terça-feira, março 31, 2020

Autor de “Como as democracias morrem” se diz assombrado com ações de Bolsonaro

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Levitsky diz que Bolsonaro “paga pelo seu comportamento irresponsável”
Eduardo Salgado e Letícia Sander
O Globo
Professor da área que estuda governos na Universidade Harvard, o americano Steven Levitsky é um dos autores do best-seller “Como as democracias morrem”, uma das principais referências na análise do fenômeno do populismo em escala mundial. Conhecedor da realidade da América Latina, Levitsky se diz assombrado com a reação de Jair Bolsonaro à pandemia do coronavírus. “É impressionante ver um líder colocar em risco a vida do que pode ser, no pior cenário, milhares de seus cidadãos”, afirmou.
Sobre as motivações do presidente, Levitsky acredita que só resta especular. “Não dá para saber ao certo o que ele está pensando. Talvez Bolsonaro não saiba o significado de crescimento exponencial. Ou ache que os vulneráveis terão de morrer para proteger o resto da população das agruras do impacto econômico do isolamento”, disse, ao longo de mais de meia hora de conversa, o especialista em autoritarismo, democratização e instituições.
O presidente Bolsonaro tem defendido a reabertura de escolas e lojas. Qual é o cálculo político dessa estratégia?
Bolsonaro é bastante inepto e capaz de errar muito. Nesse quesito, ele se parece com Donald Trump. Mas nem todos os populistas são assim. Não diria o mesmo sobre o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi e o turco Recep Erdogan. Não sei dizer se a decisão de Bolsonaro de não ouvir o que a comunidade científica mundial está dizendo de forma quase unânime é um cálculo político ou um tremendo erro baseado no seu instinto. Mas é impressionante ver um líder colocar em risco a vida do que podem ser, no pior cenário, milhares de seus cidadãos.
Por que Bolsonaro parece não temer ser culpado por um número crescente de mortes?
Ele pode estar pensando no curtíssimo prazo. Bolsonaro é um político que tem sofrido resistência do Legislativo e do Judiciário. Aqui e ali já há quem fale em impeachment. Outra possibilidade é que ele não entenda o que a ciência diz sobre a doença. Na semana passada, ele chegou a dizer que brasileiro pula no esgoto e não acontece nada. Não dá para saber ao certo o que ele está pensando. Talvez Bolsonaro não saiba o significado de crescimento exponencial. Ou ache que os vulneráveis terão de morrer para proteger o resto da população das agruras do impacto econômico do isolamento.
Alguns analistas brasileiros acham que Bolsonaro está apostando que o clima brasileiro vai ser uma barreira ao vírus, o que ainda não tem comprovação. Se for verdade, a estratégia do presidente poderá estar correta?
Sim, mas é uma estratégia altamente imprudente. Por um instante, vamos imaginar que essa hipótese se prove correta. À medida que o inverno se aproxima, a temperatura nos estados do Sul e em parte do Sudeste vai cair, o que deixará uma grande parcela da população vulnerável. Dado o tamanho e a diversidade do Brasil, não vejo como a estratégia de Bolsonaro fica de pé, mesmo que a hipótese de um coronavírus menos potente no calor se prove certa, o que hoje é apenas uma possibilidade. Bolsonaro parece preso a um padrão baseado no confronto.
Por quê?
Porque foi o que funcionou na sua vida toda. Políticos populistas mais talentosos conseguem se adaptar quando as circunstâncias exigem. O argentino Juan Perón, por exemplo, tinha um discurso radical e maluco quando estava no exílio nos anos de 1960 e no início dos 1970. Quando voltou ao poder, conseguiu adotar um tom mais conciliador. O venezuelano Hugo Chávez se tornou mais pragmático e moderado entre 1999 e 2003, quando tinha pouco dinheiro do petróleo para gastar. Perón e Chávez são dois exemplos de políticos populistas mais sofisticados do que Bolsonaro.
O que o faz colocar Bolsonaro no mesmo grupo de Chávez, que está no outro extremo no espectro político?
Populismo não tem a ver com posição no espectro político ou na economia. Há populistas da extrema esquerda, passando pelo centro, até a extrema direita. Populistas são, geralmente, personalistas, que apelam às massas com um discurso que ataca o establishment. Nesse sentido, Trump e Bolsonaro fazem parte desse grupo. Bolsonaro também é um autoritário.
Bolsonaro foi deputado por quase três décadas e se tornou presidente numa eleição. Como o senhor pode dizer que ele é a favor do autoritarismo?
Ele não tinha outra opção senão operar num sistema democrático, que é a regra no Brasil. Mas sempre que ele teve um microfone à mão mostrou pouco apreço pelas instituições democráticas. Ele passou décadas defendendo a ditadura e as milícias, homenageando torturadores e criticando normas básicas de direitos humanos.
Na semana passada, o presidente falou de um suposto risco de o Brasil sair da “normalidade democrática”. Qual é a sua leitura?
Me parece apenas retórica. Bolsonaro mostrou na eleição ser muito bom em culpar a esquerda, o que não é uma coisa muito difícil de fazer no Brasil dado a história recente. Mas não vejo nada além de retórica.
Nas últimas semanas, Trump disse que o coronavírus era tão perigoso como uma gripe. Bolsonaro repetiu. Existe algum chefe de Estado que siga as falas de Trump mais que Bolsonaro?
Não conheço nenhum outro. É realmente incrível a semelhança. Não saberia dizer se Bolsonaro e sua equipe estudam Trump e espelham tudo o que ele diz ou se existe uma simples convergência de pensamento. Outros presidentes que estão negando os perigos da pandemia não são ligados ideologicamente a Trump. É o caso de Andrés Manuel López Obrador, do México.
Nos EUA, Trump tem visto sua aprovação aumentar, enquanto Bolsonaro enfrenta panelaços diários. O que explica a diferença?
Bolsonaro parece ser uma exceção. É muito raro que, durante uma crise, o presidente tenha queda de apoio. Em várias partes do mundo, líderes têm visto um aumento de apoio popular. Isso aconteceu na Itália, na França e na Alemanha. Trump também subiu, mas numa proporção menor. Bolsonaro sempre foi menos popular do que Trump. O brasileiro tem tido cerca de 30% ou 35% de aprovação e o americano acima de 40%. Trump tem o apoio quase unânime do Partido Republicano, o que lhe dá uma base sólida. Bolsonaro não tem isso. Acho que a popularidade de Bolsonaro vai cair rapidamente por causa de seus erros. Muita gente que votou nele, mais por um antipetismo do que qualquer outra coisa, está ficando cada vez mais cética. Bolsonaro paga pelo seu comportamento irresponsável.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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