terça-feira, dezembro 29, 2020

Ao perdoar crimes que considera menores, Bolsonaro é coerente com seu passado de delinquente


Brasil. Plano «Beco sem saída» do Capitão Bolsonaro – Kaos en la red

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

José Nêumanne
Estadão

“Ninguém me pressiona para nada, eu não dou bola para isso”, confessou o presidente Jair Bolsonaro, enquanto circulava ao longo de duas horas em Brasília, sem usar máscara, no sábado, 26 de dezembro, um dia depois da celebração do nascimento do fundador da fé que ele diz professar. No dia seguinte, domingo, 27, fiel ao estilo de carcará, que pega, mata e come, mas depois assopra na ferida, assegurou:

“Temos pressa em obter uma vacina, segura, eficaz e com qualidade, fabricada por laboratórios devidamente certificados. Mas a questão da responsabilidade por reações adversas de suas vacinas é um tema de grande impacto, e que precisa ser muito bem esclarecido”. Ou seja, nem sempre ele mente descaradamente a ponto de merecer o apelido de “minto”. Quando morde, é veraz. Quando recua, mente, ao fingir que o fez antes.

LEMBREM AS PROMESSAS – Faltou mais com a verdade, de forma repetida e contumaz, no palanque da campanha presidencial, quando prometeu combater a corrupção, a violência, o crime e os privilégios de uma casta, à qual pertence, que trata as burras da República como se fossem propriedade familiar.

No exercício do mandato presidencial, que conquistou com o mais extenso, desavergonhado e cínico estelionato da História do País, ele dedicou-se a perdoar os “pequenos delitos”, cometidos por assassinos da velocidade ao volante, desmatadores da Amazônia e destruidores do meio ambiente.

Em particular, ele próprio e seus filhotes extorquem funcionários fantasmas em seus gabinetes, legitimados pelo voto popular proporcional em seus mandatos, de acordo com provas levantadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP/RJ). Assim como portadores de armas legalizadas e fora do alcance do rastreamento do Exército, que dispensou escoiceando o comando da Força sem a menor cerimônia.

SEMPRE COERENTE – Embora sua eleição majoritária seja uma obra-prima do engodo da venda do bonde e pronta entrega de uma parelha de muares, não se pode, contudo, incriminá-lo por falta de coerência – segundo Assis Chateaubriand, a virtude dos imbecis.

Afinal, sua ação, resultante na mortandade superior à propiciada pelas bombas atômicas ianques sobre Hiroshina (140 mil mortos) e Nagasaki (74 mil), supera 190 mil numa contagem rasa com subnotificação. Ou seja, deixa ambas para trás em recorde e deverá alcançar, à média de mil por dia, a soma das duas tragédias em um mês.

Bolsonaro entrou na latrina pública planejando atentados à bomba em quartéis e na adutora do Guandu, no Rio. Condenado em segunda instância por terrorismo, foi perdoado por nostálgicos da ditadura no Superior Tribunal Militar, em decisão estúpida, absurda e funesta.

APOIO A MILICIANOS – No exercício de sete mandados de deputado federal entre 1991 e 2018, destacou-se pelo apoio irrestrito dado ao capitão PM do Rio Adriano da Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras e do empreendimento homicida Escritório do Crime, na base eleitoral dele e de sua famiglia. E também pela associação com o médico, sindicalista e petista Arlindo Chinaglia na autorização para venda da “pílula do câncer”, primeira demonstração explícita de sua vocação para charlatão barato de feira livre.

Na campanha presidencial de 2018, adotou bandeiras populares com desfaçatez e esperteza. E caiu no gosto do Brasil profundo, que, como ele, tem um vasto elenco de vilezas históricas. A maior delas, a escravidão de índios e, depois, africanos degradados em porões infectos de navios negreiros, cospe na honra de quem desfralda o “auriverde pendão”, como denuncia o poeta Castro Alves.

Outra, quase das mesmas proporções, é o degredo em território nacional em pocilgas desumanas dos escravos forros, abandonados à própria sorte sem o menor planejamento, conforme denunciou o mais lúcido dos abolicionistas, Joaquim Nabuco.

DE PARAQUEDAS – O presidente, pois, não caiu na História de paraquedas, que aprendeu a manejar quando conheceu Fabrício Queiroz, subtenente da PM RJ, tesoureiro do peculato de que o MP RJ acusa seu primogênito, Flávio, beneficiário de “doações” de Adriano e benemérito doador de ao menos R$ 98 mil na conta da primeira-dama, Michelle, que o vendedor da cloroquina, destruidora de fígados e devoradora de fetos, assumiu como seus.

Em reveladora entrevista que publico no Blog do Nêumanne no Portal do Estadão desde sábado 26 último, o pioneiro no jornalismo ambiental no Pasquim, Edilson Martins, contou que a famiglia Bolsonaro sempre teve relações íntimas com milícias.

Mas não é a única. A modalidade criminosa controla, como ele lembrou, os distritos eleitorais em que o prefeito afastado e não reeleito do Rio, Marcelo Crivella, mais recebeu votos. E nenhum ex-prefeito, entre eles o que agora foi reeleito, Eduardo Paes, nem governador nenhum, incluindo o atual, Cláudio Castro, moleque de recados do clã presidencial, denunciaram as evidências de crime dos bandos na periferia da ex-Cidade Maravilhosa.

O Brasil do bem sabe que o torturador Brilhante Ustra não é “um cidadão de honra” e que o massacre de Canudos é uma nódoa indelével na história do Exército. E sente vergonha e nojo do Brasil do Bê, de Bolsonaro, que deplora a vacina e exalta, não o placebo, mas uma mezinha maldita, que faz mal ao paciente impaciente pela imunização, que ele lhe nega.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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