Tiradentes, Lula e o gesto L: um L de liberdade
Por Mário Milani — 2026
O Brasil celebra, no Dia de Tiradentes, mais do que um mártir da Inconfidência. Celebra um símbolo permanente de resistência, de coragem cívica e, sobretudo, de luta pela liberdade. Tiradentes não foi apenas um homem de seu tempo — foi uma ideia que atravessou séculos e permanece viva no imaginário coletivo de um país que ainda busca justiça plena.
Foi com esse mesmo espírito que, em 1989, idealizei o gesto do “L” associado a Luiz Inácio Lula da Silva. Em um contexto de escassez absoluta de recursos, quando o Partido dos Trabalhadores não tinha dinheiro para campanhas tradicionais, era preciso criar algo simples, poderoso e acessível a todos. Um símbolo que dispensasse custos e multiplicasse significado.
Não foi um ato improvisado. Houve inspiração — mas também estudo. A semiótica e a neurolinguística orientaram a construção de um gesto que fosse facilmente assimilado, repetido e compartilhado. O “L” nasceu como linguagem não verbal, mas carregado de intencionalidade: comunicação direta, identificação coletiva e força simbólica.
Com o tempo, o gesto ultrapassou a política. Tornou-se saudação, cumprimento, ritual. Um código coletivo de pertencimento. Um gesto que conecta, que reconhece o outro, que afirma valores comuns. Tudo o que aconteceu com esse símbolo ao longo dos anos foi, em essência, previsto em sua origem: sua capacidade de se expandir como expressão popular.
O “L” é mais do que a inicial de um nome. É L de Lula, sim — mas também é L de liberdade. É L de luta. É a síntese de um ideal que move homens e mulheres de boa vontade, comprometidos com um Brasil mais justo, democrático e igualitário em seus direitos mais elementares. Acredito que o “L” vai atravessar o tempo e se tornar um símbolo eterno na luta por liberdade — um legado vivo pela liberdade.
Hoje, essa simbologia ganha dimensão internacional. Em agendas recentes pela Europa, em países como Espanha, Alemanha e Portugal, Luiz Inácio Lula da Silva tem sido ovacionado e saudado por milhares de pessoas que, espontaneamente, repetem o gesto do “L”. Uma imagem poderosa: multidões erguendo as mãos, em uníssono, reafirmando um símbolo que nasceu simples, mas que hoje ecoa para além das fronteiras do Brasil. O gesto deixa de ser apenas nacional e passa a dialogar com uma ideia universal de democracia, dignidade e esperança.
Neste sentido, o gesto dialoga com a própria memória de Tiradentes. A luta por liberdade e democracia não pertence a um único tempo histórico. Ela se reinventa, ganha novas formas, novos símbolos, novas vozes. O que permanece é o princípio de liberdade como valor inegociável.
Mas a história também nos alerta. Ao lado de Tiradentes, surge a figura de Joaquim Silvério dos Reis, símbolo da traição que interrompeu um movimento libertário. Em uma leitura contemporânea, essa figura histórica pode ser comparada a episódios recentes da vida política brasileira, nos quais instituições democráticas foram tensionadas. A tentativa de ruptura institucional associada a Jair Bolsonaro — amplamente debatida no país após os acontecimentos que colocaram em xeque o respeito ao processo democrático — evoca, em termos simbólicos, o risco permanente da quebra de pactos coletivos. Guardadas as diferenças de contexto e época, a comparação serve como alerta: sempre que a democracia é ameaçada, revive-se o dilema entre lealdade ao bem comum e ações que fragilizam a ordem democrática.
Por isso, lembrar Tiradentes é mais do que reverenciar o passado. É reafirmar um compromisso presente. O “L” que hoje ecoa nas ruas, nas redes, no Brasil e no exterior, é também um chamado: que não esqueçamos jamais dos fundamentos básicos da convivência humana — liberdade e democracia.
