CGU identificou desperdício de dinheiro público em projeto lançado por Bolsonaro que entregou redes de vôlei para escolas sem quadras.
Um projeto esportivo anunciado com alarde, em março de 2022, pelo governo de Jair Bolsonaro, do PL, criou aplicativos de celular para crianças sem acesso à internet e entregou redes de vôlei para escolas públicas do Tocantins que sequer tinham quadras.
A constatação é de um relatório da Controladoria-Geral da União, a CGU, que identificou superfaturamento de R$ 1,3 milhão na prestação de contas de um contrato do programa DNA do Brasil Talentos, executado em 63 municípios do Tocantins em parceria com o governo federal.
A análise da entidade fiscalizadora também concluiu que houve falta de planejamento na execução do projeto e que não foi comprovada a entrega de parte dos materiais previstos.
O projeto DNA do Brasil prometia identificar novos craques entre crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, especialmente nas regiões Norte e Centro-Oeste, usando materiais esportivos e um aplicativo para celular. Mas, na prática, segundo a CGU, o que houve foi “amadorismo”, “desperdício de recursos públicos”, superfaturamento e até suspeita de conluio entre as organizações que receberam os recursos.
A análise da CGU foi feita sobre um contrato firmado em 2021 entre o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado na época pela hoje senadora Damares Alves, do Republicanos, e o Instituto para o Desenvolvimento da Criança e do Adolescente pela Cultura, Esporte e Educação, o Idecace, responsável pelo programa DNA do Brasil.
Os R$ 19,6 milhões destinados a essa entidade vieram de uma emenda parlamentar indicada pela bancada do Tocantins. Desse total, foram liberados R$ 7,5 milhões, referentes à primeira parcela.
Embora as emendas de bancada dificultem a identificação dos políticos responsáveis por direcionar a verba, no discurso de lançamento do programa, Damares agradeceu nominalmente a três deputados federais pelo envio do dinheiro: Vicentinho Júnior (na época no PP, atualmente no PSDB); a hoje senadora Professora Dorinha e Carlos Henrique Gaguim (ambos do União Brasil).
Os três deputados também foram citados na cerimônia pelo presidente do Idecace, Wilson Alves Cardoso – que se apresenta nas redes sociais como orador motivacional, ativista dos direitos humanos, sociólogo, escritor, poeta e pescador subaquático.
Jair Bolsonaro também compareceu ao lançamento do programa, realizado em 22 de março de 2022, no qual disse que o projeto DNA era “da Damares [e] da primeira-dama, Michelle”, com quem também dividia palco nesse dia.
Com a fala, o então presidente transferia para seu governo uma iniciativa que, na verdade, havia sido criada anos antes pelo Idecace, organização da sociedade civil com sede em Brasília.
No discurso, feito em ano eleitoral, Bolsonaro bradou que, graças à sua gestão, o país estaria “há três anos e três meses sem corrupção no governo federal”.
Naquele dia, porém, a primeira prestação de contas do programa DNA do Brasil, referente aos R$ 7,5 milhões pagos em dezembro de 2021, já estava sob suspeita na Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Semanas antes do evento, a pasta comandada por Damares havia decidido não liberar o pagamento da segunda parcela do contrato, que estava prevista para 1º de março de 2022, e tentava marcar uma visita para conferir o andamento do programa.
Em julho daquele ano, a Assessoria de Controle Interno do Ministério da Mulher confirmou as irregularidades, movimento que culminou na auditoria da CGU. A atual ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, decidiu pela reprovação da prestação de contas do Idecace em 2024.
Além do dinheiro para executar o programa no Tocantins, o Idecace recebeu outros R$ 4 milhões para levar o DNA do Brasil para o Amazonas, por emendas parlamentares pagas pelo Ministério da Cidadania também no governo Bolsonaro, e para o Distrito Federal, por meio de parceria com o governo distrital.
As prestações de contas dos contratos com o Ministério da Cidadania ainda estão em análise, enquanto as da parceria com a Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal foram aprovadas, segundo a área de transparência do site do Idecace.