
Lula criticou Donald Trump pela guerra no Irã
Caio Spechoto
Raphael Di Cunto
Folha
O presidente Lula (PT) utilizou a viagem à Europa encerrada nesta terça (21) para fazer uma série de contrapontos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A sequência de declarações intensifica um antagonismo com o americano que, em 2025, ajudou a fortalecer o petista em pesquisas de popularidade e prejudicou a família Bolsonaro.
Em suas falas públicas, o presidente brasileiro criticou Trump pela guerra no Irã, afirmou que nenhum presidente tem o direito de intervir em outro país e ironizou um desejo manifestado pelo americano: o de ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Também falou em adotar a reciprocidade contra os Estados Unidos por causa de um policial federal brasileiro expulso do país.
RESPIRO – Lula teve um respiro em sua avaliação popular no atual mandato quando reagia às tarifas impostas por Trump a produtos brasileiros vendidos para os EUA e recorreu a um discurso de soberania nacional. A sobretaxa foi articulada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro como forma de pressionar contra o julgamento do seu pai por tentativa de golpe de Estado. O ex-presidente Jair Bolsonaro, porém, acabou condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) mesmo assim.
Esse clima arrefeceu, entretanto, e atualmente 40% consideram o governo ruim ou péssimo, ante 29% que o classificam como ótimo ou bom e outros 29% que entendem que o trabalho feito é regular. As dificuldades na avaliação do presidente e do governo são atribuídas à inflação, ao endividamento das famílias e a escândalos como o do Banco Master e do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social).
CONTRAPONTO – Uma das estratégias do petista para recuperar a popularidade é fazer um contraponto ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com quem está empatado nas intenções de voto, na relação com os Estados Unidos.
A intenção é mostrar o principal pré-candidato de oposição como alguém subserviente aos interesses do presidente americano. Petistas costumam lembrar a ocasião em que uma bandeira americana foi estendida na multidão durante manifestação bolsonarista na avenida Paulista, no ano passado.
Lula já disse que a atuação de Trump nas eleições brasileiras provavelmente ajudaria em sua campanha por mais um mandato. Na semana passada, ainda no Brasil, foi questionado em entrevista se temia intervenção dos Estados Unidos na eleição brasileira e respondeu: “Receio eu não tenho. Eu acho que ele [Trump] me ajudaria muito se ele fizesse isso”. A fala ocorreu após o republicano apoiar Viktor Orbán, que estava no poder na Hungria havia 16 anos, e ver o aliado ser derrotado.
CRÍTICAS – Lula viajou à Europa na última semana, fez visitas a governantes estrangeiros e teve encontros com empresários. O brasileiro foi à Espanha e à Alemanha e terminou a viagem nesta terça-feira com uma visita a Portugal. Ele aproveitou as diversas falas públicas a autoridades e imprensa estrangeiras para criticar Trump pela “guerra irresponsável” contra o Irã. “Não podemos levantar todo dia de manhã e ir dormir todo dia à noite com tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra”, afirmou no fórum de defesa da democracia, em Barcelona.
Lula também atribuiu a alta de preços mundialmente às consequências das operações militares de Trump e do presidente da Rússia, Vladimir Putin. “O Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil, aumenta o milho no México, aumenta a gasolina em outro país. Ou seja, é o pobre que vai pagar irresponsabilidade de guerras que ninguém quer?”, disse.
SEM MENTIRA – Na 1ª Reunião da Mobilização Progressista Global, Lula afirmou que “ninguém vai ganhar de mim com a mentira” ao rebater um dos argumentos de Trump para taxar os produtos brasileiros, afirmando que havia um déficit comercial para os EUA –que, entretanto, tiveram superávit de US$ 410 bilhões na balança comercial com o Brasil em 15 anos.
“Não tenho a riqueza que ele tem, eu não tenho a tecnologia que ele tem. E tampouco eu tenho o navio que ele tem. Eu não quero guerra. A única coisa que eu quero é dizer para ele que mesmo sendo pobre, tem uma coisa que nós temos que ter, que é caráter, honestidade e decência, para a gente respeitar o direito de todos”, afirmou.
NOBEL DA PAZ – Lula ainda ironizou o desejo de Trump de ser premiado com o Nobel da Paz, honraria recebida pelo ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama em 2009. “O que a gente vê todo santo dia são declarações, que eu não sei se é brincadeira ou não, o presidente Trump dizendo que já acabou com oito guerras e que ainda não ganhou o prêmio Nobel da Paz. Então é importante que a gente dê logo um prêmio Nobel para o presidente Trump para não ter mais guerra. Aí o mundo vai viver em paz, tranquilamente”, ironizou.
A relação entre os dois países se agravou no fim do roteiro internacional de Lula, com a expulsão do delegado da PF (Polícia Federal) Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como adido da instituição em Miami e teve participação na ação que levou à prisão do ex-deputado pelo PL-RJ Alexandre Ramagem, na semana passada pelo ICE, a agência de imigração dos EUA.
Condenado pelo STF a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão pela participação na trama golpista, Ramagem é considerado foragido no Brasil e perdeu o mandato de deputado federal, mas foi solto pelo ICE dois dias depois da detenção na quarta (15).
MANIPULAÇÃO – Pelas redes sociais, o governo Trump afirmou na segunda (20) que um funcionário brasileiro teria atuado para manipular o sistema de imigração e “contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território” americano, o que levou o governo a solicitar que ele deixasse os Estados Unidos.
Na Alemanha, Lula respondeu que ainda não tinha informações precisas sobre o que tinha ocorrido, mas que poderia tomar medidas contra policiais americanos se ficar comprovado algum tipo de abuso contra Marcelo Ivo pelas autoridades americanas. “Se houve um abuso das autoridades americanas com nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com os deles no Brasil”, declarou.