“Deu um abalo”: coordenador de Flávio reconhece prejuízo eleitoral com o ‘Dark Horse’
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Marinho evita cravar nome para vice de Flávio
Letícia Pille
Geralda Doca
O Globo
Coordenador da pré-campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o senador Rogério Marinho (PL-RN) reconhece que a revelação do caso “Dark horse” “abalou” a campanha e teve efeito negativo na trajetória nas pesquisas de intenção de voto. Marinho avalia que o impacto teria sido menor se Flávio tivesse exposto antes a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quem pediu dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ele, no entanto, minimiza a repercussão a longo prazo e diz que a disputa pelo Planalto é uma “maratona, não corrida de 100 metros”.
Líder da oposição no Senado, Marinho afirma ainda que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1, aprovada pela Câmara com apoio de deputados do PL, impõe uma “camisa de força ao setor produtivo”. Como contraponto, ele apresentou uma proposta alternativa, com a possibilidade de escolha entre o regime previsto na CLT e uma jornada baseada em horas trabalhadas.
As pesquisas mostram a queda do Flávio após o caso “Dark horse”. Isso atrapalhou a campanha?
Uma campanha não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona. Foi apresentada uma candidatura contra alguém que está sentado na cadeira e faz política há 40 anos. A rejeição a Lula está cristalizada e existem vetores que demonstram essa repulsa.
Quais?
O primeiro é a corrupção. O questionamento feito ao Flávio é que uma relação privada veio a público de uma forma criminalizada. Se ele tivesse tido cuidado de expor isso antes, talvez o impacto não fosse tão grande. Não se trata de contrapartida, de advocacia administrativa nem de apresentação de projetos que vão beneficiar A ou B. Ele (Vorcaro) foi recebido fora da agenda mais de uma vez pelo nosso principal adversário (Lula). Não há perplexidade nem indignação. Quando você fala de Lula e de corrupção, isso está precificado. E na hora em que do nosso lado tem uma relação privada, é criminalizada porque não foi exposta da maneira adequada. Sem dúvida nenhuma, isso deu um abalo na campanha.
Flávio disse que vai divulgar a prestação de contas do filme. Quando isso vai acontecer?
Esperamos que após a prestação de contas, que será feita, as pessoas possam virar essa página e entender que nós temos um Brasil para discutir.
O prazo que ele disse termina nesta semana. Em que pé está isso?
Aguarde o prazo.
O PL vai trocar o candidato se novos elementos da relação entre o Flávio e o Vorcaro aparecerem?
Flávio é o nosso plano A, B, C e F.
Há uma disputa por influência no entorno do Flávio entre uma ala ideológica e outra pragmática. Como equilibrar?
Todo partido grande tem grupos distintos que pensam de forma diferente. Essa é a nossa força e a nossa fragilidade: a multiplicidade a visões diferentes, que precisam convergir na mesma direção. O que nos une é a visão conservadora de mundo e a visão liberal da economia.
As declarações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro podem atrapalhar o Flávio? Ele sugeriu que o Pix, criticado pelos EUA, fosse tema da negociação com o presidente Donald Trump.
Há forma e conteúdo. Na forma, cada um tem uma maneira de se colocar. No conteúdo, nós pensamos parecido. Não vou dizer igual, porque ninguém é igual a ninguém. Quem está no PL tem uma visão conservadora da sociedade. E o partido tem um líder, que se chama Jair Messias Bolsonaro.
Que está preso, em casa, e sem poder se comunicar.
Mas continua tendo interlocução conosco através do Flávio Bolsonaro, que hoje é o intérprete, quem vocaliza o que pensa o presidente Bolsonaro. E espero que em breve essa injustiça (prisão) seja corrigida.
Eduardo defendeu recentemente a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) para vice de Flávio. É um bom nome?
O Eduardo tem todo o direito de opinar. É evidente que nós precisamos nos debruçar sobre esse tema em algum momento. Espero que daqui a dez ou 15 dias a gente pare um pouco para ver quem vai agregar mais à chapa. Eu acho que a Júlia é uma deputada aguerrida e tem todas as condições de ser levada em consideração, assim como outras que foram aventadas. A própria Tereza Cristina (senadora pelo PP-MS), a Priscila Costa (pré-candidata ao Senado pelo Ceará) ou a Simone Marquetto (deputada pelo PP-SP). Tem várias pessoas que estão sendo colocadas.
Quem o senhor defende?
A minha opinião é que a gente tenha um vice que agregue e um perfil que case com o do candidato.
O que a campanha vai propor na economia?
Nós não vamos fazer as sandices e arbitrariedades que o governo do PT está fazendo. Evidente que nossos orçamentos vão ser equilibrados. As despesas precisam caber nas receitas.
Onde vão cortar?
Nós vamos fazer o que é importante para o Brasil. Não há dificuldade em se buscar recursos dentro do próprio país para que tenhamos certeza da manutenção de programas sociais eficientes. Defendo que todos sejam mantidos. E precisamos de uma reforma administrativa. O Brasil é o país dos penduricalhos e privilégios. Você só administra o Brasil se fizer uma reforma administrativa para definir o que é carreira de Estado
O governo Bolsonaro, do qual o senhor participou, tentou fazer e não conseguiu.
Eu posso olhar para o governo Bolsonaro e listar 500 avanços e cem defeitos. Não somos um mar de rosas. Mas a nossa preocupação é não repetir os mesmos erros e potencializar os acertos. Entre erros e acertos, somos muito superiores.
O senhor apresentou uma PEC alternativa após a aprovação na Câmara do fim da escala 6×1. Qual é o objetivo da sua proposta?
É uma provocação ao fato de que o governo pretende impor ao setor produtivo brasileiro uma camisa de força. O mercado de trabalho é plural e diverso. É um assunto que afeta o conjunto da sociedade brasileira e está sendo conduzido de uma forma irresponsável, leviana, eleitoreira e, sobretudo, sem nenhuma preocupação com as consequências. O que se propõe é absolutamente impossível de ser executado, a não ser que se gere um enorme passivo trabalhista com problemas judiciais. Temos um estoque de 20 milhões de trabalhadores de pequenas e microempresas, que terão muita dificuldade de se adequar a essa nova situação. Haverá aumento da informalidade e diminuição de salário, porque pessoas mais bem remuneradas serão substituídas por outras com menor remuneração. E aumento da inflação, porque os custos serão repassados para bens e serviços.
O que o senhor defende então?
Estamos falando de uma legislação que já existe no Brasil e em outros lugares do mundo. Sem imposição, permitindo que as pessoas façam uma opção (pelo regime de trabalho de preferência, CLT ou pagamento por horas trabalhadas). Espero que o regimento seja cumprido e possamos discutir as propostas de forma concomitante. Não tenho nenhuma dificuldade de fazer a discussão de mérito.