sexta-feira, setembro 29, 2023

Diante da grandeza de Deus, as religiões têm de cobrir o rosto da noiva durante o casamento

Publicado em 28 de setembro de 2023 por Tribuna da Internet

Você sabe por que as noivas usam véu? - eNoivado

O véu da noiva tem um significa que as pessoas desconhecem

Luiz Felipe Pondé
Folha

Religiões são corpos complexos. Penetram em inúmeros detalhes da vida cotidiana. Não se trata de criações abstratas, dissociadas dos corpos, mas, pelo contrário, os cobrem com o manto do sagrado. Religiões acolhem as alegrias e as tristezas ancestrais humanas.

A ideia de que, diante da presença dos deuses, se faz necessária alguma forma de proteção é antiga. A força divina encanta e esmaga a criatura frágil, quando vista de frente. Essa é uma das causas da famosa máxima “temor e tremor” no monoteísmo abraâmico.

CAMPO DE ESTUDOS – A força avassaladora e encantadora do sagrado é objeto de um campo vasto de estudos para quem investiga a fundo as religiões históricas.

Mesmo que não se possa universalizar a ideia de sagrado para todas as religiões, ali onde ela está presente, aparece esse caráter “numinoso”, como dirá o filósofo alemão da religião Rudolph Otto, que reúne beleza, mistério e violência.

Em dias como Rosh Hashaná — o Ano Novo — e Yom Kippur — o Dia do Perdão — no judaísmo, ao final da cerimônia, ao entardecer, quando se toca o shofar — o chifre de um animal —, como que chamando Deus para perto — supõe-se que tocar o shofar era um costume na Antiguidade bíblica para reunir o povo hebreu —, deve-se virar de costas ou cobrir a cabeça e o rosto para se proteger da grandeza de Deus.

GRANDEZA DE DEUS – A ideia mesma de que Deus se esconde na Bíblia hebraica e na cabala é conhecida. No caso da mística judaica, Deus mantém como que um véu sobre a face por misericórdia, já que nenhuma criatura seria capaz de estar presente diante da sua grandeza avassaladora.

O filósofo judeu Martin Buber, nas suas discussões sobre chassidismo, sempre pensando no que essa mística teria a dizer ao homem moderno, frisava o fato que a oração profunda deixa o rosto do místico em chamas porque o aproxima do fogo infinito que é Deus.

A face de Deus torna incandescente tudo que está à sua volta. O calor, a luz, a penetração, a permanência, tudo isso se soma para “atear fogo” no rosto da figura mística.

FESTA DE CASAMENTO – Voltando aos detalhes da vida, um dos momentos mais celebrados em muitas religiões é o casamento, quando dois jovens se unem diante do seu povo ou comunidade para assumirem que darão continuidade, assim como seus ancestrais, ao sagrado poder de gerar a vida, tendo filhos e formando assim uma família.

E claro, nesse momento, a noiva se torna o centro de tudo, porque ela é a terra fértil na qual o noivo depositará a semente que a fecundará. Mesmo fora dos aspectos espirituais do casamento religioso, é tradição saber que a noiva é o centro da cerimonia, sendo o noivo um mero coadjuvante.

A esse fato as mulheres respondem com o enorme valor atribuído ao vestido e a todos os detalhes da cerimônia e da festa. O casamento é feito, antes de tudo, para a mulher.

COBRIR O ROSTO – No judaísmo, é comum o noivo cobrir o rosto da noiva quando a recebe das mãos do seu pai na entrada da chupá, a tenda sob a qual se realiza a cerimônia de casamento.

Evidente que o costume de o rosto da noiva estar coberto por um véu não é exclusivo do judaísmo, mas a tradição judaica interpreta esse gesto como sendo um exemplo de uma antiga crença mística, diretamente ligada ao que dissemos até aqui. Qual é essa crença?

Assim como no momento do shofar deve-se cobrir a cabeça e o rosto devido à grandeza da presença de Deus. No momento do casamento, essa grandeza da presença de Deus está refletida no rosto da noiva, portanto, naqueles instantes, a noiva carrega o sagrado na face.

O VÉU DA NOIVA – A beleza incandescente de Deus, assim, repousa sobre o lindo rosto da noiva e, por isso, este deve ser coberto pelo véu.

A força de atração que a noiva exerce sobre os presentes, a beleza dos seus gestos, o cuidado que todos têm, a começar pelo noivo, com ela, visto a partir dessa interpretação religiosa, denotam a presença do sagrado na mesma.

Por isso, é comum ver alguém pedir que ela o abençoe em meio à festa que se segue ao ritual do casamento, porque naqueles instantes o eterno caminha ao seu lado. Feliz aquele que enxerga Deus em seu rosto iluminado. Essa visão, normalmente, é, ela mesma, acompanhada por lágrimas diante de tamanha beleza em exibição.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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