Documentos mostram disparidade de pagamentos
Dimitrius Dantas
Camila Turtelli
O Globo
O escritório da advogada Viviane Barci de Moraes recebeu dez vezes mais do que outras bancas de advocacia para defender o Banco Master em 2025, mostram documentos apresentados à Receita Federal pela instituição financeira de Daniel Vorcaro.
O material, obtido pelo O Globo, revela que o Master contratou os serviços de 61 escritórios no ano passado, ao custo de R$ 265 milhões. O maior montante foi repassado ao escritório Barci de Moraes no mesmo ano: R$ 40,1 milhões. O levantamento foi feito levando em consideração CNPJs registrados na categoria de “Serviços Advocatícios” na Receita. Esse filtro é feito com base na Classificação Nacional de Atividades Econômicas, ou CNAE: cada empresa, ao ser registrada, indica um CNAE principal e CNAEs secundários, indicando seu ramo de atuação.
RECURSOS – O valor pago ao escritório Barci de Moraes é R$ 13 milhões a mais do que o segundo escritório que mais recebeu recursos do banco. Em média, os escritórios que receberam do Master embolsaram R$ 3,7 milhões cada para prestar serviços ou consultoria ao banco (este valor desconsidera o valor pago ao escritório Barci de Moraes).
Como padrão de comparação, o escritório Rueda Advogados Associados, do presidente do União Brasil, Antônio Rueda, recebeu R$ 1 milhão no mesmo período. Em nota, Rueda afirmou que fez “dezenas de pareceres e centenas de reuniões, incluindo mais de 1.000 audiências, cerca de 20 mil protocolos e aproximadamente 400 acordos”. Mesmo assim, o escritório de Viviane Barci recebeu 40 vezes mais do que o serviço prestado por Rueda.
Se o escritório fizesse um número proporcional à quantidade de audiências feitas pelo escritório de Rueda, teria feito mais de 40 mil audiências, ou 109 audiências por dia durante todos os dias do ano. A informação sobre a contratação do escritório foi revelada no ano passado pelo colunista Lauro Jardim, do O Globo. A colunista Malu Gaspar, por sua vez, revelou que o acordo previa remuneração de R$ 3,6 milhões mensais.
R$ 129 MILHÕES – O contrato foi fechado em 2024 e previa pagamentos que, no total, somavam R$ 129 milhões em três anos, segundo a colunista Malu Gaspar. No mês passado, o escritório de Viviane divulgou nota na qual disse ter realizado reuniões e produzido pareceres para o banco.
O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), contudo, disse que o valor apontado no documento da Receita Federal é incompatível com os serviços prestados. “A CPI recebeu documentos que confirmaram os pagamentos realizados no ano de 2024 do Banco Master para o escritório Barci de Moraes. Em nota publicada há algum tempo, o próprio escritório confirmou a existência do contrato e apresentou descritivo de serviços que foi amplamente considerado incompatível com o valor pago”, disse o relator ao O Globo.
Procurado, o escritório Barci de Moraes disse não confirmar “essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos”. Conforme revelado pela colunista do O Globo Malu Gaspar, no dia de sua prisão, Daniel Vorcaro trocou mensagens com o ministro do Supremo. Os dois se comunicavam por meio de capturas de tela enviadas um ao outro por visualização única.
“ALGUMA NOVIDADE?” – – Preso na noite do dia 17 de novembro no Aeroporto de Guarulhos, enquanto tentava embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, Vorcaro enviou uma imagem para Moraes com uma anotação no seu celular que questionava: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
No diálogo, Moraes respondeu ao banqueiro, mas também enviou mensagens em visualização única, que não foram salvas no celular do banqueiro. A troca de mensagens foi encontrada pela Polícia Federal (PF) no celular do dono do Banco Master. À época da revelação, o ministro Alexandre de Moraes negou ter recebido as mensagens, afirmando que se tratavam de ilações mentirosas.