A primeira reportagem que publiquei no Intercept Brasil, ainda como freelancer, em maio de 2021, revelou que Nise Yamaguchi frequentou o Ministério da Saúde em reuniões que não constavam em agendas públicas, mesmo quando envolviam as principais autoridades da pasta.
Os dados vieram de registros de entrada e circulação que obtive via Lei de Acesso à Informação, listando visitantes do prédio do ministério em Brasília ao longo de 2020.
De acordo com esses documentos, Nise esteve na sede da pasta em pelo menos quatro datas — em junho, julho e dezembro daquele ano. Em duas dessas ocasiões, entrou mais de uma vez no mesmo dia, nos períodos da manhã e da tarde, o que indicava reuniões prolongadas, distribuídas ao longo de várias horas.
Em 10 de junho de 2020, por exemplo, ela acessou o prédio às 9h41 e foi encaminhada ao gabinete do ministro interino Eduardo Pazuello. Retornou às catracas às 14h50, desta vez direcionada à secretaria-executiva, então comandada pelo coronel Elcio Franco.
Nenhuma dessas reuniões aparecia nas agendas oficiais de Pazuello ou de Franco. Pela legislação brasileira, compromissos de ministros e secretários-executivos devem ser registrados e divulgados, inclusive quando se trata de despachos internos.
A ausência de qualquer menção a esses encontros indicavam que eles foram deliberadamente omitidos da publicidade exigida para cargos dessa natureza.
Os registros mostravam ainda que Nise não atuava isoladamente. Em algumas visitas, esteve acompanhada de sua irmã, a administradora de empresas Greice Naomi Yamaguchi. Em outra visita, Greice já havia estado no prédio dias antes, ao lado de outro irmão, o cirurgião plástico Charles Takahito Yamaguchi.
Essa circulação familiar dentro de áreas sensíveis da pasta coincide com um momento em que o governo federal discutia e implementava mudanças importantes na política de enfrentamento à covid-19.