sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Vereadoras do DEM na Câmara se juntam à candidatura de Wagner

Jairo Costa Jr. e Luana Rocha | Redação CORREIO

A sucessão estadual começou a refletir na Câmara de Vereadores de Salvador. O lance mais evidente no jogo político que se desenha para 2010 foi o anúncio feito pelas duas únicas vereadoras do DEM - Tia Eron e Andréa Mendonça - de que deixam de obedecer às ordens do partido na Casa e se
afastam do prefeito João Henrique (PMDB), formando um novo núcleo de parlamentares auto proclamados como “independentes”.

Fontes ligadas aos partidos envolvidos na disputa deste ano confidenciaram ao CORREIO que, por trás da debandada, está o desejo das vereadoras de embarcar na candidatura de Jaques Wagner à reeleição. Uma por orientação familiar. A outra pelas alianças formadas por sua principal base de apoio.

A vereadora Andréa Mendonça é filha do empresário e deputado federal Félix Mendonça (DEM), que há meses vem comungando com o projeto de poder petista. O irmão de Andrea, Félix Mendonça Júnior, também conversa abertamente sobre o desejo de assumir a herança política do pai, através de uma candidatura à Câmara Federal no barco de Wagner.

Desde setembro, Mendonça Júnior está filiado ao PDT - na mesma cerimônia que também referendou o ingresso na sigla do presidente da Assembleia, Marcelo Nilo (ex-PSDB), e de políticos historicamente ligados ao carlismo, entre eles, o deputado federal José Carlos Araújo (ex-PR), e o deputado estadual Paulo Câmera (ex-PTB).

A vereadora Tia Eron, por sua vez, é ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, cuja orientação nacional é apoiar o PT em todas as esferas. Apesar das evidências, as duas democratas negam que a decisão esconda uma manobra para forçar o DEM a expulsá-las, pavimentando o caminho para a
filiação a um partido da base governista.

As vereadoras afirmam que a saída delas da bancada aliada do prefeito teve como único objetivo a liberdade em relação ao Executivo. “Vamos manter uma postura de independência. Vamos votar apenas aquilo que considerarmos que seja bom para a cidade”, afirmou Andrea.

A parlamentar enumerou ainda os motivos para deixar a base do prefeito. “Não concordo com a postura dele (prefeito) em mandar os projetos para a Casa sem uma discussão prévia e sempre de última hora. Assim não conseguimos debater nem com os secretários os temas pertinentes”, disse a democrata.

“O líder do prefeito na Câmara (vereador Pedro Godinho, do PMDB) não pode decidir por nós como vamos votar. Não daremos mais esse direito”, acrescentou.

ISOLAMENTO As parlamentares afirmaram ainda que negaram um convite feito pelos vereadores Alan Castro (PTN), Luizinho Sobral (PTN), Alcindo da Anunciação (PSL), David Rios (PTB) e Pastor Luciano (PMN) para integrar uma espécie de bancada independente - o que não é permitido pelo regimento da Casa, que só considera as bancadas de situação e oposição.

“Não vamos participar de nenhum bloco específico. Queremos apenas independência”, disse Eron. Na prática, no entanto, as duas vereadoras nunca foram aliadas do prefeito. Na votação do projeto para a concessão do serviço de recolhimento do lixo, Eron deixou o plenário antes da apreciação do projeto pela Casa e Andrea votou contra a proposta.

“Na verdade, elas nunca foram da bancada governista. Então a postura delas não indica uma perda”, afirmou um vereador ligado a João Henrique. Presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), principal cargo ocupado pelo DEM na administração municipal, Cláudio Tinoco negou que a postura das vereadoras possa interferir na sua relação como Executivo.

“Eu me sinto muito prestigiado pela administração municipal e isso não vai influenciar. Eu dissocio completamente a postura delas com a relação entre o DEM e o PMDB”, afirmou. Já o deputado federal ACM Neto (DEM) foi mais crítico em relação à postura das vereadoras. Ele afirmou que não houve uma consulta prévia das parlamentares para a decisão.

“Não sei o motivo que levou à decisão delas. Não posso responder por elas, porque ambas não fazem política comigo, sequer em Salvador. Elas são do partido, mas não falam por ele”, disse. ACM Neto afirmou ainda que a decisão das democratas não reflete a postura do partido em relação ao prefeito.

(Notícia publicada na edição do dia 26/02/2010 do CORREIO)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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