terça-feira, novembro 30, 2010

Nos usuários a força do narcotráfico

Carlos Chagas

Em meio às explosões de euforia, de resto, justas, vem o comentário feito pelo ator Raul Solnado, em seguida à revolução democrática em Portugal: “Depois da festa dos cravos, deve-se esperar a conta do florista..” Informaram as autoridades fluminenses a apreensão de toneladas de maconha, cocaína e crack. Até mostraram partes recolhidas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. A conclusão é de que haveria, como há, consumidores para tanto e muito mais. São centenas de milhares, no Rio e fora do Rio, sem os quais os bandidos não existiriam. Combater o narcotráfico sem considerá-los equivale a enxugar gelo ou ensacar fumaça. Por mais que a polícia e as forças armadas ocupem as favelas, o comércio de drogas permanecerá. Novos chefes do tráfico assumirão, novas bocas de fumo emergirão, quando não se sofisticarem as entregas a domicílio.

Fazer o quê? Não dá para mobilizar policiais e soldados, muito menos tanques, helicópteros e carros de assalto para imobilizar os viciados. Eles estão em toda parte, nas mansões e nas residências simples, nas universidades e nos escritórios. Até nas variadas repartições públicas. Prendê-los? Não haveria cadeias que bastassem. Muito menos hospitais, para quantos sustentam tratar-se de doentes necessitados de cuidados médicos.

Eis a força do narcotráfico: os usuários. Há quem imagine a liberação da venda e do uso das drogas, mas essa iniciativa apenas mudaria o traje dos traficantes. Trocariam as bermudas e sandálias de dedo pelo terno e gravata. Os fuzis contrabandeados dariam lugar aos talões de cheque e aos cartões de crédito. Identificá-los e puni-los com penas de prestação de serviço comunitário poderia constituir-se numa solução, mais pelo constrangimento de serem apontados pelos vizinhos, amigos e parentes do que propriamente por ajudarem velhinhos nas filas do INSS. Mesmo assim, quantos viciados dariam de ombros? �

EVAPORARAM

Espantam-se quantos assistiram pela televisão as imagens daquele monte de traficantes fugindo pelo meio do mato, da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão. Porque eram, conforme os cálculos da polícia, pelo menos quatrocentos. Somados a outros em igual ou maior número, instalados no Alemão, chegariam a quase mil, comprovadamente delinqüentes. Como explicar que dois dias depois, na segunda operação, bem mais ampla, nem cem deles foram presos? Ou se reconhece estar o narcotráfico estrategicamente tão bem preparado para dar fuga a seus integrantes, de um favelão já cercado pelos soldados, ou só restará a conclusão de que descobriram o elixir da invisibilidade. Imaginar que escaparam pelas redes de esgoto não dá, porque favela não tem esgoto. Nem cavernas capazes de abrigar multidões.

MÉRITO PARA JOBIM

Pode ser que o presidente Lula tenha sugerido a continuação de Nelson Jobim antes dos acontecimentos na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, mas a decisão tomada por Dilma Rousseff, de manter o ministro da Defesa, sedimentou-se depois da entrada de tanques e soldados da Marinha e do Exército naquelas duas favelas. Foi Jobim que conseguiu impor aos comandantes das forças armadas profunda mudança nas concepções vigentes, de que elas não existem para subir o morro. Subiram, portanto existem. A Marinha saiu na frente, evidenciando o Corpo de Fuzileiros Navais como tropa de elite. O Exército demorou um dia, mas enviou seus praças mais bem preparados, os paraquedistas.

O ministro encontra-se no exterior. Quando voltar receberá os cumprimentos. Ainda que nenhuma informação tenha vazado, admite-se que serão mantidos os três comandantes das forças.�

PRESSÕES�

No futuro governo e até em setores do PMDB, registram-se pressões para o vice-presidente Michel Temer renunciar à presidência do partido. Parece difícil, já que o ainda deputado não concorda. Sua força repousa tanto no cargo que vai ocupar quanto no que exerce há anos. E para quem alega não haver precedente em nossa crônica política, é bom lembrar que João Goulart, por dois mandatos, foi vice-presidente da República e presidente do PTB. E, de quebra, presidente do Senado, função que a Constituição de 1946 dava ao substituto do presidente. Era uma forma de integrar Legislativo e Executivo, que a Constituição de 1967 extinguiu.

Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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