segunda-feira, março 30, 2020

Fake news que contrariam indicações de cientistas ganham espaço em grupos bolsoranistas


Jorge Braga
Charge do Jorge Braga (O Popular)
Deslange Paiva e Thiago Lavado
G1 Brasília
O número de vídeos do YouTube compartilhados em grupos de discussão do WhatsApp cresceu 21 vezes desde o início de março, de acordo com um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp). O centro de pesquisa há anos estuda o debate político e a circulação de informações em plataformas digitais.
O levantamento da FGV-Dapp considerou mensagens trocadas em 162 grupos públicos de debate político no aplicativo — que podem ser acessados mediante convites. No período, foram coletadas mais de 830,2 mil mensagens.
EM 153 GRUPOS – O debate sobre novo coronavírus (Sars-Cov-2) aconteceu em 153 grupos, com menções à doença Covid-19 em 67 mil mensagens.
O G1 analisou os 30 links de vídeos mais compartilhados nesses grupos entre 2 de março e 26 de março (até o meio-dia). E 14 desses vídeos (46%) têm incentivo a condutas que desprezam orientações sanitárias, apresentam informações falsas ou ignoram o impacto da doença. O material foi dividido nestas três categorias de desinformação: vídeos que contrariam orientações de médicos e cientistas – 6 links; vídeos com mentiras sobre a Covid-19 e o coronavírus – 4 links; vídeos que minimizam os efeitos da doença – 4 links.
Os outros 16 dos 30 mais compartilhados não trazem desinformação – são comentários e entrevistas coletivas, por exemplo. Um dos vídeos foi removido por violar diretrizes do YouTube.
FORA DO PADRÃO – Para Victor Piaia, pesquisador da FGV-Dapp, o YouTube sempre foi um destino dominante entre links compartilhados em grupos de política, mas ele acrescenta que o crescimento durante o mês de março é “fora do padrão e mostra a urgência do tema”.
“A simbiose entre Whatsapp e YouTube é muito forte. Não só a nossa pesquisa mostra isso, várias outras também. É muito relevante”, afirma Piaia, dizendo que o número de links saltou de 254 para 5 mil
Ao longo do mês de março, cresceu o envio de links pelo WhatsApp que direcionavam para o YouTube.
AUMENTO VERTIGINOSO – A análise da FGV-Dapp levou em consideração o aumento em três diferentes períodos do mês: entre 2 e 10 de março, foram compartilhados 254 links que direcionavam para o YouTube nos grupos; entre 11 e 18 de março, o número subiu para 2.557; entre 19 e 26, foram compartilhados 5.572 links para o YouTube.
Na análise feita pelo G1 do conteúdo dos vídeos, o vídeo mais compartilhado dentre os que contrariam a orientação de especialistas é o pronunciamento feito na noite de terça-feira (24) pelo presidente Jair Bolsonaro. Em sua declaração, ele pediu “volta à normalidade” e o fim do “confinamento em massa”.
OMS NÃO ACEITA – No esforço para evitar o agravamento do surto da Covid-19, doença causada pelo coronavírus, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o distanciamento social e contraindica aglomerações.
E autoridades de saúde pública de diversos países gravemente afetados pela pandemia, como China, Itália e Espanha, recomendam que as pessoas fiquem em casa.
O link para o canal da TV Brasil com o pronunciamento de Bolsonaro também o mais compartilhado durante todo o mês mês dentre os avaliados pela FGV-Daap e foi citado em 285 mensagens compartilhadas no universo analisado. A fala do presidente recebeu críticas de profissionais de saúde e de cientistas.
HISTERIA E CAOS – Outros vídeos que contrariam orientações de especialistas falam sobre “histeria” (termo também usado por Bolsonaro), que ações de isolamento podem “criar caos social” e que as medidas atuais “vão quebrar completamente o país”.
Já o vídeo mais compartilhado na categoria “mentiras” cita que a China de não teve “o crescimento econômico afetado” em crises como a do coronavírus. Ocorre que país, em decorrência da Covid-19, teve contração da produção industrial pela primeira vez em 30 anos, além de redução em outros indicativos econômicos.
Outras mentiras inclusas em outros três vídeos dizem que o vírus Sars-Cov-2 não resiste a climas quentes; não há mortos em decorrência da doença – na verdade, já morreram quase 25 22 mil no mundo todo ; e o coronavírus foi criado em laboratório pela China – a tese foi desmentida por estudo com pesquisadores dos EUA, Reino Unido e Austrália
MUITA MENTIRA – O vídeo mais compartilhado com informações que minimizam os efeitos do coronavírus e da Covid-19 afirma que a doença irá matar somente “velhinhos e crianças imunodeprimidas”. A OMS já divulgou alerta afirmando que jovens não são imunes ao coronavírus. Além disso, há relatos de morte de jovens saudáveis.
Outros três vídeos dessa categoria chamam a doença de “gripezinha”, afirmando que o coronavírus “não é perigoso para quem é saudável” ou dizendo que “índice de mortes está dentro do normal”.
Contudo, nesta quinta o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, escreveu em rede social: “A pandemia da Covid-19 está se acelerando a uma taxa exponencial. Sem ação agressiva em todos os países, milhões poderão morrer”.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
 Espalhar fake news em assunto tão importante é crime de muita gravidade, porque envolve a saúde da coletividade. Mas quem se interessa? (C.N.)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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