segunda-feira, dezembro 28, 2020

Com os tropeços do liberalismo, os governos autoritários são a nova ameaça a democracia

Publicado em 27 de dezembro de 2020 por Tribuna da Internet

TRIBUNA DA INTERNET | A democracia começa a morrer quando os cidadãos não  respeitam a opinião alheia

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Martin Wolf
Financial Times/Folha

“Pela primeira vez neste século, entre os países com mais de um milhão de habitantes o número de democracias agora é inferior ao de regimes não democráticos”. Essa afirmação preocupante foi feita pelo historiador Timothy Garton-Ash, da Universidade de Oxford, em um ensaio sobre “o futuro do liberalismo”.

A observação reflete o que Larry Diamond, da Universidade Stanford, define como “a recessão democrática”. A eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos é um alívio. Mas essa história ainda não acabou.

POLÍTICA E ECONOMIA – Para compreender o que está acontecendo, é preciso conectar política e economia. Branko Milanovic, um especialista em desigualdade, o fez em “Capitalism Alone”, publicado no ano passado. O capitalismo triunfou, ele argumenta. Milanovic está certo.

Mas, acrescenta, as economias capitalistas seguem dois sistemas políticos distintos, nas maiores economias: o modelo “liberal” dos Estados Unidos e seus aliados, que é a preocupação de Garton-Ash e Diamond, e o modelo “político” da China.

Milanovic argumenta, corretamente, que a democracia liberal é boa em si e por si, e que permite uma correção pacífica de rumos. As pessoas desejam liberdade, e os eleitores dos Estados Unidos rejeitaram Donald Trump. Os chineses não podem fazer o mesmo com o líder chinês Xi Jinping. O argumento em defesa do “capitalismo político” é instrumental: ele funciona.

MAIOR DO MUNDO – A ascensão da China foi de fato extraordinária. Uma pesquisa recente do Pew Research Center demonstra que muito mais europeus veem a China, e não os Estados Unidos, como maior economia mundial, hoje, embora os sul-coreanos e japoneses discordem dessa avaliação.

A dicotomia de Milanovic é útil mas simplista. Uma terceira versão política do capitalismo existe: o capitalismo demagógico autoritário. Ele pode surgir do colapso do comunismo, como na Rússia atual, ou de uma democracia enfraquecida, como no Brasil e na Turquia.

O capitalismo demagógico autoritário é um híbrido. Como no sistema chinês de capitalismo burocrático autoritário, o governante está acima da lei e não tem de prestar contas democraticamente –as eleições são uma farsa. Mas o poder é pessoal, não institucionalizado.

IDEAL DE TRUMP – É uma política corrupta e criminosa. Depende da lealdade política de capangas e sicofantas. Seu cerne muitas vezes é formado por familiares do líder, vistos como os mais confiáveis dos subordinados. Era esse o sistema político que Trump desejava instalar nos Estados Unidos.

Governantes como esses são como larvas de vespas que comem a aranha por dentro. Conseguem vencer uma eleição e a seguir erodem os baluartes institucionais e políticos contra o governo pessoal por prazo indeterminado.

Trump tem todos os traços relevantes: a verdade é aquilo que ele diz que é, uma eleição justa é uma eleição que ele vença, e um bom funcionário é aquele que demonstre lealdade. Ele quer ser autocrata. Isso é diferente de dizer que ele quer governar. Nero tampouco tinha muito interesse em governar. Mas definitivamente era tirânico.

EXEMPLO DOS EUA – Os acontecimentos nos Estados Unidos demonstraram duas coisas cruciais. A primeira é que as instituições centrais dos Estados Unidos, entre as quais os tribunais, resistiram ao esforço de Trump para derrubar o resultado das eleições. Segundo, uma vasta proporção do Partido Republicano colaborou na manutenção de sua mentira de que a eleição foi fraudada. Isso sublinha mais uma realidade dos quatro últimos anos: a liderança republicana demonstrou absoluta obediência ao seu líder, praticamente até o último suspiro.

Isso não aconteceu por acidente. É o resultado lógico da estratégia política e econômica do “populismo plutocrático”. Trump é o resultado natural do objetivo estratégico da classe doadora de verbas políticas –cortes de impostos e desregulamentação. Para atingir esse objetivo, é preciso convencer uma grande parcela da população a votar contra seus interesses econômicos ao concentrar atenção em questões de cultura e identidade.

Essa estratégia funcionou e continuará a funcionar. Trump pode ter sido derrotado, mas o trumpismo permanece. Padrões não inteiramente diferentes podem ser detectados no Reino Unido do brexit. O foco da esquerda com formação universitária em sua forma preferencial de política de identidade serve aos interesses de sua contraparte à direita.

NOVO PRESIDENTE – Biden é um homem decente. O que ele deseja realizar, em termos de política interna e externa, faz sentido, claramente. Mas ele enfrentará uma oposição determinada a causar seu fracasso. De fato, causar o fracasso do governo é o cerne da política de direita –isso e fomentar a raiva das bases.

É preciso ser cego para não perceber em que direção isso nos está levando. Os doadores não seriam as primeiras pessoas ricas e poderosas a acreditar, incorretamente, em que são capazes de controlar os demônios demagógicos que ajudaram a criar.

Como demonstra a pesquisa do Pew Center, a realidade dos Estados Unidos de Trump erodiu a confiança do planeta na competência e decência do país.

MUITO DESCRÉDITO – Biden encontrará muita dificuldade para reconquistar a confiança perdida, não porque as pessoas não acreditam nele, mas porque elas não acreditam em seu país. E já que o futuro dos Estados Unidos como democracia liberal continua incerto, a causa continua a enfrentar sérias dificuldades em todo o mundo.

A democracia liberal tem uma grande vantagem: seu principal oponente. Como aponta Samantha Power, da Universidade Harvard, a aprovação à China na pesquisa Gallup é de 32%, em mais de 130 países.

E esse número mal se mexeu em 10 anos. As pessoas respeitam a China, mas não gostam dela. A China também encara o desafio de sustentar o dinamismo econômico sem um Estado de Direito confiável.

SISTEMAS FRACASSADOS – Nenhum dos sistemas dominantes atuais está funcionando bem. O capitalismo é inovador mas cria imensos desafios sociais, políticos e ambientais. A democracia liberal está corroída, mesmo em seu núcleo. Mas a política autoritária que a desafia é imensamente pior.

O governo por gangsteres ou burocratas brutais que não prestam contas a pessoa alguma é profundamente deprimente, mesmo que os segundos sejam muito menos incompetentes.

Aqueles de nós que continuamos a acreditar em liberdade e democracia esperamos que Trump seja o alerta de que todos precisávamos. Mas duvido que isso se confirme. Ninguém é tão cego quanto um rico egoísta que se recusa a ver.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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