sábado, abril 18, 2026

Eleições serão mais fáceis que em 2022′, diz Wellington Dias, ministro de Lula

Eleições serão mais fáceis que em 2022′, diz Wellington Dias, ministro de Lula

Por Danielle Brant e Vera Rosa/Estadão Conteúdo

18/04/2026 às 11:15

Foto: Tomaz Silva/Arquivo/Agência Brasil

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Wellington Dias

O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias, admite que a divulgação das ações do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa melhorar, vê “instrumentos desafinados” na pré-campanha e necessidade de “organizar a orquestra”. Mesmo assim, diz estar otimista.

Embora pesquisas de intenção de voto indiquem queda na popularidade de Lula, Dias avalia que a eleição deste ano será mais fácil do que a de 2022, quando o petista venceu o então presidente Jair Bolsonaro (PL) por uma diferença de 2 milhões de votos.

“O que é que falta? Falta organizar a orquestra. A orquestra ainda tem instrumentos desafinados. Agora é afinar os instrumentos. Mas temos um bom repertório”, afirmou o ministro, em entrevista ao Estadão.

Ex-governador do Piauí por quatro mandatos, Dias integra o grupo da velha-guarda do PT – que toda semana se reúne para discutir os rumos da campanha de Lula – e coordena as articulações políticas do Nordeste. A região já foi batizada de “Cinturão Vermelho”, mas, nos últimos tempos, o PT vem perdendo votos ali.

Uma das estratégias planejadas pelo partido é atacar a “inexperiência” do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal desafiante de Lula, e mostrar os prováveis impactos de uma aposta de risco nesse cenário conturbado.

No diagnóstico do ministro, falta também mais “sintonia” entre os partidos aliados para apresentar o que o governo fez, em comparação ao período de Bolsonaro. Na seara econômica, ele considera que o governo “exagerou na dose” na meta de inflação e associa o derretimento da renda ao endividamento e à alta taxa de juros.

O sr. vai coordenar a campanha do presidente Lula no Nordeste, região que antes era conhecida como Cinturão Vermelho e onde hoje o PT tem perdido apoio. Qual é a estratégia para recuperar esses votos?

O Nordeste é uma região estratégica desde a primeira eleição do presidente Lula. A partir das convenções, eu devo me afastar para me dedicar exclusivamente ao acompanhamento da campanha. Sou otimista e digo que temos, inclusive, palanques bem fortes em nove Estados. Quando eu era governador (do Piauí), a gente não conseguia ter uma pauta de atenção para os projetos dos Estados com o ex-presidente Bolsonaro. Então, quando chegou o presidente Lula, (havia) muita obra parada, estradas esburacadas. Foi onde a fome e a pobreza mais cresceram e onde também são mais visíveis os investimentos feitos de 2023 para cá. Por isso, acho que também haverá um reconhecimento nas eleições. 

Na última reunião ministerial, o então titular da Casa Civil, Rui Costa, reclamou da comunicação do governo. O sr., recentemente, disse que faltou apoio da base aliada para impulsionar programas da gestão Lula. Qual dos dois fatores pesou mais para o cenário de hoje?

Eu digo que os dois (risos). Vamos lembrar que o presidente Lula foi eleito em 2022, uma eleição dificílima. Quando me falam sobre as dificuldades da eleição de 2026, eu digo: ‘Difícil mesmo foi 2022’.

Mas essa vai ser mais difícil, não?

Eu digo que não. Em 22, nós tínhamos o fato de estar fora do governo. Mas o destaque é que, hoje, nós temos melhores palanques. Em Minas Gerais, por exemplo, (teremos) palanque com o ex-presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco, (Alexandre) Kalil, ex-prefeito de Belo Horizonte, e Marília (Campos), ex-prefeita de Contagem. Se você observar, a gente tem hoje nos Estados – no Rio, com Eduardo Paes, e o próprio Fernando Haddad, em São Paulo – um quadro de candidaturas muito mais potente do que em 22. E cada vez mais será valorizada a presença de dois líderes com bastante preparo. Estou falando de um presidente que tem experiência de três mandatos e de um vice-presidente que já foi ministro e quatro vezes governador de São Paulo. Temos dois timoneiros: Lula e Geraldo Alckmin. Isso conta muito. A gente saiu de uma fase de destruição para a de reconstrução.

Só que não há, por parte da sociedade, essa percepção.

O Brasil estava perdendo economia. A gente era a oitava maior economia, tinha chegado à 12.ª, 13.ª e agora volta para o grupo das dez maiores economias. Veja que, no momento em que o mundo todo está perdendo a economia com as guerras, o Brasil se mantém com crescimento. Menor do que poderia ser, mas em crescimento e recuperação social. A escala brasileira da insegurança alimentar ainda vai ser divulgada, mas a gente deve ter fechado 2025 com mais de 30 milhões de pessoas saindo da fome. Eu digo que esse conjunto de ações ainda não está tendo o efeito que poderia ter. Aqui o que é que falta? Organizar a orquestra. A orquestra ainda tem instrumentos desafinados. Agora é afinar instrumentos, afinar a orquestra. Mas temos um bom repertório.

Quais instrumentos estão desafinados? O sr. se refere à comunicação?

Na prática, a comunicação não pode ser colocada apenas na responsabilidade de uma pessoa. Não vai ser o Sidônio (Palmeira), o ministro da Secretaria de Comunicação Social, não vai ser uma agência. É possível se trabalhar com pesquisas, mas é necessário que em cada lugar, cada vereador, líder social, deputado, pré-candidato, prefeito, ou seja, cada simpatizante possa ter sintonia com aqueles pontos que a população valoriza. Quem desconhece que o presidente Lula trabalha com prioridade social? Mas pouca gente está falando, por exemplo, dos efeitos econômicos. Tem uma geração que, lá atrás, estava se formando e não tinha vaga para emprego. Não tinha a expectativa de colocar um pequeno negócio. Isso agora é realidade. Eu, pessoalmente, comemoro: 93% dos novos empregos é o povo do Cadastro Único Social, do Bolsa Família. Quando a gente olha os pequenos negócios, 5,5 milhões deles vêm do povo do Cadastro Social, do Bolsa Família.

Pesquisas mostram o senador Flávio Bolsonaro em empate técnico com o presidente Lula no segundo turno ou até alguns pontos à frente. A que o sr. atribui esse desgaste de imagem do governo?

Em uma eleição que vai polarizar muito, a possibilidade de vitória do presidente Lula no primeiro turno é real. Tem uma quantidade de eleitores que está em silêncio. Ultimamente, é muito mais potencializada a rejeição. Quem é mais contra? Mas não se apresenta uma proposta. Qual é a saída? O que aconteceu foi que, rapidamente, a candidatura de Flávio Bolsonaro minguou várias outras candidaturas: a do Ratinho (Júnior, governador do Paraná), que, inclusive, desistiu, e mesmo a do Caiado (Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás), que foi colocada.

Não há espaço para furar essa polarização?

Na prática, é como se estivessem cristalizados dois campos: o mais humano e o desumano. De um lado, a valorização da vida com a vacina. Do outro, vira jacaré se tomar vacina. Por mais que o Flávio Bolsonaro queira se disfarçar, ele não vai conseguir. Esse projeto que está querendo voltar já foi. Não é uma novidade. Queremos um Brasil em conflito, colônia dos Estados Unidos? Não. Queremos um Brasil de paz. No agro, por exemplo, muita gente é jovem, não viveu o Lula 1 e o Lula 2 e tinha muito preconceito com base no ouvir dizer (frases como) “Vai ter ocupação de terra todo dia”. Pelo contrário, o que a gente teve foi estabilidade.

Até aliados dizem que esse terceiro mandato do presidente Lula relançou muitos programas, mas não tem uma marca. Ainda dá tempo de construí-la?

Quando eu era da coordenação da campanha de 2022, a gente trabalhava essa realidade da destruição. Aqui no Ministério, destruíram o Cadastro Único, colocaram um aplicativo, destruíram o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), praticamente acabou o Programa do Leite, e assim foi em cada área. Quando a gente assumiu, ficou a ideia de que “o Brasil voltou, Lula voltou”. Qual é o problema? É que fica a impressão de que nós estamos voltando a 2010, quando tinha um outro Brasil no oitavo ano de governo do presidente Lula, 80% de aprovação. E não era isso. Era uma realidade dura.

Qual o principal problema?

O endividamento, por exemplo, terminou caindo no nosso colo. E, na verdade, o endividamento foi (herança) do governo Bolsonaro. O tamanho da dívida que recebemos no começo de 2023, quando a gente soma com um conjunto de despesas jogadas como bomba para o nosso mandato – precatório, dívida dos Estados, coisas não pagas e empurradas –, estourou. Por isso que a dívida chegou próximo de 80% do PIB. Junto com isso, o juro alto, que, aliás, é um problema não resolvido. Não faz sentido o Brasil (ter) uma taxa dez pontos porcentuais acima da inflação.

Eu digo aqui ao meu amigo Galípolo (Gabriel Galípolo, presidente do BC) que é preciso esse compromisso do Banco Central com as condições de crescimento do Brasil. Nós devemos ter, sim, um Banco Central independente. Mas independente do povo, não. A inflação está sob controle. Se tem um ponto aqui que eu acho que poderia ter sido melhor é a meta de inflação. Eu acho que a gente exagerou na dose porque ela poderia vir em uma gradação, alcançar cinco pontos porcentuais para depois alcançar quatro pontos porcentuais, como, aliás, o mundo inteiro faz.

E por que, com a inflação controlada, a taxa de juros não baixou?

Quando a gente puxou uma meta de inflação muito baixa, eu diria quase que uma missão impossível, terminou alongando o tempo de juros altos. Eu reconheço, o Banco Central tem mesmo a sua missão do controle da inflação. Mas é algo que hoje está causando um efeito colateral: 81% da população (está) endividada e isso leva a um mau humor. Há empresas, inclusive médias e grandes, em dificuldade. É um perigo para a economia. Por isso, estou bastante esperançoso de que o Banco Central possa seguir reduzindo (os juros). A renda cresceu. Quando a gente pega os 5% mais pobres, ela cresceu na casa de 40%. E por que a população não está percebendo isso? Porque esse ganho está sendo engolido pelos juros altos.

O governo manifestou preocupação com o uso de recursos dos programas sociais em apostas online, as bets, sobretudo por causa do endividamento das famílias. O que foi feito sobre isso?

Primeiro, quero lembrar que é um problema que recebemos do governo anterior. Foi lá que se liberou as atividades para bets, inclusive sem qualquer regulamentação.

Mas a equipe econômica de Lula tributou as bets.

O governo teve que fazer uma regulamentação para minimamente ter não só lucro, mas responsabilidade. Nós temos hoje mais ou menos 200 mil pessoas que fazem tratamento por dependência de jogos. São pessoas que, muitas vezes, desmantelaram a vida da família. Saíram gastando com apostas e ali comprometeram a própria sustentação da família. Junto com o Supremo Tribunal Federal, nós fizemos uma medida em que não é mais possível o uso do cartão do Bolsa Família para jogar. O que eu chamo a atenção? 51% dos brasileiros dizem que já jogaram. Não quer dizer que todo mundo esteja viciado. E aqui é onde a gente tem que acompanhar. O Brasil teve a coragem de fazer isso com a campanha “Fumar causa câncer”, na própria carteira do cigarro. Não é possível impedir jogos, mas tem a regulamentação. Sou defensor de que a gente tenha (com as bets) aquele caminho que foi dado para o cigarro. A ideia é trabalhar a prevenção.

A eleição de 2026 será a última da qual o presidente vai participar como candidato. Quando o PT começará a discutir o pós-Lula e quem poderá ser esse sucessor?

É um grande desafio. Nós estamos falando de um líder que é um dos maiores do Brasil e do mundo. Substituir um líder desses não será fácil. Porém, nesse instante, todo o olhar está voltado para a eleição. Apesar do meu otimismo, eu aprendi que nada de sapato alto, nada de “já ganhou”, muita humildade e muito trabalho. É essa a ordem do comando da pré-campanha: não desprezar adversário e cuidar para que a gente tenha a confiança do povo brasileiro. Eu preferia não falar de nomes agora, mas temos um conjunto grande de líderes no nosso campo e no PT. 

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