”.

É a primeira vez que você dá entrevista. Por que tomou essa decisão?

A morte do Sérgio foi algo muito silencioso. Gostaria de levar a mensagem de que não é esse o melhor caminho para resolver qualquer situação, principalmente agora que a gente está no Setembro Amarelo, em que se fala muito de suicídio. Que essa voz chegue a quem precisa de acalanto e força para continuar.

Em que momento decidiu acionar a Justiça?

A Justiça precisa ser coerente com o que aconteceu. Minha força vem da crença de que tudo vai ser resolvido e esclarecido. Busco justiça também para atingir o coletivo, para chegar a outras pessoas e até a colegas dele que podem estar passando por situação semelhante.

A informação é de que a sra. pede indenização de R$ 40 milhões à Caixa e de que houve decisão favorável, mas não nesse valor. O que a sra. pode dizer?

O processo está em sigilo. A questão não é tanto o valor. Não é simplesmente uma ação trabalhista. Porque dinheiro nenhum vai trazer o Sérgio de volta, dinheiro nenhum vai pagar a dor, a destruição de uma família. E dinheiro nenhum também vai pagar a dor que o Sérgio sentiu. A angústia. [Ver e ouvir] tudo calado ali. Foi dilacerante para ele isso, até ele tomar essa decisão de tirar a própria vida. É isso que eu posso falar.

Em que momento percebeu a gravidade do que havia acontecido na Caixa?

O Sérgio sempre foi uma pessoa muito discreta com relação ao trabalho, até pela função que ele tinha. Ele é muito ético, não comentava. Mas, no dia que estourou o escândalo, ele chegou em casa apreensivo. Ligou a TV falando: ‘Olha o que está acontecendo na Caixa. Está pegando fogo lá. Isso tudo é exatamente na minha área, o Ministério Público do Trabalho está lá dentro fazendo as investigações’. Eu falei pa ra ele: fica tranquilo. Continue trabalhando do jeito que você trabalha, é necessário que isso seja feito. Mas ele nunca comentou nada, até pelos sigilos. Mas eu via uma preocupação dele com relação ao que estava acontecendo, até por ser uma pessoa extremamente responsável.

Eu, sinceramente, não percebi que ele poderia chegar a uma atitude extrema. Não passou pela minha cabeça que ele pudesse tomar essa decisão. Por isso eu falei que ele estava sofrendo calado. Estava angustiado. E eu achava que era o dia a dia do trabalho. É normal às vezes você ter um dia mais estressante, ficar mais preocupado. Mas uma atitude extrema dessa nunca passou pela minha cabeça. Foi muito tempo de terapia e o próprio reforço da espiritualidade para eu me livrar desse sentimento de culpa.

A morte do Sérgio foi menos de um mês depois do escândalo. Como vê isso hoje?

No meu ponto de vista, ele estava sofrendo muito com tudo o que estava acontecendo, além da pressão por uma resposta, para que as coisas se resolvessem. O ambiente estava tóxico. Havia uma pressão institucionalizada ali, uma situação de assédio institucional. Era uma cadeia de assediadores. Ele provavelmente sofreu isso também, essa pressão. E a angústia de ver os colaboradores dele também angustiados.

Pressão depois que o caso veio a público? Ou acha que houve pressão anterior?

Eu não sei. Não saberia responder com precisão. Mas com certeza depois veio essa pressão toda. Os órgãos de investigação estavam dentro da diretoria dele. Ele não tinha o que temer, mas, de qualquer forma, a pessoa fica angustiada e apreensiva. Ele era diretor de Controles Internos e Integridade. Era a área por onde chegavam as denúncias, mas ele não tinha a gestão. Ele repassava para a corregedoria da Caixa. Quem fazia a investigação e todo o processo era a corregedoria.

Então para a sra. o caso do Pedro Guimarães também foi uma surpresa?

Foi uma surpresa. A gente não imaginava que o líder de uma instituição como a Caixa, uma empresa 100% pública, que tem missão e valores com que todos os empregados se identificam… Porque a gente até brinca que o empregado da Caixa trabalha por amor. É muito grande o que se faz ali; você muda a vida de famílias. Foi uma surpresa, até por eu já ter trabalhado lá, saber que a empresa chegou a uma situação dessas, incontrolável. Uma situação onde uma única pessoa, pode-se assim dizer, conseguiu transformar uma empresa em um campo de batalha, em um terror para todos que estavam ali. Um lugar de medo, de repressão. Foi uma surpresa muito grande. Eu sempre tive orgulho de falar que trabalho na Caixa. E o Sérgio também tinha.

O que espera do Pedro Guimarães?

Eu nem gostaria de falar sobre ele, até porque eu não trabalhei diretamente com ele. Em relação à Caixa, eu espero que tenha uma correção de rumos, sim. Espero que situações como essa nunca mais voltem a acontecer. Que tenham medidas de não repetição, de fato. Isso eu espero.

Quando o Sérgio morreu, surgiu a informação de que ele havia deixado o computador ligado —o que foi interpretado como um sinal de que ele queria expor algo. Isso se confirmou?

Não houve menção a isso na investigação. Mas o próprio fato de ele ter cometido suicídio na Caixa já demonstra que o problema era ali. Que ele queria chamar atenção para algo que estava acontecendo lá. E que não estava bom. Estava ruim para todos. Foram momentos realmente de muita tensão, terror, angústia, medo. Pessoas com medo de perder o emprego, a função; se sentindo ameaçadas.

Não sei se a máquina dele estava ligada ou não, mas o que eu posso afirmar é que o protesto dele foi em relação ao que estava acontecendo ali. O ambiente estava realmente adoecido para ele chegar a uma decisão como essa. No dia da morte dele, a gente almoçou juntos. E eu não percebi. Eu demorei uma semana para acreditar. Achei que eu ia morrer junto também. Fiquei recapitulando tudo.

A Caixa reconheceu alguma falha de segurança?

Não.

E a sra. identificou algo?

A falha que a gente identificou foi no acesso às janelas. Essa foi a falha no prédio da matriz. Mas eu poderia dizer também que, no momento em que estourou uma crise dessas dentro da empresa, deveria ter havido o acompanhamento psicológico e psiquiátrico para as pessoas que estavam mais envolvidas com aquela situação. Se você está em uma crise, os empregados que estão na vitrine precisam receber um olhar diferente.

Um dos meus objetivos é honrar também o nome do Sérgio. Porque, assim como tem pessoas que sabem da conduta dele, quem ele era, pode ser que tenham pessoas imaginando que tinha alguma coisa errada ali. Tem que ter esse reconhecimento de que ele era uma pessoa ética. Ele merece ser honrado assim. É um dos objetivos da minha luta na Justiça: deixar claro que o Sérgio não estava envolvido de forma nenhuma nem compactuava com o que estava acontecendo.

Há também a informação de que a Justiça já entendeu o suicídio do Sérgio como acidente de trabalho, o que talvez seja inédito.

No Brasil a gente realmente não achou nenhuma referência nesse sentido. Mas, fora do Brasil, sim. Fora do país isso já é algo muito forte, principalmente em situações de assédio. Eu estou muito confiante na nossa Justiça. A nossa ideia é que esse caso do Sérgio realmente vire uma jurisprudência.

Como está a sua vida hoje?

A minha vida hoje tem um buraco onde eu fico me dividindo entre acolher a minha sogra, a mãe dele, e a minha filha, que desenvolveu síndrome do pânico, que sente muita falta desse pai. É um buraco que nunca vai ser preenchido, mas a gente está tentando lidar com essa situação de outra maneira. Tudo tem um para quê, nada é em vão. A gente tem que seguir em frente.

De que forma gostaria que o Sérgio fosse lembrado?

Como uma pessoa amorosa, um amigo. Um pai e um marido dedicado. Um filho exemplar, que até hoje faz falta para os pais. E um empregado, um colega de trabalho com uma reputação elevadíssima. Uma pessoa extremamente ética, técnica e comprometida com o que fazia. Todos tinham o Sérgio como uma referência em alegria, aconselhamento, trabalho. Até hoje eu escuto as pessoas falarem: ‘Nossa, que falta o Serginho faz’. Ele está fazendo muita falta para todos.

Thaísa Oliveira/FolhapressPoliticaLivre

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E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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