
Movimentos incluem até reverter a “taxa das blusinhas”
Pedro do Coutto
A seis meses de uma eleição decisiva, o presidente Lula da Silva se move com a urgência de quem enxerga o tempo político encurtar. Diante de uma desaprovação crescente e disseminada em diferentes estratos sociais, o governo prepara um amplo conjunto de medidas — um “pacotão” — com foco direto no bolso do eleitor: combustíveis, energia elétrica e custo de vida. A estratégia é clara, quase clássica: reverter desgaste econômico com alívio imediato e visível.
O Palácio do Planalto avalia intervenções para conter preços de combustíveis e reduzir o impacto da conta de luz, dois dos fatores mais sensíveis na percepção popular sobre a economia. A lógica é simples: inflação percebida pesa mais do que indicadores técnicos. Quando o diesel sobe ou a energia encarece, o efeito político é direto — e muitas vezes devastador.
POPULARIDADE – O problema para Lula não é apenas econômico; é, sobretudo, político. Pesquisas recentes mostram uma inflexão relevante em sua popularidade, com índices de reprovação superando aprovação em alguns levantamentos — algo incomum em seus mandatos anteriores. O desgaste atinge inclusive segmentos historicamente favoráveis, como eleitores de menor renda e regiões tradicionalmente alinhadas ao lulismo.
Nesse contexto, o pacote de medidas assume contornos que vão além da gestão econômica: trata-se de uma tentativa de reconstrução narrativa. Lula aposta em um retorno à sua marca registrada — o Estado como indutor do bem-estar imediato —, reforçando políticas que dialogam diretamente com o cotidiano da população. A ideia não é apenas melhorar indicadores, mas restaurar uma sensação de proteção social.
DILEMA – Há, no entanto, um dilema evidente. Medidas de curto prazo, especialmente aquelas que envolvem subsídios ou controle indireto de preços, tendem a gerar alívio imediato, mas levantam dúvidas sobre sustentabilidade fiscal e efeitos futuros. A história econômica brasileira — inclusive em governos do próprio PT — mostra que esse tipo de intervenção pode produzir ganhos políticos rápidos, ao custo de pressões posteriores sobre as contas públicas ou distorções de mercado.
Além disso, o cenário internacional não colabora plenamente. Tensões geopolíticas recentes têm pressionado o preço do petróleo, impactando diretamente os combustíveis no Brasil. Isso reduz a margem de manobra do governo e aumenta o custo político de qualquer fracasso na contenção de preços.
TIMING – Outro ponto crucial é o timing. Ao lançar medidas tão próximas do calendário eleitoral, o governo inevitavelmente alimenta críticas de oportunismo. Adversários devem explorar a narrativa de uso da máquina pública com fins eleitorais — uma acusação recorrente na política brasileira, independentemente de quem esteja no poder.
Ainda assim, seria ingênuo ignorar a racionalidade da estratégia. Eleições, especialmente em países com histórico de volatilidade econômica, costumam ser decididas por percepções concretas do dia a dia. O preço do gás, da gasolina ou da conta de luz tem, muitas vezes, mais impacto eleitoral do que debates abstratos sobre reformas estruturais.
APOSTA – Lula, político experiente, parece apostar exatamente nisso: na capacidade de reverter o humor social por meio de ações tangíveis e de rápida repercussão. Resta saber se o eleitor enxergará essas medidas como solução legítima ou como remédio tardio.
No fim, o “pacotão” não é apenas um conjunto de políticas públicas — é, acima de tudo, um teste de eficácia política. E, como em todo teste desse tipo, o resultado não será medido apenas na economia, mas nas urnas.