domingo, dezembro 27, 2020

Vacinação em crianças não deve ser critério para volta às aulas, dizem especialistas

 

por ana Bittallo|Folhapress

Vacinação em crianças não deve ser critério para volta às aulas, dizem especialistas
Foto: Getty Images/iStockphoto

Frente ao anúncio de um plano de vacinação brasileiro contra a Covid-19, a volta às aulas presenciais, defendida por pais e professores somente quando houver vacinação em massa, parece estar mais próxima no horizonte.

No entanto, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, informou no dia 13 que as crianças não serão incluídas no programa de vacinação contra a Covid-19.

Para Renato Kfouri, pediatra e presidente do departamento de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é um equívoco condicionar a volta às aulas à vacinação em crianças.

"As crianças não estão sendo alvo dos programas de vacinação e dos estudos de fase 3 agora porque não são grupo de risco e tampouco fazem parte da cadeia de transmissão de forma importante", explica o pediatra.

De modo geral, as crianças apresentam infecções mais leves, com menos sintomas, e são capazes de disseminar menos o vírus do que indivíduos adultos, explica Kfouri.

Estudos já relataram também que as crianças possuem menor carga viral do que adultos e podem até ter uma proteção natural contra o coronavírus devido a infecções passadas de outros vírus causadores de resfriados.

"Tanto na proteção direta, que seria vacinar grupos de risco, quanto na proteção indireta, de vacinar aqueles que transmitem mais, as crianças não são foco dos estudos de vacinas", diz.

Uma carta assinada por mais de 400 pediatras no final de novembro pedia o retorno às aulas, argumentando que ele é seguro para crianças e adolescentes, desde que medidas de proteção individual sejam implementadas.

Os médicos também defendem que os mais jovens possuem, raramente, complicações de Covid --um pequeno número de crianças desenvolve a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P).

"Não sabemos ainda quanto tempo vai durar a proteção das vacinas em desenvolvimento, mas, se elas precisarem de reforço a cada cinco ou dez anos, vacinar agora pode 'empurrar' a proteção das crianças até um momento em que elas podem ser suscetíveis e adoecer mais gravemente. Isso me pareceria um erro", completa.

Em termos de saúde pública, todos os esforços dos países e das desenvolvedoras de vacinas têm sido para garantir a proteção daqueles com maior risco de hospitalização e mortes --por enquanto, os idosos, pessoas em situação de vulnerabilidade e portadores de comorbidades. "É claro que existem crianças com comorbidades, e é importante entender como as vacinas funcionam nesses grupos, mas em um momento posterior."

Os estudos de vacinas começam sempre em indivíduos adultos saudáveis. A partir daí, podem seguir para outros grupos. Quando se conhece que um imunizante é seguro, ele pode passar a ser testado em crianças.

Diversas farmacêuticas têm desenvolvido em paralelo estudos de fases 1 e 2 --quando se testam a segurança, dosagem e capacidade de produzir anticorpos das vacinas-- com crianças e adolescentes. A vantagem seria aproveitar o momento de grande investimento e também as taxas elevadas de contágio do vírus para conduzir os estudos.

A Pfizer, cuja vacina já foi aprovada e esta em uso no Reino Unido, nos EUA e em outros países, iniciou em outubro um estudo combinado de fases 2/3 com crianças a partir de 12 anos do seu imunizante, sem divulgar quantos jovens estariam envolvidos.

Lista **** A empresa de biotecnologia norte-americana Moderna, cuja eficácia da vacina foi divulgada em 94,1% pela própria companhia, deve iniciar no próximo dia 17 um estudo com 3.000 adolescentes de 12 a 17 anos. A empresa ainda está recrutando os voluntários.

Demais vacinas com testes em faixas etárias similares incluem a Janssen, braço farmacêutico da Johnson & Johnson, que vem testando seu imunizante em indivíduos maiores de 16 anos nos Estados Unidos e na Bélgica, e a da Universidade de Oxford/AstraZeneca (Reino Unido).

As fabricantes chinesas Sinovac e CanSino foram além e iniciaram testes de suas vacinas de vírus inativado e com vetor viral não replicante, respectivamente, para saber qual a segurança e dosagem dos fármacos em crianças de 3 a 17 anos, no caso da Sinovac, e a partir de 6 anos, no caso da CanSino.

Há também um ensaio clínico utilizando um vetor viral de um lentivírus -tipo de vírus associados a doenças neurológicas- modificado com o material genético do Sars-CoV-2 em indivíduos com idades de 6 meses a 80 anos de idade pelo Hospital de Shenzhen, na China.

Planos de vacinação contra a Covid divulgados em todo o mundo não preveem a inclusão de crianças. Os resultados de segurança e eficácia devem primeiro nortear essa decisão, assim como o de saúde pública, seguindo a evolução da pandemia no mundo.

De acordo com um documento publicado pela Organização Mundial da Saúde, no último dia 11 de dezembro, a volta segura às escolas deve ser acompanhada de um monitoramento constante de novos casos de Covid-19, da situação epidemiológica local e das condições de higiene dos estabelecimentos.

Além disso, deve avaliar quais os impactos para o ensino dos alunos ao manter as escolas e se há condições de equidade -acesso ao ensino remoto, alimentação- entre eles.

Segundo um estudo feito no Reino Unido, a reabertura parcial das escolas esteve associada com menos de 0,1% de novos casos de Covid-19.

Em nota, o Ministério da Saúde diz que "a definição dos grupos prioritários para a vacinação está considerando a epidemiologia da doença, se atentando aos grupos e faixas etárias mais acometidas e/ou mais expostas ao vírus e com maior risco de gravidade e óbito."

"É importante ressaltar que o grupo pode sofrer alterações de acordo com os resultados dos estudos das vacinas", completa.

Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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