Entenda em 5 pontos operação da PF contra Jaques Wagner no caso Master
Por Christian Policeno/Folhapress
19/06/2026 às 07:35
Foto: Marcelo Camargo/Arquivo/Agência Brasil
Sede da PF
A Polícia Federal iniciou nesta quinta-feira (18) nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades relacionadas ao Banco Master e ao seu ex-dono, Daniel Vorcaro. O alvo principal foi Jaques Wagner (PT), líder do governo Lula no Senado.
A PF encontrou US$ 55 mil e 33 mil euros (cerca de R$ 471 mil, em valores atuais) em endereços ligados ao senador. Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, autorizados pelo ministro do STF (Superior Tribunal Federal) André Mendonça.
Em nota o senador disse que não é réu, não foi denunciado e nem acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria alega que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais.
A investigação apura suspeitas de que Wagner recebeu benefícios do grupo ligado ao Master por meio de seu empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.
1. QUEM É AUGUSTO LIMA E COMO ELE CONECTA WAGNER AO MASTER
Augusto Lima é o elo central entre Jaques Wagner e o Banco Master. Empresário baiano, Lima teve ascensão no setor financeiro quando criou o Credcesta, cartão consignado com benefícios a servidores públicos, lançado em 2018.
O produto nasceu da privatização da Ebal, rede de supermercados estatal conhecida como Cesta do Povo, processo conduzido pelo próprio Wagner quando era secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Em maio de 2020, Lima se tornou sócio do Banco Master de Daniel Vorcaro, saindo da sociedade em maio de 2024.
Com o tempo, Wagner e Lima estreitaram os laços. O próprio senador admitiu à Folha, em entrevista em janeiro, que os dois se tornaram amigos ao longo dos anos, a PF descreve a relação entre os dois como de "elevado grau de proximidade e confiança".
É a primeira vez que a Operação Compliance Zero envolve pessoas próximas a Lula. Em fases anteriores, o principal alvo político havia sido o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro do governo Jair Bolsonaro (PL), suspeito de receber mesadas de Vorcaro.
Em reportagem da Folha, a defesa de Augusto Lima afirmou que as ações da PF nesta quinta eram desnecessárias, e que o empresário está há seis meses á disposição das autoridades.
2. O APARTAMENTO DE R$ 2,5 MILHÕES E OS REPASSES À FAMÍLIA DO SENADOR
A PF apura duas frentes principais de benefícios recebidos por Wagner. A primeira envolve um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões no Horto Florestal, bairro nobre de Salvador.
Em novembro de 2024, Wagner encaminhou a Lima o contato do gerente de uma construtora e o número da unidade, com o preço de R$ 2,45 milhões. Seis meses depois, enviou ao empresário uma mensagem de um filho pedindo dados do proprietário do imóvel para um projeto de reforma.
O senador admitiu à Band News TV ter pedido a Lima que comprasse o apartamento, com a condição de recomprá-lo depois. "Como Guga é um investidor, eu disse a ele: 'você pode comprar? Depois eu vou recomprar'", afirmou.
A segunda frente envolve um repasse de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Lima ao núcleo familiar do senador. A transferência, realizada em outubro de 2025, partiu da PKL One Participações —empresa da prima de Lima— para a BN Financeira, vinculada a Bonnie Bonilha, esposa do enteado de Wagner, Eduardo Sodré.
3. AS VIAGENS DE JATINHO E OS INGRESSOS DE R$ 63 MIL PARA SHOW
Segundo a coluna Mônica Bergamo, a PF cita em relatório ao STF uma série de vantagens econômicas recebidas por Wagner para reforçar a proximidade entre o senador e Augusto Lima. Entre elas estão o uso gratuito de aeronaves vinculadas ao empresário e o recebimento de ingressos para shows no exterior de elevado valor.
Conforme a coluna, em outubro de 2023, Lima colocou um jatinho particular à disposição de Wagner e de familiares para uma viagem de Salvador até a Ilha da Paixão, propriedade do próprio empresário na Bahia, onde os dois se encontraram. Em abril de 2024, Wagner pediu ajuda a Lima para se deslocar ao Rio de Janeiro, e o empresário enviou ao senador o contato de um copiloto.
De acordo com a PF, em junho de 2023, Lima orientou sua secretária a adquirir ingressos para familiares de Wagner para shows da cantora Taylor Swift. Os bilhetes, no valor total de R$ 63,3 mil, foram pagos pela Reag — empresa que, segundo as investigações, tinha papel central na arquitetura financeira fraudulenta do Master e é suspeita de envolvimento com o crime organizado.
A relação com os shows não parou por aí. Em novembro do mesmo ano, Wagner perguntou a Lima sobre os "ingressos de sábado" —dia 25 de novembro, data em que Taylor se apresentou no Allianz Parque, em São Paulo. Após receber três arquivos de ingressos do banqueiro, o senador pediu mais duas entradas, concedidas pelo empresário.
4. A SUSPEITA DE ATUAÇÃO PARLAMENTAR EM FAVOR DO MASTER
Além dos benefícios pessoais, a PF vê indícios de que Wagner atuou no Congresso Nacional em favor dos interesses do grupo de Vorcaro e Lima. Uma das pautas mencionadas é uma emenda em medida provisória de 2022 sobre ampliação de crédito consignado, cuja tramitação ocorreu em data próxima a relações contratuais entre o Master e a empresa da esposa do enteado do senador.
A investigação também aponta envolvimento de Wagner na chamada "emenda Master", proposta apresentada por Ciro Nogueira (PP-PI) para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
A PF destaca ainda uma mensagem de Lima ao senador, em março de 2025, sobre a venda do Master ao BRB: "Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!" Para a investigação, a frase indica que Wagner "não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado".
5. O DINHEIRO ENCONTRADO PELA PF NOS ENDEREÇOS DE WAGNER
Durante as buscas desta quinta-feira, a PF encontrou US$ 49 mil em dinheiro vivo no quarto de hotel em Brasília onde Wagner mora, além de 33,5 mil euros e US$ 6.175 em endereços ligados ao parlamentar na Bahia — totalizando cerca de R$ 471 mil em moeda estrangeira.
Os valores foram apreendidos no âmbito dos 18 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro André Mendonça, do STF, cumpridos na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal.
Politica Livre