segunda-feira, novembro 29, 2010

Operação acaba com crença em ‘invencibilidade’ do Alemão, diz Beltrame

Secretário afirmou que ainda não é possível fazer um balanço das operações.

Policiais carregam helicóptero com maconha no Complexo do Alemão.

Depois de ocupar o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, as forças de segurança seguem neste domingo no processo de buscas que levou à apreensão de armas pesadas e toneladas de drogas, além da prisão de um traficante ligado à morte do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, em 2002.

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, disse que não tem “jogo ganho” após a ocupação do Complexo do Alemão, mas considerou a vitória um “passo importantísssimo” na luta contra o crime no Rio.

“Nós não vencemos a guerra, mas pode-se dizer que vencemos a mais difícil e importante batalha”, disse a jornalistas na noite de domingo, 12 horas depois do início da operação no conjunto de favelas.

Beltrame disse que os bandidos que fugiram serão capturados, pois o Estado vai continuar avançando na recuperação de territórios. “Se chegamos ao Alemão, nós vamos chegar à Rocinha, ao Vidigal e assim por diante.”

Segundo o secretário, a ocupação acaba com a “crença na invencibilidade” do Complexo do Alemão, que era “o coração do mal, um lugar emblemático da convergência de marginais no Rio”.

"Perda de moral"

“Para a polícia, é uma vitória importante, mas para os marginais, é uma perda de moral. Perderam algo muito importante que fazia com que se valorizasse a atuação deles”, disse.

Sobre boatos de que muitos traficantes haveriam fugido, Beltrame disse que “marginal sem casa, sem arma, sem moeda de troca é muito menos marginal que era antes”.

O secretário afirmou que ainda não é possível fazer um balanço das operações, porque a cada momento novas prisões e apreensões estão sendo feitas. Mas um balanço parcial na noite de domingo apontou que 40 toneladas de maconha, 10 toneladas de crack e 200 quilos de cocaína foram apreendidos.

Traficantes presos

Além de “Zeu”, a polícia prendeu pelo menos outros sete traficantes.

Traficante condenado pela morte no jornalista Tim Lopes se entregou.

Vinte pessoas foram presas na operação, entre eles Eliseu Felício de Sousa, o “Zeu”, que se entregou à polícia após ser descoberto em um barraco. Condenado a mais de 23 anos de prisão pela morte de Lopes, “Zeu” cumpriu apenas cinco anos de pena. Ele estava foragido desde 2007, quando foi beneficiado pelo regime semi-aberto e não retornou à prisão.

Tim Lopes foi assassinado depois de ser descoberto por traficantes chefiados por Elias Pereira da Silva, o “Elias Maluco”, quando fazia uma reportagem sobre a venda de drogas a céu aberto no Complexo do Alemão.

Outro traficante preso trazia tatuagens em ambos os braços com as inscrições “maconha” e “Fernandinho Bera Mar” (sic).

A operação também encontrou o que seria a casa do traficante "Pezão", tido como chefe de tráfico do Alemão. O imóvel de três andares tem piscina, hidromassagem, ar condicionado em todos os cômodos e até uma discoteca.

Bandeira hasteada

Nesta tarde, a polícia hasteou uma bandeira no alto de uma das estações do teleférico que está sendo construído no Alemão, como gesto simbólico para marcar a reconquista do território pelo Estado.

"Vencemos. Trouxemos liberdade para o povo do Alemão. Agora é trabalho de busca, procura, prisões e apreensões", afirmou Duarte a jornalistas ainda pela manhã.

Duarte afirmou ainda que as forças policiais e militares não tiveram muitos problemas no início da invasão, que começou às 7h59m deste domingo.

"Não tivemos dificuldade. Tivemos cobertura dos helicópteros e os blindados fizeram o seu papel", disse o comandante da PM.

No total, participam da invasão 2.700 homens, sendo 800 soldados da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército, 300 agentes da Polícia Federal (PF), 400 da Polícia Civil e 1,2 mil da Polícia Militar.

Blindados do Exército e da Marinha e veículos do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope) foram utilizados na operação e estão dentro do complexo. A Polícia Militar estimava que entre 500 e 600 traficantes estariam no Complexo do Alemão.

“Passo fundamental”

Em nota, o governador Sérgio Cabral afirmou que “a reconquista do território do Complexo do Alemão pelo Estado é um passo fundamental e decisivo na política de segurança pública que traçamos para o Rio de Janeiro”.

O governador disse, entretanto, que o trabalho para garantir o direito de ir e vir dos cidadãos de bem apenas começou. “Ele é de médio e longo prazos e tem como principal objetivo recuperar 30 anos de abandono das comunidades carentes.”

O prefeito Eduardo Paes disse que vai anunciar, na segunda-feira, um pacote de projetos e ações sociais para promover uma “invasão de serviços” tanto do Complexo do Alemão quanto na Vila Cruzeiro.

“Estou muito orgulhoso, como prefeito e carioca, por esse momento histórico, que significa a libertação de milhares de pessoas de bem que eram reféns de criminosos covardes. Significa a refundação de partes da cidade com a presença do Estado em territórios onde, durante anos, se fez presente um poder paralelo”, afirmou em nota.

Fonte: BBC Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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