domingo, janeiro 31, 2021

Precisa-se de uma vacina contra privilégios e que elimine o estilo irracional de Bolsonaro


Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Roberto DaMatta
O Globo

Considere uma fotografia. Nela você vê meninos, jovens e idosos, homens e mulheres. Todos olham para a câmera sorrindo, e logo você acha que se trata de uma família. Mas só há um modo de confirmar suas intuições, porque, se a foto exibe contundentemente os indivíduos, ela não mostra o mais importante: as suas relações.

Uma visão mais precisa do quadro só pode ocorrer quando você, realizando um trabalho parecido com o dos jornalistas, antropólogos e policiais, indagar quem é quem e — nessa indagação — descobrir a teia invisível que liga esses indivíduos entre si. Quando os elos são revelados, os indivíduos ganham existência — são parte de um enredo.

QUEM SOMOS – Aquela bela mulher é a mãe dos meninos; o sujeito engravatado é seu ciumento marido; aquele velho sorridente é o avô; aquela pessoa no fundo é a empregada…

Todos nós aprendemos a ser quem somos por meio de relações centradas no nosso grupo doméstico. Foi por meio de um código administrado pelos nossos pais — os “donos na casa” — que aprendemos uma língua e o mundo. Esse código só é questionado nas crises, pois o sistema da casa é tido como natural. Ele é hierárquico e sustentado pelos axiomas morais de direitos e deveres (o “pode” ou “não pode”) não escritos.

Descobrimos a individualidade na “rua” quando “levamos pau” na escola, brigamos, xingamos e, sobretudo, namoramos, experimentando uma sexualidade vedada no lar. O mundo da “rua” nos revela um outro lado. Nele, não somos exclusivos, porque suas regras são impessoais e, por isso, sempre surgem contra nós, porque nos obrigam a existir como anônimos e — eis o absurdo! — como iguais: desconhecidos e comuns.

ESQUIZOFRENIA – Contra elas, usamos as teias invisíveis da casa. O resultado é uma óbvia esquizofrenia (semente de corrupção, nepotismo e despotismo); e uma ambiguidade que cobra seu alto preço contrariando os valores democráticos da vida pública.

Somos “pessoas” em casa e “indivíduos” na rua. Como pessoas, temos os privilégios dos nobres; como indivíduos, somos cidadãos sujeitos da lei. Como ficar vacinado contra o uso dos elos pessoais na rua afirmando que, mais do que pedestres, somos netos de um desembargador ou filhos do presidente?

Se somos “alguém”, como é que os outros não sabem quem realmente somos? O “você sabe com quem está falando?” é um grito a favor de privilégios em situações igualitárias.

DESIGUALDADE ETERNA – No Brasil, os regimes mudam, mas o “você sabe com quem está falando?” permanece cada vez mais atual. Ele vitaliza na medida em que a demanda de igualdade (que exige coerência) parece aumentar.

Mas há uma grande resistência. O melhor exemplo é o estilo intolerante, incoerente e grosseiro de um presidente que canibalizou pessoal e familisticamente um cargo que pertence ao povo brasileiro. E, por meio dele, bloqueia questionamentos baseados na premissa democrática da igualdade.

A razão do estilo áspero, irracional e agressivo de Bolsonaro é um equivalente do “você sabe com quem está falando?”, revelador de uma alergia à liberdade de imprensa — esse aval da democracia.

ELE E TRUMP – Como um anti-igualitário, Bolsonaro se assemelha a Trump, mas há uma notável diferença. Lá, eles instituíram a igualdade republicana até agora contínua nos seus valores; aqui, a igualdade republicana sofreu descontinuidades, e ela é formalmente válida ao lado de muitos mecanismos que sublinham os privilégios — as leis privativas de certos cargos e segmentos.

Escolhendo não escolher entre a casa e a rua, inventamos um estilo de vida minado por contradições, que eram harmonizadas por uma abusiva condescendência. Um preguiçoso “deixa pra lá” que os meios de comunicação hoje denunciam por meio de uma implacável transparência. Nela, vemos a permanente ambiguidade do sistema.

Para quem está faz tempo na estrada, parece claro que vivemos reinventando a democracia, somente para sentir saudade do autoritarismo. Amamos as regras universais no papel e para os outros, mas as odiamos na prática, quando descobrimos que a elas estamos sujeitos.

NEGACIONISMO –  A pandemia é ainda mais trágica porque não tem viés político. Exceto pela gigantesca ausência de liderança adequada e humana, uma ausência resultante de um irracional negacionismo. Mas o fato concreto é que o vírus desorganiza hierarquias e obriga a neutralizar a nossa habitual desumanidade. Ela estampa o dilema da ambiguidade relativa que mantém privilégios, mas, simultaneamente, apresenta a cura.

Iniciamos a vacinação dentro de um campo politizado precisamente pela velha enfermidade de um “você sabe com quem está falando?” — o famoso “quem é que manda?!” — que prolonga a doença e a morte. E assim será até nos convencermos de que a cura dos privilégios chega com a vacina da democracia — essa forma de organização coletiva simples e frágil que, como os bons remédios, requer uma enorme paciência, um exigente bom-caratismo e um persistente bom senso.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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