Candidatos devem construir uma nova maioria para vencer
Pedro do Coutto
A nova pesquisa Quaest colocou Lula e Flávio Bolsonaro diante de um cenário que, mais do que apontar uma vantagem de um candidato sobre o outro, revela o grau de imprevisibilidade da eleição presidencial. No segundo turno, Flávio aparece com 42% e Lula com 41%. A diferença de um ponto está dentro da margem de erro e, portanto, configura empate técnico.
Na mesma rodada de pesquisas, o levantamento BTG Pactual/Nexus encontrou o movimento inverso: Lula com 1 ponto de vantagem sobre Flávio. A fotografia, neste momento, é menos a de uma liderança definida do que a de uma disputa extremamente equilibrada.
TRANSFERÊNCIA DE VOTOS – É justamente por isso que uma questão se torna central para compreender o que pode acontecer até o segundo turno: quanto dos votos obtidos pelos demais candidatos no primeiro turno será efetivamente transferido para Flávio Bolsonaro?
A resposta não é automática. Eleitores não são patrimônio eleitoral de candidatos derrotados, e a passagem de uma eleição para outra costuma envolver rejeições, afinidades ideológicas, interesses regionais, avaliação do governo e, sobretudo, a percepção sobre quem representa a alternativa mais aceitável na segunda rodada.
Os próprios dados da Quaest ajudam a relativizar a ideia de uma transferência integral. Em uma pesquisa divulgada em 14 de setembro, entre os eleitores que declaravam preferência por Augusto Cury no primeiro turno, 41% diziam que votariam em Flávio num eventual segundo turno, enquanto 25% escolheriam Lula.
VOTO EM BRANCO – Outros 27% afirmavam que votariam em branco, anulariam ou não compareceriam, e 7% permaneciam indecisos. Ou seja, mesmo diante de um eleitorado identificado com um candidato de fora da polarização principal, uma parcela expressiva não migra automaticamente para nenhum dos dois polos.
Esse é um dos pontos mais importantes da reta final. A soma aritmética dos votos dos adversários de Lula não corresponde necessariamente à votação que Flávio receberá no segundo turno. O eleitor que escolhe um candidato no primeiro turno pode fazê-lo justamente porque rejeita os dois nomes que considera mais fortes. Quando obrigado a escolher entre eles, pode mudar de posição, votar em branco, anular ou simplesmente não comparecer.
Por isso, a disputa não será determinada apenas pela capacidade de Flávio de incorporar o eleitorado contrário ao governo. Lula também terá de disputar esse mesmo espaço. E, como candidato à reeleição, dispõe de uma vantagem particular: pode transformar a própria experiência de governo em argumento eleitoral.
BOLSA FAMÍLIA – O reajuste do Bolsa Família é um exemplo concreto dessa estratégia. O governo anunciou em 17 de setembro uma atualização de 15,04% nos benefícios, elevando o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691 a partir da folha de outubro. O benefício médio estimado passará de R$ 675 para R$ 777. O governo afirma que a medida recompõe a inflação acumulada desde a retomada do programa, enquanto a proximidade com a eleição inevitavelmente coloca a decisão no centro do debate político. Os primeiros pagamentos com os novos valores ocorrerão antes do segundo turno.
O efeito eleitoral de uma medida como essa, entretanto, não deve ser presumido. O eleitor pode reconhecer o benefício e ainda assim desaprovar o governo. Pode considerar o reajuste necessário, mas votar na oposição por outras razões. Ou pode avaliar positivamente a política social e, mesmo assim, não transformar essa avaliação em voto.
FATOS CONCRETOS – O ponto relevante é que Lula terá, até o fim da campanha, fatos concretos de governo para apresentar ao eleitorado, enquanto Flávio terá de construir sua candidatura essencialmente sobre a promessa de mudança e sobre a rejeição ao atual governo. Essa diferença pode ganhar importância à medida que a campanha se aproximar do momento decisivo.
Outro elemento entrou no debate nesta terça-feira: o discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Diante dos líderes internacionais reunidos em Nova York, o presidente afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e defendeu a soberania nacional, o multilateralismo e a não interferência externa nos processos eleitorais. Também abordou democracia, conflitos internacionais, combate à fome, inteligência artificial e a necessidade de reformas no sistema multilateral.
É difícil medir antecipadamente o impacto eleitoral de um discurso internacional. Seu efeito não depende apenas do conteúdo, mas da maneira como a campanha consegue traduzi-lo para a realidade cotidiana do eleitor. Para uma parcela do eleitorado, a defesa da soberania e a posição do Brasil no cenário internacional podem reforçar a imagem presidencial. Para outra, questões internacionais podem ter peso muito menor diante de problemas como renda, preços, segurança e emprego. É aí que a eleição volta ao terreno doméstico.
POLARIZAÇÃO – A própria Quaest mostra que a polarização permanece muito forte. Lula e Flávio possuem bases eleitorais relativamente resistentes, mas encontram dificuldades para avançar sobre o campo que não se identifica integralmente com nenhum dos dois. A pesquisa de setembro mostrou, no primeiro turno, Lula à frente de Flávio, enquanto no segundo turno os dois aparecem praticamente empatados. A distância entre os dois cenários revela justamente a importância dos eleitores que ainda não estão integralmente incorporados à disputa binária.
Por isso, o argumento de que Flávio necessariamente herdará todos os votos dos candidatos que fazem oposição a Lula contém uma simplificação. Existe, evidentemente, uma tendência de parte desses eleitores a se aproximar do candidato oposicionista que chegar ao segundo turno. Mas transferência eleitoral não é automática, nem proporcional. Depende do candidato derrotado, do perfil de seu eleitorado, de suas relações políticas e, principalmente, do grau de rejeição existente entre os próprios eleitores.
TERCEIRA POSIÇÃO – A questão central será descobrir quantos desses votos são efetivamente transferíveis e quantos pertencem a eleitores que, no segundo turno, continuarão procurando uma terceira posição — ainda que ela se manifeste pelo voto branco, nulo ou pela abstenção.
Para Lula, existe ainda outro fator: o fato de ser presidente permite que a campanha seja travada também em torno de resultados e medidas concretas. O Bolsa Família, a situação econômica, investimentos, emprego, política externa e programas sociais podem ser apresentados como evidências de continuidade. Mas essa vantagem também tem um custo: tudo aquilo que beneficia o governo eleitoralmente também pode ser utilizado pela oposição para cobrar resultados, questionar prioridades e explorar insatisfações.
ARTICULAÇÃO – A campanha, portanto, tende a caminhar para uma disputa menos sobre a simples transferência dos votos de terceiros e mais sobre a capacidade de cada candidato de ampliar sua própria coalizão.
Nesse sentido, a pequena vantagem de Flávio na Quaest não deve ser interpretada como uma tendência irreversível, assim como eventuais oscilações favoráveis a Lula não permitiriam afirmar antecipadamente que o presidente retomará a liderança. Os números atuais mostram uma corrida dentro da margem de erro. A Reuters, ao comparar as pesquisas Quaest e BTG Pactual/Nexus, registrou justamente essa situação: um levantamento aponta Flávio à frente por um ponto e outro mostra Lula na frente por um ponto, com as duas diferenças dentro das respectivas margens de erro.
O que pode mudar esse quadro nas próximas semanas é a capacidade de cada campanha de transformar sua base em uma coalizão mais ampla. Flávio precisa demonstrar que consegue ultrapassar os limites do eleitorado identificado com o bolsonarismo e incorporar setores que desejam mudança, mas não necessariamente votariam automaticamente em um Bolsonaro. Lula, por sua vez, precisa preservar sua base e convencer eleitores que estão insatisfeitos com seu governo de que a continuidade é preferível à alternativa apresentada pela oposição. É uma diferença importante.
NOVA MAIORIA – A eleição não será decidida pela soma dos votos dos candidatos derrotados, mas pela capacidade de cada finalista de construir uma nova maioria. E essa maioria ainda não está completamente formada.
A vantagem de um ponto registrada pela Quaest é, portanto, menos uma resposta do que um aviso sobre o estágio da disputa: a eleição chegou a um ponto em que pequenos deslocamentos de opinião podem adquirir grande importância. Até o segundo turno, medidas de governo, desempenho econômico percebido, campanha eleitoral, debates, alianças, acontecimentos nacionais e internacionais e, sobretudo, a rejeição a cada candidato poderão alterar a composição desse eleitorado.
No fim, talvez seja esse o dado mais relevante da pesquisa: nenhum dos dois candidatos pode tratar como seu o eleitor que hoje está fora de sua base. E, numa eleição tão apertada, é justamente esse eleitor que poderá definir a maioria.