terça-feira, abril 07, 2026

O gabinete paralelo sai das sombras

 

O gabinete paralelo sai das sombras

Por que Flávio Bolsonaro e Valdemar celebraram a chegada de Nise Yamaguchi ao PL.

É provável que você se lembre. Durante a pandemia, uma parte relevante das decisões do governo do então presidente Jair Bolsonaro não passava pelos canais formais do Ministério da Saúde. Não era registrada em agendas oficiais, não era comunicada publicamente e, muitas vezes, contrariava as recomendações produzidas pelo corpo técnico da pasta.


Esse arranjo, que veio a ser descrito por autoridades e pela CPI da Covid no Senado como um “gabinete paralelo”, funcionava à margem da estrutura institucional, mas com acesso direto ao centro do poder. Nos últimos dias, um episódio aparentemente corriqueiro da política partidária trouxe esse passado de volta ao presente.


No dia 25 de março, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, gravaram um vídeo celebrando a filiação e a pré-candidatura da médica Nise Yamaguchi à Câmara dos Deputados nas eleições de outubro.


A cena, registrada e divulgada como um gesto de apoio eleitoral, recoloca no debate público uma personagem que teve atuação relevante — e pouco transparente — nos bastidores do governo de Jair Bolsonaro durante o período mais crítico da crise sanitária.


A lembrança é especialmente significativa porque, em janeiro deste ano, o Ministério Público Federal, o MPF, decidiu arquivar um pedido de investigação sobre a conduta de Bolsonaro na pandemia.


No despacho, a procuradoria afirmou que as acusações apresentadas eram genéricas e não estavam acompanhadas de elementos mínimos que justificassem a abertura de um inquérito.


A decisão encerrou, no âmbito do MPF, uma frente de questionamento que dialogava diretamente com os fatos revelados ao longo de 2020 e 2021 — entre eles, a existência de um núcleo informal de aconselhamento que operava fora das estruturas oficiais. Mas tem coisas que não podemos esquecer. Vamos aos fatos.

Ao longo de 2020, o Ministério da Saúde flexibilizou regras para prescrição de medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina e, no início de 2021, lançou o aplicativo TrateCov, que indicava automaticamente o uso desses fármacos em casos suspeitos.

Nise Yamaguchi foi uma das principais defensoras públicas dessas estratégias. Em entrevistas, audiências e participações em comissões legislativas, sustentou o uso do chamado “tratamento precoce” e chegou a defender, em depoimento à CPI da Covid, que a ideia de imunização de rebanho sem vacinação era “pertinente”, baseada na ampla exposição da população ao vírus.

Essas posições estavam em desacordo com o consenso estabelecido por entidades científicas nacionais e internacionais, que apontavam a ineficácia desses medicamentos contra a covid-19.

A proximidade de Nise com o núcleo do governo não se restringia ao Ministério da Saúde. Documentos entregues à CPI da Covid indicaram que Nise também esteve no Palácio do Planalto em pelo menos quatro ocasiões ao longo de 2020.

A CPI reuniu depoimentos e evidências que apontavam para a existência de um grupo informal de aconselhamento ao presidente, formado por médicos, empresários e assessores, que atuava paralelamente à estrutura oficial do ministério.

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que atuou na pasta até abril de 2020, afirmou aos senadores que Bolsonaro recorria a “outras fontes” de informação e utilizou o termo “assessoramento paralelo” para descrever esse processo. Autoridades como o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, Antonio Barra Torres, também mencionaram a atuação de um núcleo externo influenciando decisões estratégicas.

Nesse arranjo, a presença frequente de Nise em reuniões não registradas com a cúpula da pasta e com o entorno presidencial tinha um peso específico. Ela não ocupava cargo formal no governo, mas tinha acesso a espaços decisórios e participava de discussões que resultavam em políticas públicas de grande impacto.

A ausência de transparência sobre esses encontros impediu a reconstrução completa do conteúdo das reuniões, mas a coincidência temporal entre sua atuação e as medidas adotadas pelo governo indica uma relação direta entre o aconselhamento informal e a condução da política sanitária.

Esse conjunto de decisões teve impacto letal. Estudos comparativos indicam que o Brasil registrou um excesso de mortalidade significativamente acima da média global durante a pandemia. O país figurou entre os que mais concentraram mortes em termos absolutos e proporcionais, ultrapassando, em diferentes momentos, a tendência internacional quando ajustada por população.

Ao final da crise sanitária, o Brasil somou mais de 700 mil mortes por covid-19 — um número que, à luz de análises epidemiológicas, não pode ser dissociado das escolhas de política pública adotadas naquele período.

É isso por hoje. Se você chegou até aqui, obrigado pela leitura — e, se puder, compartilhe esta edição com alguém que também deveria acompanhar esse tipo de história. Nos vemos na próxima terça-feira.

Paulo Motoryn