sábado, novembro 27, 2010

Ódio brasileiro

“Óbvio que Serra ia perder. Foi o biótipo que o derrotou, mais do que a presidente eleita que, como todos sabem, é a cara do Lula”


O Brasil “nos” odeia na mesma proporção em que “nós” o odiamos. Igualzinho. O sentimento de revanche e discriminação com relação a “paulistas” no “resto do Brasil” não é muito diferente do sentimento que Mayara Petruso explicitou no tuiter com relação a nordestinos.

Generalização? Exagero? Talvez. Mas uma coisa eu posso dizer sem a menor chance de errar: “nós, paulistas” não temos, definitivamente, o monopólio da estupidez.

Se o sujeito for nascido na capital, branco, palmeirense e tremer o erre na ponta da língua, aí pode esquecer. Vocês decerto sabem de quem estou falando.

Óbvio que Serra ia perder. Foi o biótipo que o derrotou, mais do que a presidente eleita que, como todos sabem, é a cara do Lula. O homem-tucano é uma espécie ultrapassada e fora de contexto. O contexto ou o resumo da história localiza-se na zona sul da cidade, depois de Interlagos. São as classes C e D que representam o Brasil que invadiu São Paulo à revelia, para além de seus domínios morais e de conduta. Uma novidade que sopra do abismo. Um oxigênio que a rua Oscar Freire terá de aprender a respirar na marra e na base do ódio, sim. E é esse abismo que movimenta a economia do estado, como acontece com o “resto” do Brasil. O nome disso, caros coleguinhas do Dante Alighieri e do Clube Harmonia, o nome disso é distribuição de renda, e vocês fiquem à vontade para torcer os narizes, parar em fila dupla, viajar pra Disney e tuitar desbragadamente, não vai adiantar nada, perderam.

Um palpite. Cada vez mais, nesse Brasil pós-Lula, o “paulista” será menos brasileiro, dentro e fora de seus limites territoriais. Eu acho isso interessante. Anotem. No opportunity. E aqui cabe mais um vaticínio.

Os netos e bisnetos do coronel alagoano podem até adotar os shoppings e condomínios que imitam o modo de vida babaca do paulistano, mas a alma paulistana, sobretudo aquela que imigrou da Europa no final do século XIX e se fez com sacrifício, estudo, caretice e muito trabalho, essa cabe inteira no Parque Antártica, e vai ficar por lá mesmo. Não adianta. Nenhum Felipão vai dar jeito. As únicas coisas que se duplicarão a partir dessa alma - por uma questão de reciprocidade e devolução - são o ressentimento, a discriminação e o racismo, devidamente tropicalizados é claro.

Isso quer dizer que o casal, São Paulo e Brasil, vai continuar dormindo em camas separadas e fingindo amor eterno porque – aparentemente e como reza a etiqueta e as conveniências - um não pode viver sem o outro. Até que um grupo de tucanos-demoniacos, depois de muita humilhação e de mais algumas derrotas no Planalto Central, vai levantar a bandeira de São Paulo de Piratininga, e dizer chega. Quebrarão a cara, evidentemente.

Experimentem viajar pelo Brasil com um veiculo emplacado em São Paulo-SP. Abram a boca num boteco carioca e peçam “um chopis e dois pastel de carrrne”. Bem, isso é ridículo, isso é o lugar-comum, o básico. Vi coisas muito piores. Trabalhei com turismo em Santa Catarina, e testemunhei a volúpia dos nativos pela jugular de famílias paulistas, incluindo as criancinhas. Também vendi antenas parabólicas e títulos de clube de campo, orientado para xavecar aquela gente mal-humorada e comedora de pizza.

O ódio e o fascismo, repito, não são exclusividades dos alunos da Uniban. O fato de Geisy ser uma biscate é irrelevante diante da corrida ancestral pela estupidez – que, repito, não é monopólio de ninguém. Tive uma loja de carros usados e uma confecção de fundo de quintal que, graças a Deus, faliu. Conheci a sanha dos credores e dos senhorios. Pedi dinheiro emprestado, quebrei, levantei, sacudi a poeira, comi a mulher do gerente do supermercado “me fode, paulista” e, em 1987, tive a alma subtraída numa praça de pedágio em Jaguariúna. Uns sessenta quilômetros depois, perto do trevo de Mogi Mirim, a recuperei e dei a volta por cima e caí outra vez, assim sucessivamente: fiz muita merda e vi muita merda pelo caminho. O ódio brasileiro sempre esteve ao meu lado, e eu garanto que não é coisa que inventei. Um treco que se adquire por inércia e a partir do nascimento, que a gente leva no banco do táxi como se fosse um passageiro estressadinho. Se você vacilar, ele vira seu cúmplice.Vocês nunca andaram de táxi? Não fui eu quem inventou o complexo de vira-latas. Nem o de Pitbull. Vivi em Belém do Pará, e foi lá, num pasquim chamado PQP, que vi meu primeiro texto publicado por Raymundo Sobral: resisti incríveis três edições. Da pqp segui pra Macapá e passei alguns meses na Guiana Francesa, onde travei contato com Tomezinho, piloto e ladrão de aeronaves de pequeno porte que, além de ser um cara prático e monossilábico, me deu uma carona até a Serra da Canastra, bem longe da bacia Amazônica. Custou caro. Uma vendeta que percorreu 3 mil e tantos quilômetros. Tive de aprender a rezar para Nossa Senhora das Muambas. Vendi uns bagulhos trazidos da fronteira e comprei uma draga em sociedade com o diabo, ele mesmo, Tomezinho. Passei um ano no garimpo (essa história eu conto no meu próximo livro...), e achei alguns xibius que não valeram a lama em que me meti, e aí, antes de ser assassinado, resolvi me pirulitar e voltei pro sul. Onde conheci Marisete que de dia era manicure e de noite trabalhava no Scorpion’s Club. Isso aconteceu um ano antes de eu encalhar uma escuna num banco de areia no rio Camboriú, entre outras cositas legales e ilegales. Nesse meio tempo, fui testemunha de muita intolerância, perseguição e abandono. Essa tuiteira, Mayara Petrusi, é café pequeno. A propósito: qual a diferença de desejar o afogamento para os nordestinos, e dizer que Machado de Assis, apesar de feio, gago e preto era um sujeito bem humorado? Diferença nenhuma. Inclusive a platéia é a mesma. Os mesmos mamelucos baladeiros que lincharam a tuiteira, aplaudiram efusivamente o racismo da sinhá Lygia Fagundes Telles. Eta Brasilzão, terra de Iaiá.

Voltando à estrada. Percorri o Vale do Itajaí vendendo antenas parabólicas, dei um rolê em Brusque ( capital do moletom), fiz bons amigos em Balneário Camboriú, e sosseguei temporariamente o facho na Ilha de Santa Catarina. Troquei um Fiat Uno por uma casa de madeira na praia do Santinho. Era 1993 e lá nessa casa passei alguns meses na companhia de uma dúzia de hare-krishas. Eles acampavam no terreno vizinho e eu acabei me apaixonando pela mulher do monge hare-hare. Bem, posso dizer que ele não aprovou a insubmissão de sua escrava e quase saímos na porrada, lembro como se fosse hoje: “Vou te encher de porrada, paulistafilhodaputa”. “Vem monge, pode vir. Além de monge é corno”. O fato é que eu ia desjarretear os membros daquele babaca, meu sangue bandeirante borbulhou nas veias, e ele arregou quando vislumbrou altares profanados, velhos, crianças e mulheres grávidas passados a fio de espada, cidades devastadas, sangue, chamas e lágrimas vãs; o monge arregou quando viu Raposo Tavares, Anhanguera, Dias Velho e Hebe Camargo brilharem nos meus olhos vermelhos de “paulistafilhodaputa”. Tirei o monge do sério.

Mas eu já estava de saco cheio daquela pantomima e fui pra Porto Alegre comer mondongo no mercado público, e tchau. Uma semana depois estava de volta a Santos, logo me engajei na campanha de um dentista mal-intencionado que queria ser vereador. Fiz um jingle infame pra ele: “O Povo/ tá na boca do povo/ Dinho dentista” - nessa época morava no José Menino e cismei que ia comer a Lelé que não queria saber de mim, ela tinha nojo de mim. Também morei em E.S. do Pinhal e dei umas ciscadas na Alta Mogiana, em São João da Boa Vista pedi misericórdia pra Nossa Senhora dos Encalacrados e fiz promessas que sabia que jamais iria cumprir, depois, fui morar nas dependências de um curtume em Andradas-MG. Eu era o responsável pela seção de degola dos coelhos.

Saí de São Paulo-SP em 1985 e ainda não voltei. Ou melhor, voltei, dei um alô de 7 anos pra rapaziada e tenho saudades de cinco pessoas, as demais me incensaram quando tinham que incensar, me festejaram quando tinham que festejar, me traíram quando tinham que trair e me jogaram no lixo quando não precisaram mais de mim. Normal, tudo dentro do script, de modo que peguei minha viola, pus na sacola e dei mais um foda-se amplo, geral e irrestrito pra audiência. E fui viajar.

Estou há 25 anos na estrada e vivenciei situações de racismo e intransigência muito mais sórdidas e muito mais escrotas do que a tuitada imbecil de Mayara Petruso, numa época nada virtual e igualmente escrota. A diferença para os dias de hoje é que nossos coleguinhas não tinham, digamos, os “instrumentos” para serem eles mesmos. Todavia, o ódio sempre esteve presente – e, embora nunca tenha sido prerrogativa de preto, branco, nem de monge nem de executivo, ele, o ódio brasileiro, sempre foi muito bem preservado em escaninhos, divisões, muros e camadas de hipocrisia. Negá-lo é fomentar mais ódio. As pessoas o guardam como se fossem jóias de família. Quem quiser pode chamar de alegria brasileira.

Foi Pasolini quem inventou a internet.

Passei um final de semana inesquecível em Taguatinga, apesar dos carrapatos que trouxe na virilha. Perdi mil noites numa só noite no Largo do Machado e, por dois anos, vivi um amor de verdade em Copacabana. Nos idos dos oitenta, eu abastecia a camionete num posto de gasolina perto de Pouso Alegre, ia pra Ouro Fino trocar um guincho por um lote de 10 x 25 na cidade do menino da porteira. Nesse dia, aprendi que as palavras “cordialidade” e “imparcialidade” são as mais falsas e canalhas do dicionário. Não queria escrever isso aqui. Também não vou me estender sobre o incidente e a confusão que acorreu imediatamente na seqüência. Gente morta. Basta dizer que, à época, eu era conhecido como “paulista” e que, naquele dia enfumaçado, os fatos não estavam a meu favor. Como não estão agora. No entanto, como não sou 100% mentiroso e procuro - na medida do possível - não me omitir diante daquilo que me é cuspido nas fuças, vou generalizar e cuspir de volta. Gostem ou não gostem, aqui vai: o Brasil não combina com São Paulo e São Paulo não combina com o Brasil. Existe ódio. Um sentimento mal disfarçado, podre, latente, familiar e recíproco. E não é pouco ódio não.

Àqueles que quiserem acreditar no amor, eu desejo toda a sorte do mundo. Claro que sim, vamos sempre dar uma chance para a paz, para a solidariedade e amizade. Corremos o risco de levar um tiro de um fanático-babaca, mas se não fosse por isso eu já estaria morto mesmo. O importante é não esquecer que o ódio nos espreita e carrega milhões de disfarces e boas intenções, o ódio brasileiro afaga, convida pra ir jantar e é o melhor anfitrião do mundo, o ódio é doce como uma compota caseira e sempre concorda contigo, ele é o rei dos elogios e às vezes aponta pequenos defeitos para valorizar as virtudes que nem você sabia que tinha, o ódio é surpreendente e encantador, ele tem muita paciência, o ódio é desprendido e jamais vai perder o timing, ele é a Vovó da Casa do Pão de Queijo, ele é bom vizinho que planeja seu fim toda vez que o beija na face e, uma hora, – pode escrever - ele vai dar o bote e estragar tudo, de leste a oeste e de norte a sul. Ininterruptamente. Portanto, quem puder amar, que ame e seja feliz e atire a primeira flor...porque a primeira pedra me atingiu naquela tarde no posto de gasolina. De chofre, bem no alvo, de forma irrevogável e para sempre, e as outras pedradas viriam na seqüência e chegam até hoje, implacáveis. Vocês não viram Easy Rider? Idem,ibidem.

Ou alguém pensa que aqui no Brasil é diferente porque as pessoas fingem que levam Sergio Bianchi a sério? Aqui o ódio é pior, muito pior.

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

Fonte: Congressoemfoco


Outros textos do colunista Marcelo Mirisola*

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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